“Objetos de Pesquisa”

A newyorker é a melhor revista da qual já fui assinante. A quantidade de material que a revista disponibiliza, quinzenalmente, é um paraíso. Nesta quinzena, por exemplo, um artigo/ensaio do professor Carl Elliot, da universidade de minnesota sobre a experimentação em “sujeitos de pesquisa” humanos me chamou a atenção.

Decidi escrever sobre isso hoje, porque consigo colocar dois assuntos no mesmo post.

O primeiro sendo que hoje completou um ano da minha defesa da dissertação na PUC. Desde então, encontro-me engordando as fileiras dos desempregados e tentando desesperadamente me manter ocupado. Foi uma opção. Fui mais realista que o rei, e não procurei emprego enquanto não me desvinculei da PUC, o que me custou o primeiro semestre. Depois decidi que não valia a pena com um mestrado embaixo do braço voltar a trabalhar como professor de inglês ou arrumar uma outra alternativa – foi uma decisão bem consciente, mas teve um custo pessoal bastante forte.

Claro, não posso reclamar de 2007. Mas olhar para este ano que hoje parece estar terminando me traz uma série de reflexões, o meu primeiro semestre foi ocupado me preparando para novamente tentar um processo de seleção complicado que de fato ainda não terminou, e produzir sistemáticamente. Participei de congressos, visitei aulas, viagei para longe, reestabeleci uma nova casa com a minha esposa – estas coisas que a gente faz. Sobretudo, tive tempo de sobra para pensar.

Ainda ressoam na minha cabeça algumas das coisas que ouvi na minha defesa, e por isso sempre serei grato. Muita gente ficou surpresa com o tom combativo que a primeira parte da minha exposição teve, mas eu fiquei feliz. Mas tem uma pergunta que me fizeram na defesa fica se repetindo na minha cabeça. Todos os dias. Desde 08/01/2007.

“Mas como isso tudo de fato altera a nossa percepção da morte?”

Para mim este é o grande problema da técnica na medicina moderna. Mas ele parte de uma concepção fenomenológica de morte e de técnica, e que muita gente não vai seguir. Não quero me alongar em sutilezas Heideggerianas aqui, até porque o blog não oferece exatamente uma boa média para este tipo de divagação. Apenas gostaria de indicar o seguinte, e isso é um dos pontos que pretendo desenvolver mais longamente na minha tese, estamos ficando com um certo fetiche pela asspesia. Quando vemos uma propaganda de remédio, qual é o foco? “Pare de sofrer”; “Não é possível viver com este sofrimento”; “Aumente seu conforto”. No entanto, a gente se esquece o quanto da nossa experiência cotidiana é informada por pequenos sofrimentos – ou grandes sofrimentos – e como isso torna a nossa vida mais interessante. Boa parte do que a gente identifica como grande literatura, cinema ou música nasce de experiências traumáticas – algumas intimamente ligadas com questões de saúde.

“Isso significa que sem sofrimento não existiria arte?” Possivelmente. “Mas a gente vive perfeitamente sem isso.” É verdade. Já escutei mais de uma vez argumentações do tipo “Stevie Wonder não teria composto o Songs in the Key of Life se não fosse cego”. A princípio, eu acho a argumentação fraca – já vi gente usando argumentos parecidos, mas usando o Beethoven, para falar contra o aborto. Minha posição é um pouco diferente.

Apenas acho que precisamos refletir sobre como lidamos com o sofrimento e com a doença, especialmente por quê estamos fazendo tanto esforço para acabar com sofrimentos ao invés de melhorarmos em lidar com eles. Acho que fala muito sobre nosso egoísmo essa tendência – e não gosto da idéia de um mundo ideal sem doenças, porque me lembra o discurso do mundo ideal sem doentes. E eu não sei muito bem o que é uma doença. Neste ponto, concordo integralmente com Foucault.

O que me leva ao segundo ponto.

Qual é o custo dos medicamentos que a gente usa? Tanto em termos de mercado, quanto em termos expressionistas.

O ensaio que o Elliot escreveu sobre a experimentação com sujeitos de pesquisa humanos ilustra bem o quanto a gente ignora a respeito do remédio que usamos para curar nossa dor de cabeça. Mais ainda, força uma reflexão sobre o que significa a orientação para lucro na indústria farmacêutica.

Olha, não vou ser idealista ou bobo de afirmar que medicina não é negócio. É claro que é um negócio. Embora não seja a idéia, e não seja bem o que o pessoal jura na formatura. Mas, todo mundo tem que pagar as contas, e médicos não são excessão. Então, acho muito bom que hospitais estejam bem de dinheiro, acho ótimo que o cara que faz um transplante de coração ganhe mais que um professor de filosofia – puxa vida, nossas prioridades estariam bem ensandecidas se fosse o contrário.

