O país sem carater algum

Dia desses, conversando, me disseram que o Brasil é um bom exemplo de como a pós-modernidade pode sair pela culatra. Em muitos sentidos, concordo com esta afirmação, mas por outro, tenho um problema com o termo “pós” e um outro problema com a questão da modernidade – especialmente no Brasil.

Quer dizer, vamos tentar organizar na nossa cabeça o que diabos significa esta modernidade. Tá, eu não vou apelar para a Wiki, ou para a Stanford e vou assumir que temos alguns pontos comuns sobre a entrada neste período. Daí vamos pegar países que simbolizam a modernidade, França e Estados Unidos? Pode ser, as duas revoluções mais significativas, afinal de contas, se deram no território destes países. Mas vamos colocar a Europa Ocidental na baila. A gente vai ver que a coisa não é homogênea nem no mundo que chamamos de desenvolvido – o processo de modernização na Alemanha e na Itália é pós-segunda guerra mundial em vários sentidos. Pelo menos na migração destes países para um sistema de governo que a gente identifica com a modernidade… Claro, Kant já é um moderno no sentido de ideologia, assim como Hegel (risos) e, sei lá, Marx (caí morto). Mas seja qual for o paradigma de modernidade que a gente escolha, bem, a verdade continua a mesma: O Brasil não passou por ele de forma satisfatória.

O país ainda engatinha para tentar consolidar algo que vá além de um populismo e democracia de banana, e a idéia de representatividade, bem, só funciona se a gente adotar uma perspectiva cínica (com a qual simpatizo) que o nosso governo é uma merda porque o povo é uma merda mesmo (A/C Walter Valdevino). Mas ainda assim, falar em modernidade é meio complicado. Eu concordo, ainda que por motivos diferentes, com o Lowy quando ele fala que a América Latina vive um momento neo-colonial; tá, a gente não tem mais uma colonia bem definida, mas é fato que ainda vivemos em função da produção para os outros – quando se vive no exterior fica muito claro o quanto a gente se beneficia pouco da tal da globalização. Diabos, eu quero poder comprar meu Mac e jogar meu videogame, porra!

No entanto, o Brasil é meio que nem o Macunaíma. É um país que não tem encaixe, não tem caráter, é meio vazio, sabe? Não é um caráter ruim, como o Walter talvez indique, mas uma ausência de identidade – para fazer eco da tese do Flickinger, que acho muito plausível, o Brasil não tem ato fundador. Qual constituição brasileira, de fato, constitui alguma merda que refere uma manifestação da sociedade? A constituição vigente é um tapa-buraco, e o Bob Fields tinha toda razão quando dizia que ela tornava o Brasil ingovernável – o texto constitucional original versava sobre a taxa mínima de juros bancários, e ainda mantém garantias trabalhistas rizíveis para qualquer país que não seja a Suécia. Se a gente procura o código civil, então, a coisa é pior ainda, o nosso código civil é um remendão de projetos e ante-projetos indecifrável para qualquer um que não seja iniciado no direito (para ser honesto, é indecifrável até para quem trabalha no direito, é só ver a quantidade absurda de interpretações sobre questões banais).

Mas isso é pós-modernidade?

Bom, é pós-modernidade no sentido de não ter um referente, uma estrutura, uma linha sistemática. É pós-moderno no sentido de perder o link com o projeto da modernidade. Mas é bizarro chamar de pós-moderno um país que não passou por uma modernidade política (aceito que temos uma excelente modernidade literária, não vou ser idiota de falar mal dos irmãos Andrade, aquilo ali foi o auge da produção cultural no Brasil), na realidade, a gente perdeu o trem da história para entrar na modernidade, e agora tentamos entrar de gaiato na discussão sobre a viabilidade da continuação de dois projetos dos quais só participamos perifericamente (a social-democracia e o liberalismo político).

Temos motivos para otimismo, até porque o Brasil escapou lindamente do processo de africanização pro qual migrava no fim dos anos 80, mas não vejo lideranças políticas que possam levar o país para frente – a gente tem a estrutura, mas não tem timoneiro, o que torna tudo muito difícil.

Respondendo a uma velha pergunta, é neste sentido que entendo a tese da exceção. O Brasil é bem isso, é bem esta exceção negativa que demonstra a falência de um projeto. Mas também temos que tratar de parar de apontar o dedo para os outros pelo nosso fracasso. A gente é bem grandinho, e tem condições de se cuidar.

Comments
3 Responses to “O país sem carater algum”
  1. paulo disse:

    vc está enganado quado diz a respeito de Bob Fields e a Constituiçao de 1988 que com ela o país se tornaria ingovernável,quem disse isso foi Zé Sarney,recorrendo ao nome de um pensador russo .Pergunte a Tati sobre esse pensador,o qual é nome de uma vodka ,Bakunin,que pregava uma insoburdinação do ou ao poder.Sorry pela correçao
    .Depois leio com mais calma e tecerei outros comentários
    veio é a peste

  2. Marcelo disse:

    Precisamos de uma guerra por aqui. Com mortos, feridos e um gênio do mal pra gente odiar. Senso de comunidade, sabe? Falta.

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  1. […] algo interessante, uma boa aposta. No entanto, a mistura não deu muito certo no Brasil em termos de identidade. Muitos de nossos problemas derivam de uma falha em estabelecer identidade – não conseguimos, […]



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