A lista de mármore, pt. II

Ao contrário da maior parte dos meus colegas, amigos e conhecidos, eu não acho o Diogo Mainardi um merda. Gosto do que ele escreve. Acho bem-humorado, combativo e via de regra bem fundamentado.

Nesta semana, no entanto, acho que o Mainardi errou a mão.

Não é que eu ache que a pena de morte não possa ser debatida – eu acho que deve ser debatida. Mas o Mainardi pegou dados com os quais eu não concordo, e se ele tivesse lido a matéria da The Economist, que eu citei neste post anterior, ele teria se deparado com dados bem diferentes. Não é bem por aí esta discussão de que o número de homicídios e de estupros diminui por uma causa específica, até porque é difícil demonstrar este tipo de relação causal direta entre apenas um evento e a diminuição direta de outro tipo de prática.

Esta conta de que cada execução salva cinco vidas me parece um troço de uma surrealidade brutal. Como diabos tu faz uma relação causal deste tipo? Como é possível? Continuo achando que um estuprador é um cara com problemas tão sérios, mas tão sérios, que tá cagando prá perspectiva de ser executado no futuro próximo. Além disso, o Texas é um dos estados mais violentos dos Estados Unidos – e com um dos maiores números de prisioneiros! O que enfraquece diretamente a tese do Mainardi (ou melhor, que o Mainardi reproduz).

Mas vale dar uma lida na matéria do NYT que o Mainardi parece ter tomado como referência: é esta aqui. O professor da UniChicago que o colunista cita é um minimalista do tipo Republicano, ou seja: minimalista na esfera privada, mas bastante conservador nas questões públicas. Nada contra. Mas toda argumentação está seguindo uma linha utilitarista, fazendo contabilidade de vida-com-vida, e seguindo relações que eu acho pouco defensáveis.

Deixem eu citar o Sunstein:

“The evidence on whether it has a significant deterrent effect seems sufficiently plausible that the moral issue becomes a difficult one,” said Cass R. Sunstein, a law professor at the University of Chicago who has frequently taken liberal positions. “I did shift from being against the death penalty to thinking that if it has a significant deterrent effect it’s probably justified.”

Outra coisa, percebam o provavelmente na citação. Eu sei que em momento algum o próprio Mainardi alegou ser a favor da pena de morte, mas não adianta não se posicionar, alegar a necessidade da discussão do assunto, e só mostrar um lado da discussão. Como eu disse, o quadro que a Economist cita é completamente diferente do demonstrado pelo professor Sunstein, e tem mais dados. Por sinal, leiam a matéria do próprio New York Times, e o que aparece é a falência das justificações dadas pelo próprio professor Susntein – acontece que o Mainardi foi hábil em demonstrar a urgência da discussão, destacando apenas um lado da controvérsia e fazendo o pessoal do outro lado parecer bobo e desinformado. Não é o caso.

Por sinal, em época de natal não é curioso a gente estar discutindo matar pessoas crucificadas? Reparem na foto da cama onde o indvíduo executado com injeção letal é colocado.

Comments
5 Responses to “A lista de mármore, pt. II”
  1. Ana Paula disse:

    O que realmente me incomoda no Mainardi é o fato dele sempre emitir críticas e opiniões tão chocantes e efusivas, mas nunca se posicionar a favor ou contra disso. Ele tá sempre em cima do muro.

  2. Ana Paula disse:

    E pára de inventar relações etsranhas com pessoas crcificadas que mais tarde podem servir à sua teoria do “menino jesus” :P

  3. Lucinha disse:

    O Mainardi é um bosta.
    Period.

    E para responder mais racionalmente, concordarei com a Paulinha.

  4. paulo disse:

    Cada vez mais gosto deu seus comentários.Vc tem escrito bem e é mais àcido,sarcástico e balsamico que Diogo
    Conversaremos a respeito um poco mias ,entretanto começo cada vez mia a entender filosofia

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  1. […] matar ele, que daí mais gente não vai matar. Já falei o que penso sobre a pena de morte aqui e aqui, não vou ficar me repetindo. Mas é interessante ver como este debate volta o tempo […]



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