A biblioteca da Revolução

Guzmán costuma ser descrito por aqueles que conviveram com ele como um homem educado, que sempre quis deixar claro que, antes de tudo, era um professor universitário dedicado a encontrar o que supunha serem soluções para seu país.
Num intervalo dos interrogatórios após sua captura, um policial lhe perguntou o que ele deveria ler se quisesse “fazer uma revolução”. Guzmán explicou-lhe didaticamente: “Dê uma olhada na minha biblioteca, sei que vocês a recolheram. Você deveria começar pela “História da Filosofia”, de Dynnik, que não é difícil. Depois, a obra completa de Marx e os 57 volumes das obras de Lênin, que tenho em duas edições diferentes. Depois, Stálin, que é mais fácil, somente sete tomos. E finalmente os quatro de Mao. Há um quinto, mas foi editado pós-mortem e está carregado de revisionismo. Desse você pode prescindir”, concluiu.

Uma das discussões que tem me interessado nos últimos tempos é uma que tenta aproximar a doutrina comunista da doutrina nazista. Não sei se procede, e às vezes a tentativa me parece carregada de um certo rancor e paranóia. Mas cabe a pergunta: ainda é possível estudar Marx com tudo que foi feito no nome do barbudo? Mais ainda, apesar de tudo que ele escreveu? Ou será que o lugar dos textos revolucionários Marxistas é o mesmo do Minha Luta, do Adolfinho?

Não acho que o minha luta deva ser banido, pelo contrário. Creio que devemos ainda ler aquele excremento, para lembrar como foi fácil chegar naquele nível de absurdo. Mas eu me pergunto, depois do que aconteceu, porque ainda é possível manter livros do Stalin na tua prateleira sem ser acusado de totalitário? Ou melhor ainda, eu posso dizer que acho coisas do Stalin interessantes – sem com isso ser acusado, necessariamente, de totalitário.

A pergunta aqui é: Porque não?

Com isso não quero cair em delirios olavianos da conspiração anarco-gay-comunista para tomar conta dos nossos corações e mentes. Mas é importante questionar isso

Stalin fez por merecer um lugar na história semelhante ao de Hitler. E a obra dele talvez deva ir para o mesmo lugar, ocupando prateleiras como uma espécie de curiosidade mórbida – tal qual os antigos livros de eugenia.

Sobre o Marx, no entanto, fico mais dividido. Não sei bem o que pensar a respeito. Marx nunca foi pessoalmente responsável pela morte de alguém – não que eu saiba – e talvez seja um exagero atribuir ao próprio os exageros de uma era de totalitarismos ditos Marxistas.

Mas cabe lembrar que o turn totalitário era muito real na obra do Marx. Creio que a análise marxiana se torna rapidamente importante pelo seu caráter histórico, uma forma de lidar com crises que hoje podemos reconhecer -depois dos sucessivos fracassos dos movimentos revolucionários – como ineficiente e anacrônica. Talvez o mesmo possa ser dito dos primórdios do Liberaliso. Embora, pessoalmente, eu acho que ler Mill é bem menos constrangedor do que ler Marx. Para isso basta ver como cada um lida com a questão da liberdade e do indivíduo.

O que Marx representa para as ciências sociais não é facilmente descartado, é claro – e em muitos sentidos estou caminhando em um terreno do qual conheço muito pouco. Verdade seja dita, os livros do Marx nunca sairam por aí fazendo revolução, nem matando gente – e se o movimento totalitário existe na teoria marxiana, teve algum idiota que achou isso uma excelente idéia para ser levada para a prática, e estou bastante seguro que este não é mais um problema do barbudo. É o tal porão da filosofia social Hegeliana.

Mas a filosofia e as sociais estão cheias destes fracassos monumentais. Basta olhar a biografia do Sartre para verificar uma sucessão de erros de julgamentos inconcebíveis – sem contar com o já esgotado julgamento do Heidegger.

Bom, para ilustrar o exemplo, um exercício mental: Quais são os livros na biblioteca revolucionária que vocês iriam sugerir? Quantos destes poderiam ser taxados de totalitários ou inapropriados?

Comments
2 Responses to “A biblioteca da Revolução”
  1. Walter disse:

    ROBERTO MANGABEIRA, UNGER. O DIREITO E O FUTURO DA DEMOCRACIA.

    Depois é só negar tudo que disse, surrupiar os artigos comprometedores do próprio site, entrar para um partido de Je$u$ e assumir um cargo num governo do Pê Tê.

    Tá feita a revolução.

  2. Guzmán, que liderava o Sendero Luminoso, foi um dos muitos intelectuais latino-americanos que entenderam que, em determinadas situações, a luta deve mesmo ser armada.

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