Depois de um tempo despressurizando, voltamos ao front.

Me deixou meio encafifado esta declaração do Gilberto Thums, sobre o MST. Pedir a extinção do movimento me parece um radicalismo tão grande quanto, digamos, alegar que a invasão de terras, por parte do mesmo movimento, é legal.

O MST tem o direito de existir, enquanto movimento social. É uma prerrogativa constitucional de qualquer grupo de indivíduos se reunir para reclamar direitos. E é uma garantia importante, cá entre nós. O MST teve (e tem) ações que podem ser chamadas de criminosas? Certamente. Mas a declaração do Thums é lastimável porque ajuda a extremar um debate que já anda bastante irracional.

Só para  colocar em perspectiva, eis a declaração do Thums:

Nós podemos proibir o poder público de negociar com o movimento, pois vamos entendê-los como sendo uma organização criminosa, porque os objetivos não são lutas pacíficas. Qualquer pessoa que faz o que eles fazem estaria na cadeia. Se nós prendemos um ladrãozinho aí que furta um celular nós o metemos por dois anos na cadeia; se eles depredam e fazem tudo o que querem e não acontece nada, então alguma coisa está errada.

Depois, a declaração do MST:

O que se apresenta aqui no Rio Grande do Sul é uma das maiores articulações políticas, jurídicas, econômicas e militares após a ditadura militar. Essa indignação é por termos feito mobilizações que questionam a forma como esse modelo econômico está sendo implementado na nossa sociedade, sobretudo, na agricultura, que entrega aos interesses do capital internacional a nossa terra e a nossa riqueza. E quem pensa diferente está sendo tratado como criminoso, como bandido. O processo do Ministério Público em pedir a dissolução do MST revela um posicionamento ideológico. Quem fala isso é porque não conhece nossos assentamentos, nossas escolas e nosso processo de mobilização que viemos construindo no Rio Grande do Sul durante os últimos 25 anos.

No geral, me posiciono mais do lado do Thums, especialmente quando ele diz o seguinte:

O Ministério Público não está preocupado com as autoridades que apóiam o movimento. Nós estamos usando a Constituição Federal em defesa do Estado Democrático de Direito. A sociedade brasileira está de saco cheio com este movimento, com esta bandeira. Os objetivos estão esgotados. A técnica de atuação é molestar a população. Tivemos um supermercado depredado. A que título? O que o supermercado tem a ver com a ideologia deles? Nada. Por que não invadem o Palácio do Governo então? Qualquer cidadão que entrar num supermercado e pegar um objeto vai preso. Como é que essa gente pode entrar, depredar, invadir, subtrair e não acontece nada? Isso é uma subversão da ordem pública. As coisas se complicaram muito é pela forma de atuação.

No entanto, é dificil concordar com a dissolução do movimento, per se. As ações de membros do  movimento podem ser consideradas ilegais, e creio que são mesmo. Mas é importante que exista um movimento para reinvidicar as prioridades de quem tem pouca – ou nenhuma – força política se falar sozinho.

Já disse  aqui, diversas vezes, que a forma de atuação de membros do MST quando invadem propriedade privada é ilegal. Mas o problema é partir disto para um discurso perigoso sobre desconstituição de movimentos.  E especialmente perigoso por dar munição para o outro lado, que se beneficia deste tipo de embate.

Por exemplo, a declaração do MST aproveita para acusar o MP de ditadorial e fala de um tal modelo econômico e blah blah blah. Não beneficia ninguém o debate nestes termos – assim como as invasões de terra falham em demonstrar qualquer eficácia como mecanismo de viabilização da reforma agrária.

O MST foi de queridinho da mídia, de um movimento exótico que era tomado como um exemplar do bom-selvagem por partes da elite, que rapidamente colocou o movimento na novela das oito , para um expurgo de tudo que os exageros da décadade 60-70 produziram. A ligação (bizarríssima) entre pastoral da terra-via campesina-movimento universitário; tem ainda que ser devidamente explicada, e as reações da direita  precisam ter mais respeito pelo referente constitucional.

A acusação do MP não é uma farsa, como diz o MST, mas precisaria ter colocado as coisas em perspectiva, basicamente, que a ação social pode ser controlada, mas a existência de movimentos sociais não pode ser combatida per se, sem dar vazão para reações indesejadas por todos os lados.

Me preocupa isso, porque o mesmo que fala contra a existência do MST, daqui a pouco pode começar a falar contra a liberdade de associação em geral. Eu sei que o Thums não disse isso, ele disse, exatamente, o seguinte: “Tudo que é movimento pacífico o Ministério Público apóia. Agora, este movimento perdeu o controle, está além dos limites que se aceitam num Estado Democrático de Direito. Em nenhum lugar do mundo esse movimento seria aceito com essa conformação em que está hoje. Eles se empenham hoje em atos de sabotagem contra instituições, contra as estruturas estatais. Isso não é tolerado em nenhum país civilizado do mundo.”

Eu discordo do Thums, inclusive na parte de ‘lugares civilizados’. Na Inglaterra, ou mesmo na Alemanha, tu pode abrir um grupo de QUALQUER TIPO DE COISA,  pode até ser um grupo com pretensões racistas. A questão é, se tu faz qualquer merda fora da lei, tu tá preso e com uma multa genial nas tuas costas. É só observar como os grupos neo-nazi conseguiram inclusive fazer PASSEATA na Austria, na Alemanha e nos EUA. Com anuência do estado. Agora, no momento que o cara levantou a mão para bater em alguém, tá preso.

O problema não pode ser a existência do movimento, a maturidade das instituições democráticas pode ser  demonstrada por o quanto elas convivem com movimentos sociais combativos; a fala do Thums, neste sentido, foi infeliz ao não reconhecer a legitimidade que o MST tem de existir, mesmo que alguns de seus membros tenham ações ilegais, mesmo que a cartilha do movimento seja ilegal. É a ação do movimento, e não a sua existência, que tem que ser combatida, se pretendemos manter um grau de segurança para a manifestação social não apenas dos movimentos, mas de todos os indivíduos.

Peguei as citações daqui e daqui. Usei o terramagazine porque  foi  o primeiro lugar onde achei as entrevistas.


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