Os homens sem cultura não seriam os selvagens inteligentes de Lord of the Flies, de Golding, atirados à sabedoria cruel dos seus instintos animais; nem seriam os bons selvagens do primitivismo iluminista, ou até mesmo, como a antropologia insinua, os macacos intrinsecamente talentosos, que, por algum motivo, deixaram de se encontrar. Eles seriam monstrusidades incontroláveis, com muito pouco intelecto: verdadeiros casos psiquiátricos. Como nosso nervoso central - e principalmente a maldição e glória que o coroam, o neocortéx - cresceu, em sua maior parte, em interação com a cultura, ele é incapaz de dirigir nosso comportamento ou organizar nossa experiência sem a orientação fornecida por sistemas de símbolos significantes. O que nos aconteceu na era Glacial é que fomos obrigados a abandonar a regularidade e a precisão do controle genético detalhado sobre nossa conduta em afvor da flexibilidade e adaptabilidade de um controle genético mais generalizado sobre ela, embora não menos eral. Para obter a informação adicional necesária no sentido de agir, fomos forçados a depender cada ve mais de fontes culturais - o fundo acumulado de símbolos significantes. Tais símbolos são, portanto, não apenas simples expressõese, instrumentalidade ou correlatos de nossa existência biológica, psicológica e social: eles são seus pré-requisitos. Sem os homens, certamente, não haveria cultura, mas, de forma semelhante, e muito significativa, sem cultura não haveria homens.” (Geertz, 1989:61)

 

Tive meu contato com as obras do Geertz, pela primeira vez, em uma aula de Filosofia da Linguagem e Metafísica, com o professor Stein, justamente sobre a questão da cultura - a tal da nova luz sobre a antropologia do Geertz, que trouxe algumas questões novas a tona para quem estuda antropologia cultural.

 

No entanto, se a antropologia cultural é afetada pelo trabalho de Geertz, não podemos dizer que a filosofia passa impune nesse processo, inalterada pelo trabalho regional de Geertz. Isto porquê, acima de tudo, a antropologia não é uma ontologia regional, mas um campo de estudo que problematiza, justamente, o fundamento de toda uma filosofia.

 

Quando Geertz escreve que a cultura é condição de possibilidade para o homem, um leitor atento imediatamente pensa: a cultura é o ethos onde o ser se movimenta, onde existe um acontecer, ela é o lugar que possibilita o acontecer que é o homem. O elemento universalizável, transcendental, que é colocado como um ser enquanto condição de possibiildade. A cultura é uma estrutura deste ser, não existe compreensão ontológica que não seja cultural - o elemento universal é a cultura, mas este elemento é formal enquanto condição de possibilidade, e aberto enquanto constituído pelos objetos ao alcance da mão - pelas preocupações que norteiam determinadas culturas.

 

Assim, Geertz nos orienta para um dar-se conta de uma forma de construção de valores como construção de mundo - tudo é construído, e a cultura é a condição de possibilidade para tudo isto.

 

Por tudo isto, creio que Geertz passa para a história como um dos grandes autores em filosofia moral no século XX. Geertz vai nos demonstrar porque Relativismo não é um palavrão, nem é um vale-tudo. É apenas uma constatação a respeito da forma como a cultura é um elemento constitutivo, mas que existe com conteúdos diferentes no mundo.

 

Enfim. A vaga de gênio está disponível.