Kwame Anthony Appiah::Cosmopolitanism, Ethics in a world of strangers


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O que significa cosmopolitanismo, e o quanto a proposta cosmopolitanista é viável?

Appiah tenta dar conta destes dois problemas em seu livro “Cosmopolitanism, Ethics in a world of strangers”. Trata-se de um livro com linguagem extremamente acessível, cativante e com um imenso valor como introdução ao assunto. O livro é dividido em dez pequenos capítulos, os três primeiros vão situar o que Appiah entende por cosmopolitanismo, a sua compreensão de relativismo, e uma tentativa de defender um modelo de epistemologia moral.

Para Appiah,

Cosmopolitanism is an adventure and an ideal: but you can have any respect for human diversity and expect everyone to become cosmopolitan. The obligations of those who wish to exercise their legitimate freedom to associate with their own kind – to keep the rest of the world away as the Amish do in the United States – are only the same as the basic obligations we all have: to do for others what morality requires. Still, a world in which communities are neatly hived off from one another seems no longer a serious option, if it ever was. And the way of segregation and seclusion has always been anomalous in our perpetually voyaging species. Cosmopolitanism isn’t hard work; repudiating it is. (p. xx)

O autor defende um núcleo duro irredutível (e mínimo) de valores que, segundo ele, são universais – e mais que universais, são fundamentados epistemicamentes. Na polêmica da epistemologia moral contemporânea, Appiah se coloca do lado dos cognitivistas – existem fatos morais, e nós podemos falar sobre eles epistemicamente. Esta postura, implica no seguinte: Fatos podem ser fatos morais, e a moral existe enquanto fundamento – para usar termos pomposos, a moral teria um aspecto ontológico, não ôntico.

Pessoalmente, acho esta tese pouco plausível. Ainda que eu concorde com a idéia de uma moral universal, creio que esta é construída artificialmente – a partir de uma pedagogia moral. Penso que é insustentável alegar que algo desde sempre tem um sentido moral sem antes ser informado por uma intencionalidade. Isso tanto do ponto de vista externo, quanto interno. Minha interpretação de Aushwitz depende profundamente da minha visão de mundo, assim como minha interpretação da questão dos direitos da mulher. E algo que se mostra como problema moral para um grande amigo meu, pode não ter qualquer relevância moral para mim. Um bom exemplo é a existência de deus. Conheço pessoas que pensam que a existencia de deus é uma questão moral, na minha perspectiva, ela não importa. O que isso diz sobre o fato da moral? Bem, diz que nós temos uma capacidade de interpretar fatos moralmente, mas não que estes fatos, por si só, podem ter sentido moral. Não existe objetividade moral, muito menos facticidade moral. Existem formas de relação com objetos, acontecimentos, sujeitos, que nós vamos chamar de morais. Mas isto é depois. Não é ontológico, é regional. Por isso não pode ser fundamentado epistêmicamente.

Exceto, é claro, se aceitarmos um outro tipo de dabilidade (como é o caso de Levinas, por exemplo), mas então o furo é mais embaixo. Porque precisamos jogar um jogo diferente, e que nem todo mundo está disposto a jogar. Mas não quero entrar nesta discussão, porque não é parte do que Appiah problematiza no texto dele.

Appiah, em síntese, discorda de Wittgenstein quando ele escreve que a moral não é dizível. Para Appiah, a moral é dizível e definível. Mas não fica muito claro como isso acontece. Em um certo sentido, Appiah se distancia tanto da error theory de Mackie quanto do emotivismo do Williams quando sustenta que nós não inventamos certo e errado mas descobrimos o sentido disso no processo dialógico. Esta compreensão parece dividir com Habermas o sentido de uma verdade que é descoberta dialógicamente – só que o texto do Appiah acaba sendo muito sutil nestas indicações (ele sequer cita Habermas, por exemplo), o que torna difícil a crítica – e mesmo a compreensão mais aprofundada do trabalho.

Um bom exemplo da abordagem do Appiah é o seu segundo capítulo, onde ele liga o relativismo ao empiricismo lógico (!!!), ignorando toda uma vertente de relativistas que não segue este método. E indica um certo conformismo na postura relativista – como se do fato de compreensões diferentes de cultura e de moral existirem seguisse também que devemos ver de longe o comportamento do outro, sem interferir, ou sem manter nossas próprias intuições. Já escrevi aqui que do fato de que não existem fatos morais, não se segue que eu não possa tentar universalizar algumas das minhas visões de mundo – distanciamento é um sinal de julgamento. Repetidos exemplos de assimilação mútua mostram que a pedagogia moral é possível, mas isso trabalha contra uma visão cognitivista-universal de moral no sentido epistêmico, ao mesmo tempo que reforça esta mesma visão do ponto de vista político. A moral não é factual, ela é construída historicamente e intencionalmente.

