Entre o econômico e o moral
Mais uma vez, a minha referência vai ser a The Economist. A edição da primeira semana de outubro (já um pouco defasada, portanto), tem uma matéria meio escondida, mas que me interessa diretamente (tanto que vou digitalizar e guardar). Se chama Pacience, fairness and the human condition.
Já tem algum tempo, tenho estudado questões de antropologia e moral como inseparáveis. O livro do Dawkins (o gene egoísta, that is) foi um head turner no sentido de apontar para uma espécie de normativismo biológico – o Dawkins, parece, identifica a moral como uma reação genética, evolutiva.
Curioso.
A reportagem da Economist, não é nenhuma surpresa, indica um caminho parecido. Basicamente, a reportagem relata uma pesquisa de uma universidade inglesa sobre as diferenças evolutivas principais entre o homem e o chipanzé, focando em diferentes respostas à estimulos externos. O que mais me impressionou na matéria foram duas conclusões:
1) A tese economica, do homem como animal capaz de agregar valor para si mesmo e acumular bens para seguir em frente caiu na pesquisa.
2) A queda da tese economica foi causada por uma prevalencia de estratégias de fairness nas respostas aos impulsos externos. Fairness é jogo limpo, ok? Tipo, não gritar OSAMA! Quando o time dos Estados Unidos tá jogando do outro lado. Estas coisas. Entrar de voadora no drible da foca, já é questão de obrigação moral.
Mas aí que tá, o jogo limpo entra em jogo como estratégia de sobrevivência: o indivíduo tem que levar o interesse do outro em consideração para que a continuidade dele mesmo não seja ameaçada ao longo prazo. Claro, isso não tem um sentido ontológico, ou metafísico. É um sentido bem fundamental, bem chão. O repórter da Economist explica melhor que eu:
A number of researchers in the field of human evolution think that a sense of fairness -and a willingness to punish the unfair even at some cost to oneself – is humanity’s killer app. It is what allows large social groups to form. Without it, free-riders would ruin such groups, because playing fair would cease to have any value.
Duas considerações são interessantes, neste momento: 1) John Rawls tinha razão: o sentido de Fairness é derivado de uma necessidade comunitária. Em uma situação de posição original, que na pesquisa não teve o sentido hipotético do Rawls, indivíduos desenvolvem um sentido de Fairness para dar conta de algo que depois vai ser chamado de democracia. 2) John Ralws não tinha razão: Não é o princípio de Fairness, é um princípio. Claro, alguém pode argumentar que o Rawls sugere uma teoria da justiça, não A teoria. É verdade. Mas Fairness, no sentido que ele expõe, não é negociável. Bem, na formação da identidade, esta pesquisa indica, parece que é.
Mas algumas considerações continuam no esquema kantiano, querem ver?
1) Quanto mais fairness, mais fairness: como assim? Grupos com mais jogo limpo não aceitam com tanta facilidade jogo sujo, e vice-versa. Portanto, quanto mais corruptos os individuos, mais corrupta vai se tornar a sociedade a longo prazo.
2) O sentido da moralidade tá escrito na nossa constituição enquanto sujeito. Se a gente desenvolve ele, ou não, é um problema de adequação e pedagogia.
Claro, isso também implica que o sentido da moral é informado ao alcance da mão, o que abre para um certo relativismo de conteúdo que certamente não está de acordo com o velho virgem de Koninsberg – nem com o fanho vesgo de Harvard. Mas, o maior mérito desta pesquisa, na minha opinião, é que mata, ao mesmo tempo, delírios espirituais de grandeza e fórmulas numéricas de benefícios para explicar a questão tanto do sujeito, quanto da moral.
Outra coisa, não acho que isso nos leve de volta para uma naturalização da moral. Se tu queres dizer que existe uma propensão do indivíduo para jogar limpo, e que isso tá escrito nos genes, tudo bem. Mas o que está escrito nos genes é formal. A gente só informa esta forma depois. E o que interessa, no fim das contas, não é ter uma compreensão de Fairness (grande coisa), mas o quê se compreende enquanto Fairness. Portanto, crianças, não enterrem os fenomenólogos ainda. Nem vamos chamar o Dawkins para nos ensinar o que é moral – o biólogo só tá colocando que a gente consegue se organizar porque temos a capacidade de desenvolver uma concepção de jogo limpo. Todo o resto, todos os conflitos que surgem daí, continuam sendo problemas nossos. E problemas que o biólogo não consegue responder.
(claro, porque o biólogo nunca leu Douglas Adams. A resposta é 42).



Por sinal, o Dawkins não participou da pesquisa. Mas é evidente a influencia na questão da composição genética da moral. Além disso, mesmo que não tenha influenciado, o paralelo é tranquilo de ser demonstrado. Mas Não pensem que a pesquisa que a Economist fala do Dawkins, não fala.