O país dos enlatados

Quem lê este blog deve achar que eu odeio os Estados Unidos. Quer dizer, a reação óbvia é: que diabos tu tá fazendo aí, seu merda, se tu acha que é tudo tão ruim?

É uma pergunta justa.

Eu gosto ds Estados Unidos. Eu admiro os Estados Unidos como o país que inventou as democracias modernas, e que deu o tom para o que seguiu na França e na Inglaterra. Admiro os indivíduos que criaram em New Orleans o Jazz, acredito que existem nos Estados Unidos, na primeira metade do século XX, um grupo de músicos que rivaliza com o grupo de músicos que emergiu e se formou na Vienna do século XVIII e XIX. O cinema é em essência outra invenção eminentemente americana, pelo menos na forma que a gente conhece. Creio que a produção teórica norte-americana dá o tom em qualquer campo das humanidades na segunda metade do século XX. Sou o primeiro a reconhecer que 1968 foi muito mais relevante aqui do que na Europa, ou alguém acha que o movimento dos direitos civis não era mais relevante que o levante universitário de Paris?

Mas não é este o país que eu vejo no meu cotidiano, pelo contrário.

Os Estados Unidos são um grande enlatado. Eu adoraria poder tirar fotos no Wal-Mart (graças ao Osama, eu não posso) e mostrar a parte de comida congelada e enlatada do supermercado. Depois, passar na parte de processados. É um troço incrível.

Não é que não exista comida enlatada ou congelada no Brasil. Claro que existe. Mas é que dá um certo pavor verificar que o povo aqui só come enlatado – chega a ser difícil encontrar algo que possa ser reconhecido como “orgânico” no Wal-mart. Tá, tem frutas e verduras? Tem. Mas elas são muito perfeitas para serem de verdade. Desafio qualquer um em um concurso de achar a maçã danificada no Wal-Mart. São frutas perfeitas, sem traços de dano. Ou seja: são frutas artificiais, e eu tô cagando se tu me chamar de purista.

A lei do menor esforço comanda. Para que comprar fruta inteira, se ela tá a venda descascada e picada ali no congelado? Para que fazer um suco, se tem aquele ali pronto? Escovar os dentes movendo o pulso? Mas eu posso salvar dois minutos preciosos da minha vida comprando uma escova elétrica! Pernas? Para que usar minhas pernas se tem o carrinho elétrico no supermercado?

Não é, ao contrário do que me disseram antes de eu embarcar para os Istates, falta de opção. Tem muita opção. Carbondale é um fim de mundo em Illinois, mas tem três lojas de produtos naturais, uma loja especializada em comida étnica, uma colônia hippie com várias variações dos produtos das lojas naturais – algumas variações ilegais, mais sobre isso mais tarde. Tudo isso à um passeio agradável de bicicleta de distância.

Eu mencionei que todo mundo tem uma porra dum carro?

Tipo, eu entendo tu ter um carro quando tu tem um filho pequeno, ou quando tu precisa fazer ranchos enormes uma vez por semana – entendo mesmo. Eu também entendo ter um carro por praticidade – eu sinto falta de pegar o carro e ir até as vinícolas, ou até St. Louis. Mas para que eu vou pegar o carro para ir até a loja de produtos organicos, quando eu posso ir de bicicleta, num tempo agradável e ainda por cima me manter magro?

Não, o americano comum prefere ficar gordo feito uma baleia jubarte. Sou contra a ditadura da magreza, bem entendido. Nada contra ter uns quilos a mais, tem quem goste e pá. Mas na boa, tu nunca viu um gordo até tu ver um americano gordo. Vou tentar descrever: imagina uma bolha, inchada, com bochecas redondas, umas pernas em V que não conseguem fechar, e que doravante se locomove apenas com uma cadeira de rodas elétrica . É isso.

“Ah, mas isso é gente com problema glandular”

Não, meu amigo. Isso é gente que de tanto comer porcaria ficou com um problema glandular.

Eu mencionei que tudo tem açúcar?

Tudo. Uns tempos atrás, num restaurante “italiano” eu pedi uma bruschetta, ganhei um prato de pães fatiados, com uma guarnição em forma de pirâmide de tomate, azeitonas pretas e manjericão. Até aí, achei exótico. Definitivamente não era uma bruschetta, mas, what the hell, em roma como os romanos, certo?

Tinha gosto de açúcar.

Algum imbecil colocou açúcar suficiente para adoçar todo o café de um restaurante no meu prato. Tava um troço tenebroso. Eu só conseguia sentir gosto de açúcar. Completamente sem sentido. Tem salvação? Claro que tem, já achei mais restaurantes interessantes poraqui do que em muita cidade grande no Brasil. Só que eles são frequentados por pouca gente, ou frequentados por gente mais interessada nos drinks do que na comida. Custa o mesmo que o Mac.

Tá, não custa o mesmo, tá bom. Mas custa um pouco mais que vale o que tu vai gastar em médico, sem brincadeira. E quem quer economizar mesmo come em casa, coisa que eu só vejo estrangeiro fazendo aqui. Comer em casa é coisa de estrangeiro.

Enfim, nada bate o estranhamento de ver um gordo enorme com um carrinho elétrico que carrega um carrinho de supermercado com uma pilha de latas de hamburguer (sim, lata de hamburguer), dois pacotes de dois quilos de chips, nachos – o mesmo gordo que deve se questionar a troco de quê ele é tão gordo; culpando isso na pressão institucional.

Comments
4 Responses to “O país dos enlatados”
  1. paulo disse:

    Concordo mas vcs sentirão falta de tudo isso,exceto do acúcar

  2. moche disse:

    tá louco, só de pensar já me dá asco.

  3. Lucinha disse:

    Eeeeeewwwwwllllll!
    Eu não gosto dem dos istatis nem da comida deles. Quando estive aí, eles tomavam cerveja quente por litro e pernas de peru no café da manhã.

  4. paulo disse:

    democracias?
    Ou existe uma ou nenhuma, salvo se vc seja partidario de Hugo

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