O que Appiah parece não perceber é que a colocação da moral no plano epistemológico-factual transforma a moral em uma questão biológica, não filósofica. Se a moral acontece na natureza, então vamos daqui a pouco procurar os genes para a moral. O que é natural é nossa propensão para construir sistemas de fairness, mas o conteúdo destes sistemas é muito pouco natural.

Também me incomodou no livro do Appiah uma série de distinções que ele nunca explica: valores, morais e ética são coisas diferentes, mas Appiah nunca explica como elas são diferentes. Existem concepções thin/thick de valores, mas quais exatamente são estes valores? Algumas vezes, Appiah parece cair no tipo de arbitrariedade que ele critica no relativismo.

No entanto, existem muito pontos a serem reconhecidos no trabalho do Appiah. A linguagem do trabalho é deliciosa, e a leitura flui fantasticamente, assim como várias das colocações do autor sobre emoções. Do ponto de vista intuitivo, o trabalho muitas vezes é difícil de ser rebatido. Por exemplo:

The idea behind the Golden Rule is that we should take other people’s interests seriously, take them into account. It suggest that we learn about other people’s situations, and then use our imaginations to a walk a while in their moccasins. These are aims we cosmopolitans endorse. Its just that we can’t claim that the way is easy. (p63)

A forma como Appiah lida com a questão da homogenização e da globalização é sensacional, em um momento ele pergunta “what can you tell about someone’s soul from the fact that she drinks Coca Cola?”, e com isto começa a desmontar todo o delírio de imperialismo cultural. Ao demonstrar a condescendencia daqueles que falam em imperialismo cultural, Appiah ganha pontos como alguém que não está delirando – e enfrentando com algum bom senso um problema repleto de paranóia na abordagem usual.

Uma questão peculiar, Appiah aposta profundamente na mistura como algo interessante, uma boa aposta. No entanto, a mistura não deu muito certo no Brasil em termos de identidade. Muitos de nossos problemas derivam de uma falha em estabelecer identidade – não conseguimos, afinal de contas, estabelecer um núcleo duro de quais valores importam para nós enquanto brasileiros que estão regidos por uma mesma consituição. Toda a nossa construção de normas é feita de cima para baixo, na esperança que derrepente ela vai funcionar. Resultado: somos um país com um excelente código de defesa da criança e do adolescente, onde crianças pedindo esmola na esquina de qualquer cidade média ou grande está incorporado à paisagem.

Mais para o final do livro, Appiah vai tentar abordar as questões relacionadas com objeto de cultura e memória, depois passando para a questão da justificação moral e da tolerância do intolerante. Achei esta última parte um pouco rápida.

A questão do paradigma da justificação é complexa – e não exige a epistemologia moral que o Appiah parece querer inserir ali. Além disso, a questão dos paradoxos na questão da justificação restou inexplorada – e me parece ser a principal questão em jogo neste meio. Neste ponto, Appiah começa a amarrar as linhas para o final de seu livro:

(…) we cosmopolitans believe in universal truth, too, tough we are less certain that we have it all already. It is not skepticism about the very idea of truth that guides us; it is realism about how hard the truth is to find. One truth we hold to, however, is that every human being has obligations to every other. Everybody matters: that is our central idea. And it sharply limits the scope of our tolerance.

No final das contas, Appiah indica que a posição moral do indivíduo é mais importante para o cosmopolitanismo. Com o frame of mind moral certo, a gente pode construir um sistema político cosmopolita. Esta é a aposta do Appiah – em termos amplos. Perfeccionismo moral não é necessário, apenas precisamos viabilizar as necessidades básicas de indivíduos via política – a partir de uma demanda moral.

Nestes termos, é difícil não ser seduzido pela argumentação do Appiah. Mas ela cai no velho problema filosófico de fórmulas mágicas para resolver a humanidade. Creio que o livro do Appiah é importante como uma excelente introdução ao problema do cosmopolitanismo, mas falha em dar um panorama consistente do imbróglio teórico que tá em jogo nesta discussão.


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Comments
One Response to “Kwame Anthony Appiah::Cosmopolitanism, Ethics in a world of strangers”
  1. moche disse:

    Não sei o que queres dizer com “dabilidade” horizontal, mas a moral é pensada como uma relação que se interpõe entre a pessoa e a razão, enquanto que para Levinas essa mediação não existe (em algum lugar do TI). Por isso ele deixa de lado uma “epistemologia” da ética e passa para uma dimensão nova, fundante, que liberta a ética desses esquemas filosóficos tradicionais.

    Assim, a moral perde o caráter “natural”, mas não seu conteúdo real (em oposição ao deontológico) e universal.

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