Mas a coisa fica mais complicada quando a prioridade e a lógica da medicina se torna a lógica de mercado. É complicado quando o gerente do hospital começa a se comportar como, por exemplo, um negociador da bolsa de valores. O motivo é relativamente simples: tu não pode exigir de um novo remédio a mesma eficácia – ou os mesmos custos – de um novo produto de limpeza. Mais ainda, tu não tem como fazer uma pesquisa de mercado nos mesmos termos.

No entanto, a experimentação com sujeitos de pesquisa parece cada vez mais com as mesas redondas para testar novos brinquedos. Enquanto eu escrevia esta última frase, uma propaganda do Viagra passava na TV, antes da metade da propaganda eu não tinha nem idéia se era uma propaganda sobre a)um site de relacionamentos para pessoas da terceira idade; b) dentadura; c) cassino; d) pasta de dente. Da metade para o final, quando o narrador começou a me bombardear com reações adversas ao produto, eu me dei conta que era viagra.

O viagra é um excelente exemplo. A idéia do remédio foi tão brilhante e tão apelativa para o público em geral, que ele foi posto em circulação muito antes do ponto onde seria seguro disponibiliza-lo para o publico em geral. Mais ou menos como todos os lançamentos do Windows. Exceto que o mal-funcionamento do Windows, até onde eu saiba, nunca deixou ninguém estéril. Bem, se deixou, por favor, não me contem.

No entanto, o Elliot demonstra que a experimentação com seres humanos está seguindo padrões de mercado. Os sujeitos que se expoem ao procedimento são profissionais da área, pessoas que se especializaram em servir de cobaias para medicamentos. As cobaias trocam informações sobre laboratórios que oferecem mais ou menos vantagens, e sobre tratamentos mais ou menos interessantes. No entanto, os riscos deste tipo de procedimento não são exatamente iguais aos riscos de quem trabalha por exemplo, em construção civil.

Primeiro lugar, como coloca o Elliot, as cobaias não tem participação ativa no processo ao qual se submetem, elas apenas deixam que se façam coisas com elas. No entanto, não existe a menor chance destas cobaias entenderem todas as sutilezas do processo ao qual elas se expoem. Não é uma questão de altruísmo, mas de necessidade. Claro, isso no país onde a venda de órgão é legal, não chega a causar escândalo. Mas é estranho.

Hans Jonas escreveu longamente sobre a questão do consentimento, e chegou a alegar que certos procedimentos só poderiam ser testados em médicos. Isso causaria, Jonas reconhece, um atraso na velocidade de chegada de novos medicamentos – mas a dinâmica da medicina não é a dinâmica do mercado, e se desejamos não ter que lidar com custos morais altos para o que usamos, teriamos que suportar este atraso.

No fim das contas, estes sujeitos de pesquisa profissionais que temos hoje dificilmente podem ser tomados como uma “amostra representativa” do geral da população – já que eles tem uma mini-usina química correndo nas veias deles. O modelo acaba saindo caro em termos morais, e em termos práticos, já que mais tarde a indústria farmaceutica tem que responder legalmente por consequencias não previstas de tratamento que poderiam ter sido controladas por um período de teste mais longo.

No entanto, se a indústria pensa em termos comerciais, este risco vale a pena – o que se ganha em termos de venda destes novos produtos no mercado vai pagar tranquilamente o custo de processos movidos por antigas cobaias insatisfeitas pelo tratamento dado pela empresa, e por eventuais pacientes que tem consequencias imprevistas.

Daí meu título. É políticamente incorreto chamar de objeto, afinal de contas, tu não tem um objeto ali na tua frente, um produto. Mas lendo estes dados, parece que não adianta chamar de sujeito e tratar como um pedaço de tecido que reage aos químicos que tu coloca dentro dele.

Outra coisa que me chama a atenção é o perigo de uma concepção utilitarista nestas horas. Porque se tu transforma a situação em matemática tu pode dizer “bem, menos pessoas sofreram do que as que foram beneficiadas pelos resultados daquele sofrimento”. No entanto, mais uma vez isso parece com contabilidade – e não acho que esta perspectiva (para usar um paradoxo que o grande Bernard Williams apresenta) traga benefícios.

Como sempre, se o utilitarismo estiver certo é melhor não agir de forma utilitarista.


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Comments
3 Responses to ““Objetos de Pesquisa””
  1. Leonardo disse:

    Olá, gostaria de trocar links com o seu blog. Aguardo Resposta.

  2. Leonardo disse:

    Desculpe pelo comentário repetido, mas eu já add no Blogroll de qq forma.

  3. natasha disse:

    quero ser madelo

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