A gurizada anda ouvindo umas bandas meio intoleráveis. O interessante é verificar que as pessoas defendem estas bandas meio intoleráveis que escutam. Mas será que eu posso falar?

Quer dizer, eu escutava (e ainda defendo alguns albuns) coisas como Marilyn Manson quando eu tinha meus 18 anos, 19. Tá certo, depois a gente vai descobrindo outras coisas, mas tem que começar em algum lugar.

É tipo ler Sandman. Sandman é brega, tem coisas ruins pácas ali, mas tu não pode começar lendo Joyce ou Graciliano Ramos, então sandman does the trick.

Claro, panic at the disco é intolerável, e isto independe de “formação”. Tenho minhas dúvidas que um guri que ouça Panic at the disco vá ouvir Slint ou Spoon algum dia na vida, assim como um leitor recorrente de Paulo Coelho não lerá Kafka jamais.

Mas isso nos deixa com um problema sério:

Os tais “emos” ou “emocores” ou “indies” ou o diabo, eles tem salvação?

Conheço gente legal que escuta Death Cab for Cutie. Sei lá, para mim, inicialmente, escutar Death Cab for Cutie é defeito de caráter – mas, ao mesmo tempo,derrepente o cara começa ouvindo Death Cab, daqui a pouco tá ouvindo Lou Reed ou começa a ouvir uma banda nova e decente – tipo Mogaway. Ou boa e genial, tipo Squarepushers, ou Sigur Rós, ou a própria Cat Power..

Inicialmente, me parece idiota todo o esquema emo, do qual fui percursor – o que compreendo menos é a intelectualidade pretendida por este pessoal: quem, em sã consciência, alega ler Joyce e Marx com 18 anos? Com 19?As pessoas levam uma vida para ler Ulysses. Claro, este povo não sabe isso. Eu também não sabia.

Eu também já menti que li Ulysses. Fui pego na mentira e humiliado. Foi uma das coisas mais importantes que já me aconteceram: ser desmascarado. Mas o povo atual destas escolinhas eles não tem contato com mundo exterio. Estão sempre presos num Ossip (Pisso) eterno, discutindo livros do Kafka que eles nunca leram. Só que nenhum deles leu. É pose. Pose de incompreendido, pose de poeta.

Acho que isso tem uma certa importância na formação de identidadeda pirralhada. Deus sabe que teve na minha, mas o que me preocupa é que esta pirralhada não tem contato com outras pessoas, só pensam serem injustiçados. É uma pobreza de debate verificável em qualquer comunidade do orkut. Analfabetos funcionais que já leram Nietzsche e admiram a poesia de Lou Reed. Não dá para entender.

Fico feliz por ter feito parte de uma geração que não embarcou tanto nessa baboseira, ou , pelo menos, ter estado em um ambiente onde pessoas que ouviam metal e ouviam pagode se avacalhavam o tempo todo, mas iam nas mesmas festas e ficavam bêbados juntos. Ter colegas que nunca tinham lido nenhum livro e não faziam nenhuma questão de fingir tê-los lido também ajudou. Me ensinou que intelectualidade é uma coisa artificial e besta – bom, talvez eu tenha aprendido isso tarde, mas aprendi.

Os emos são isso, e boa parte desta gurizadinha por aí que leu todos os livros do Kafka com vinte anos, também. Sei lá o que “é” um emo, assim como não sei que diabos é um “indie”. Sei que todas as malditas bandas “indies” que este povo escuta são da Warner ou de outro selo milionário, e fazem clipes que custam o PIB da somália.

Enfim, o mais importante é pensar se isso PASSA. Passou para mim, foi legal ter sido um adolescente arrogante para me tornar um “adulto” chato – e, eventualmente, arrogante. Mas uma coisa eu digo: no meu tempo, o cara que fosse vir com esta merda para cima do resto do pessoal, ia levar na orelha para aprender a deixar de ser fresco.