Eu comprei o Kid A no dia que saiu no Brasil.

Lembro exatamente.

Era 2000, tinha uma palestra sobre direito civil, e eu saí da aula mais cedo para chegar no Praia de Belas às dez horas e comprar o cd do primeiro pacote de cds que ia chegar na loja da Multisom. Entrei no shopping, na loja, e convenci o atendente a me vender um dos cds reservados.

A primeira impressão do cd quando eu ouvi ele foi de estranhamento, como se aquela música viesse de um planeta um pouco diferente. Eu já conhecia um pouco de Aphex Twin na época, e já tinha todos os cds lançados pelo NIN. Assim como Recoil. Mas o Kid A tinha alguma coisa diferente.

Junto com o One Thousand Leaves foi o cd que mais ouvi aquele ano. Naquele dia mesmo eu fui até o Lingua, onde eu trabalhava, ouvindo pela primeira vez as músicas. Naquela época a maior parte dos mortais nem sonhava em ter um MP3 player, ter um aparelho de CD que tocasse MP3 já era grande coisa (nunca tive nenhum dos dois, por sinal. Nem Mp3 player nem cd que tocasse MP3).

Uns dois dias depois que comprei o cd, deixei ele cair no chão, e ele riscou toda uma parte – ficou inaudível. Eu comprei um novo correndo, no dia seguinte. Devo ter até hoje as duas “versões” do album lá no exílios dos meus cds.

Hoje escuto o Kid A desde uma perspectiva completamente diferente, mas ainda é um cd que eu redescubro – desenterro. Motion Picture Soundtrack é uma das músicas que eu colocaria como dignas de serem lembradas como pontos altos da produção destes últimos dez anos – damn it, dos últimos vinte!

E How to Disappear Completely, o Mr. Yorke andou dizendo, é a música que o pessoal do Radiohead mais gosta (dentro da produção da banda, that is).

Não sei se é o melhor album do Radiohead – eu acho que não é. Mas talvez seja o album que mais projeta cenários na minha cabeça.

Explico:

Ir do Lingua até o apartamento dos meus pais na zona norte levava, em média, uma hora e meia. Eu ouvia um cd no tempo da viagem. Em 2000-2001, posso dizer tranquilamente, eu ouvia este CD mais de 55% das vezes. Então eu escuto estas músicas e lembro do itinerário do ônibus, e de pegar o T4 vazio na frente do Leonardo Beta e parar apenas no outro terminal. Me lembro de ir prá zona sul sábado de manhã cedo, e voltar exausto para a zona norte perto do meio dia.

Acho que é isso que eles chamam de memória afetiva. Este cd não me lembra de pessoas. Me lembra de caminhos.