A explosão

Leio na novacorja, e depois na ZH, sobre o crescimento do número de homicídios e da violência em Porto Alegre.

É nítido que a cidade tem piorado desde 1997, e creio que a zona norte é o melhor exemplo disso. A rua onde eu morava, próxima da faculdade são judas tadeu, é um exemplo da decadência dos bairros cristo rendentor e lindóia nos últimos anos. As escolas públicas são centros para tráfico de droga, prédios abandonados tornados estacionamentos, butecos que são cenário para briga de faca – enfim, aquele clima gostoso de velho oeste.

Pessoalmente, creio que Porto Alegre ilustra bem a burrice que foi a política de tolerância com o tráfico ilegal de drogas. O tráfico destruiu a zona norte, e tem contribuido para o crescimento da violência em outros setores da cidade. O discurso da vitimização do criminoso, que o Bisol tanto propagou, teve um efeito devastador, tornando o debate uma briga entre extremos – de um lado, o discurso da tolerância zero, de outro, a vitimização do “excluído”. É curioso que um estado onde se produziu tanto na área das criminais nos últimos dez anos, o crime tenha subido de forma tão dramática.

Pode ser um bom momento para os dois lados deste debate fazerem um mea-culpa, e começarem a pensar algumas políticas de meio termo para dar conta do recado. O certo é que a política de tolerância zero só vai contribuir para tornar a polícia ainda mais impopular, e a vitimização vai aumentar o número de criminosos que dão rizada na cara dos criminologistas de plantão.

Não adianta ficar estudando as causas do crime sem dar conta do problema do crime, daqui a pouco entenderemos perfeitamente as razões que nos levaram a ser uma das cidades mais violentas do país. E daí? Grande merda. É mais ou menos como o médico que sabe exatamente tudo que prejudica o paciente, mas não sabe qual remédio ministrar. Grande vitória.

A verdade é que boa parte dos que fazem estes discursinhos não saem muito, não precisam pegar ônibus de noite, e não sofrem as consequências do tráfico diretamente nas suas respectivas comunidades. É o Arm-Chair criminologist. Uma categoria fascinante.

Percebam, não estou acusando um grupo de criminólogos específico por não identificar e tratar do problema de forma eficiente. Estou dizendo que nenhum grupo teve competência para sair do debate de belezas para entrar de cabeça na realidade – temos tratado o crime como uma questão teórica, de preferências em campos epistemológicos, e o furo é mais embaixo.

Pessoas que defendem traficantes ficam fazendo discurso de vitimização, e contra a violência estatal, enquanto o tráfico mata um bocado de gente na rua – mas tá tranquilo, enquanto o traficante te pagar a grana que te deve tu vai continuar defendendo ele. Da mesma forma, uma meia dúzia de maluco começa a falar que tem que capar estuprador e afogar ladrão, rapidamente transformando a questão em uma questão apenas de polícia.

Mais uma vez, creio que a crise teórica no direito reflete diretamente na comunidade. A inoperância do sistema em dar conta dos criminosos no rio grande do sul é consequencia direta da inoperância teórica de quem vem trabalhando nesta área dentro dos ministérios públicos e da justiça criminal – e, porque não, nos departamentos de Direito. Não se consegue pensar em alternativas, por que todos estão mais preocupados em alimentar seus próprios egos e o capital social de suas respectivas bancas de advogados.

Mas não adianta. Agora os dois lados vão apontar um o dedo para o outro, e recomeçarem seus debates enquanto as coisas caem aos pedaços fora do castelo dos prédios das universidades e dos fóruns.

Comments
3 Responses to “A explosão”
  1. moche disse:

    Acho que estás confundindo criminologia com direito penal. Há muita gente boa pensando o crime MUITO ALÉM de posições extremistas como o abolicionismo e o tolerância zero. O problema é que elas simplesmente não tem espaço para falar. Tudo fica sufocado no discurso único RBS tipo “o cidadão de bem que paga seus impostos, blá blá blá”.
    Não vejo como não se ir atrás das causas para combater os problemas. O médico precisa saber qual remédio administrar. Mas procuramos um médico tb pq ele sabe as causas, sob pena de ficarmos em casa tomando chazinho da vovó.
    A visão do direito sobre o assunto é bastante tosca e maniqueísta, mas há bastante tempo há grupos de pesquisa de investigam a sério o tema da segurança e propõe alternativas como policiamento comunitário, foco nas áreas de violência, controle das armas de fogo, etc.

  2. mas esta investigação tem tido que tipo de resultado? Afinal de contas, os membros destes grupos não estão no ministério público, nos tribunais, nas bancas de advogados? Como pessoas nestes meios, que estão no dia-a-dia do judiciário, não estão fazendo diferença?

    a RBS não é a responsável pela ascendenciada violência, a imprensa certamente tem um papel menor que as faculdades de direito nesta confusão toda.

    Continuo achando que saber as causas ajuda a longo prazo, mas temos um problema de curto prazo que precisa ser resolvido… Sobre estas alternativas, não adianta discutir, tem que dar um jeito de implementar.

    Daí eu dizer que precisamos fazer um mea-culpa. Temos pesquisa extensiva em criminais nos últimos dez anos, o que isso tem implicado na realidade do crime no RS? Bem, o crime subiu nos últimos dez anos, então temos que fazer uma análise de para que estamos investindo nestes departamentos – e o que eles estão trazendo para a realidade estadual.

    Eu sei que posso estar parecendo combativo – e tu bem sabes que sou um tanto combativo nestas questões. Acho que a falência é geral do ponto de vista teórico, e ela reflete na realidade do combate ao crime.

    Deve ser o meu lado pragmático falando.

  3. moche disse:

    Mas eu não vejo nada de errado nisso. Nada de errado em ser pragmático. Nada de errado em combater o crime a curto prazo. Nada de errado em investir em segurança pública.

    No Mestrado em Ciências Criminais, temos vários investigadores pesquisando temas concretos como a polícia ou, acredito ou não, o número de homicídios na capital (pura coincidência). Esse pessoal está propondo soluções concretas e pragmáticas, só que elas estão fora do lugar-comum dos juristas.

    Aliás, juristas não sabem nada sobre segurança pública. O principal problema nosso não é a impunidade, é a ausência de planejamento. A polícia sabe onde está o crime e há soluções não-autoritárias para resolver o problema. Falta um pouco de força de vontade.

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