Um breve devaneio

Eu não lembro qual foi o exato momento que eu desisti de qualquer pretensão literária, mas sei que foi em 2003, pouco antes de de terminar (eu diria sair) do Direito. Uma breve participação no finado Splash foi o mais perto de publicação que qualquer coisa de “ficção ” que eu tenha escrito chegou, hoje eu fico feliz que o Splash não está no ar nem como cemitério, seria constrangedor ter que responder por aqueles textos – o arquivo do Float in Space, nos links ali do lado, é capaz de ter alguma coisa, mas como o arquivo do Float in Space é quase inacessável para quem não manja de blogspot (e pouca gente manja, já que aquilo é um horror), eu posso dizer que minha “produção” literária está morta e enterrada – até o HD que tinha o pouco que escrevi está morto.

Só pensei nisso porque estava escutando My Bloody Valentine, e My Bloody Valentine me remete aos três primeiros meses de 2003, que foi o período na minha vida que eu cheguei a pensar que poderia ter um futuro escrevendo ficção – evidentemente, dado meu estado de espírito nestes três primeiros meses de 2003, eu também acho provável que nesta mesma época eu achasse bastante interessante uma tigela de arroz como entertenimento (pelo amor de deus, manerem nos comentários, pessoas que sabem do que estou falando). Assim, é factível dizer que eu estava com o juízo alterado.

Eu escrevi as TRINTA PÁGINAS do Cidade Morta – ah, os delírios de querer ser beat em plê nos anos 2000! – ouvindo my bloody valentine e me achando o cara mais upbeat do universo. A coisa desta época que eu mais lembro é de ter, junto com o Ferrari, o Tiago e mais um grupo de pessoas, ajudado a dar início ao projeto Creche Gótica na Redenção, e o projeto adote um retardado, na Casa de Cultura Mário Quintana. Ambos projetos continuam até hoje, embora eu tenha sido informado por fonte fidedigna e confiável que em ambos casos a coisa começou a se levar muito a sério. Eu fui embora da redenção quando o pessoal começou a aparecer de sobretudo e símbolo da volkswagen (piada interna, não tentem entender) em plê no verão portoalegrense.

Também lembro da minha irmã desesperada, achando que eu ia botar fogo na casa ou coisa parecida. Na realidade, eu gostaria que tivesse sido tão divertido quanto eu lembro que foi. Enfim, ouvir My Bloody Valentine tá me lembrando que eu costumava escrever ficção, e que eu não tinha o menor talento para isso. Zip. Zero. Nada.

Quando eu conheci a Tati, em março de 2003, este cenário já estava se (des)desenhando, eu já escrevia menos, já não ia mais na Redenção para encontrar o pessoal (o RPG tinha substituído como desculpa) e a praia era um oasis perdido em um passado distante (deus, que frase bem gay).

É curioso, porque se esta fase de 2003 tem trilha sonora, eu não posso dizer o mesmo do meu TCC (é impossível algo feito em dois dias, 48 horas LITERAIS, ter uma trilha sonora), nem da minha dissertação (não sei se falo só por mim, talvez os outros colegas que trabalham na área e leem este blog [oi Walter, Camila, Fanton, obrigado se chegaram até aqui, sei que o tempo de vocês é precioso e pá] possam contribuir para isso, mas eu não consigo escrever textos de filosofia com trilha sonora ao fundo).

A não ser, é claro, que o barulho dos meus dentes rangendo, enquanto eu tentava desesperadamente construir um argumento decente (algo que o professor Valls provou inexistente na minha dissertação) no trabalho conte como trilha sonora.

Eu não sei quanto tempo eu demorei para fazer a dissertação, sei que deu um trabalho do diabo, e que eu entupi a caixa de email do meu orientador com mais de 175 emails vinculados ao trabalho durante o processo (sim, eu me dei o trabalho de conferir) – mas não posso dizer que lembro de coisas específicas do trabalho, eu sequer lembro de dar o ponto final. Morro de inveja deste pessoal que consegue falar romanticamente da dissertação. Eu simplesmente não lembro do ponto final. Lembro de estar revisando, e ter me dado conta que começava a conclusão e a introdução com praticamente a mesma frase. Claro, revisando aqui significa “estar sentado na secretária, dois dias antes da defesa, com a errata do trabalho já pronta”. Quem me conhece sabe que as revisões dos meus trabalhos são eventos míticos, nos quais eu consigo corrigir tudo, menos o que realmente importa.

Outra coisa que eu percebi é que um bocado de gente tem me dito que eu escrevo melhor em ingles do que em portugues. Eu não sei, mas parei de encarar isso como um elogio, na real, tenho encarado isso como uma puta crítica. Eu sei que escrevo de forma apressada e desconexa em português, e talvez isso seja reflexo do fato de eu pensar de forma apressada e desconexa (mais uma vez, kudos para o Valls!). De qualquer forma, dado que – hopefully – eu vou passar os próximos quatro ou cinco anos escrevendo predominantemente em inglês, talvez eu tenha mais é que achar ótimo. Só fico meio atucanado com o fato de ser incapaz de me virar bem sem um corretor ortográfico, ou ter que pensar desesperadamente sobre a grafia de palavras simples (quizer ou quiser? sim, eu preciso pensar).

Por sinal,

iniciei o post com o Glider, do My Bloody Valentine, terminei com o movimento Moderatto do Concerto Nr. 2 do Rachmaninoff. A parte mais legal é que eu escolhi, não tava randomico no player. Isso, senhoras e senhores, é esquizofrenia.

Comments
4 Responses to “Um breve devaneio”
  1. Chamem de ato falho, que seja. Mas é engraçado eu ter mencionado 2003 como o ano que eu saí do direito. Não foi. Foi 2004.

    Só que 2004 não existiu em termos de curso, pra mim, daí esta confusão. 2004 é um ano muito bizarro, que eu lembro de ter começado a ficar mais na casa da Tati do que na dos meus pais, de jogar Age of Mythology, e ver o Luis todos os dias – TODOS os dias.

  2. Ana Paula Vargas Maia disse:

    nada a declarar. :P

  3. Nato disse:

    Quem me conhece sabe que as revisões dos meus trabalhos são eventos míticos, nos quais eu consigo corrigir tudo, menos o que realmente importa.

    Isso, meu amigo, é saber escrever.

    Por mais PÍFIO que tu considere o teu manoel, acredite, ele é bom. E, de QUEBRA, serve para escrever coisas cômicas para o deleite do leitor.

    Deleite do leitor ficou dantesco, por sinal.

  4. renata disse:

    muito boa a volta ao passado, bem escrita, a proposito.
    Apenas uma coisita: não lembro de achar q tu pudesse por fogo na casa… no rabo… (o teu) talvez… mas na casa? não lembro, não… :)
    bjimmm

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