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SPIEGEL: You apparently see, so you have expressed it, a world movement
that either brings about or has already brought about the absolute
technological state?
HEIDEGGER: Yes! But it is precisely the technological state that least
corresponds to the world and society determined by the essence of
technology. The technological state would be the most obsequious and
blind servant in the face of the power of technology.
SPIEGEL: Fine. But now the question of course poses itself: Can the
individual still influence this network of inevitabilities at all, or can
philosophy influence it, or can they both influence it together in that
philosophy leads one individual or several individuals to a certain action?
HEIDEGGER: Those questions bring us back to the beginning of our
conversation. If I may answer quickly and perhaps somewhat vehemently,
but from long reflection: Philosophy will not be able to bring about a
direct change of the present state of the world. This is true not only of
philosophy but of all merely human meditations and endeavors. Only a
god can still save us. I think the only possibility of salvation left to us is
to prepare readiness, through thinking and poetry, for the appearance of
the god or for the absence of the god during the decline; so that we do
not, simply put, die meaningless deaths, but that when we decline, we
decline in the face of the absent god.

Heidegger, Martin. versus Der Spiegel

O texto está disponível na íntegra no link, e é uma das coisas mais tristes da filosofia do século XX. Um homem velho tentando salvar a sua reputação e explicar o inexplicável (sua associação com o nazismo).

Não sei mais o que penso a respeito da associação da técnica e boa parte dos dilemas que temos hoje em dia. Acho que foi domingo que falei com um professor de história, aqui da SIU, que dizia que seus alunos simplesmente não falam mais entre eles. Ele entra na sala de aula, e tá todo mundo no celular. Tipo, ninguém vira pro lado prá perguntar pro colega se tá tudo tranquilo, a questão é usar o dispositivo para se relacionar.

O Walter, por estas alturas, já deve estar rindo histéricamente lembrando da passagem do Agamben que ele mesmo citou neste blog. Para ser franco, eu também lembrei disto quando o professor me falava a respeito – e fiquei dividido. Não dá para culpar o dispositivo pela forma como os indivíduos usam o dispositivo, isso é que me deixa meio encafifado nesta discussão toda. Vê bem, um celular vai facilitar tua vida horrores, mas se tu te tornar escravo da coisa, daí já é outro problema. E não é do dispositivo, ou da técnica malvada.

Não sei mais se acredito na relação entre poder e saber nos termos que Foucault desenvolveu, nem em toda idéia de Ontologia Política, da qual ele deve mais que só um pouco para Heidegger. Estou, neste momento, dividido.

Nunca comprei o projeto Foucaultiano na totalidade, e acho que tem muita coisa ali que tá furada e datada – a paranóia de Foucault com a questão do controle estatal do Bios levou ele a declarar, mais de uma vez, que a AIDS era uma invenção do governo para controlar o sexo alheio. Como o destino é um gozador, Foucault morreu de AIDS. No entanto, tenho um carinho todo especial sobre o que o careca escreveu sobre antropologia e política.

E o Benjamin? Bem, o Benjamin tem adquirido mais e mais influencia no meu trabalho. Mas tenho pensado o Benjamin de forma diferente, acho que minha tese nasce de uma leitura dos textos do Projeto das Paisagens, e dali vai pro pega-prá-capar ontológico-político.

Estes três autores que orbitam meu doutorado tem em comum textos igualmente proféticos e desastrados. Se Heidegger revolucionou a filosofia (e ele revolucionou), ele fez isso pagando um custo pessoal e teórico muito alto (apenas dar as condições de possibilidade para uma política e uma moral é muito pouco), se Foucault é indispensável pelo direito e para a discussão política contemporânea é pela criatividade de seus textos – mas também pelos seus erros, que penso serem mais importantes que seus acertos. O Foucault tem intuições magníficas, mas é preciso aceitar o desafio de despir ele de suas paranóias.

E o Benjamin?

É o maior desafio de todos estes. O Benjamin escreveu pouca coisa publicada em vida, tem quase nenhum método, um certo ranço totalitário (se bem que não estou certo de que concordo com esta tese, acho ela rápida demais para ser totalmente procedente) e um tremendo gosto pelo misticismo. Mas é uma paixão. E não vou conseguir levar em frente uma tese sem isso.

Estou passando por um processo ao mesmo tempo de desintoxicação e de reciclagem. No entanto, passo uma abstinência tremenda de simplesmente discutir estes textos nos seus respectivos contextos. O desafio principal da tese – a originalidade – é o que vem me matando. Não quero ser mais uma cria do Agamben a vomitar lugares comuns.

Muitas das críticas que ouvi ainda repercutem na minha cabeça, e levei elas mais a sério do que pode ter parecido. Eu acho que no fim das contas concordei com o que me disseram sobre meu pré-projeto: é um texto interessante, mas com alguns lugares comuns.

É engraçado, mas este momento inicial é mais reflexivo do que manual – tenho lido menos que a minha média (por uma série de motivos) mas nunca pensei tanto sobre o projeto e como levar ele em frente. O Eco tem razão, a tese é um trabalho de amor.

(e também é um porco)


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