The moral Highground

Conversas sobre moral se tornaram outro nome para condescendência e políticamente correto? Eu não sei responder esta pergunta. Creio que ninguém honesto sobre o que faz em termos de filosofia moral pode responder esta pergunta. Responder ela é profundamente condescendente, para início de conversa.

Quando e como estamos autorizados a falar de um parâmetro mais alto de moral sem cair em um moralismo barato? Ao mesmo tempo, como lidar com uma série de intuições nossas que gritam contra algumas práticas correntes? Creio que cada vez mais o desafio é mediar as nossas intuições morais em relação com as práticas políticas vigentes – mas sem com isso fazer uma moralização política. Porque falo isso?

Por dois motivos.

O primeiro, é a notícia que saiu hoje, que finalmente o governo americano admitiu que:

1) Waterboarding não é tortura

2) Prisioneiros de guerra foram expostos à esta prática.

3) Se for necessário, isso será feito novamente.

4) Não importa o que diz a convenção de Genebra, para os EUA Waterboarding não é tortura.

5) Isso não está aberto para discussão.

Eu não sei nem por onde começar. Pera aí, eu sei sim! Com a palavra, um homem extremamente liberal, praticamente um santo! Um homem que não conhece limites para a moralidade e a santidade! Um cidadão da esquerda americana! Senhoras e senhores:

Opa. Este é o John McCain?

Sim, é o John McCain, e ele acabou de dizer que os estados unidos, desde sua superioridade moral (moral highground) não pode ter este tipo de prática. Parem as máquinas um pouco: o candidato republicano que certamente vai representar o partido disse isso? De outro lado, a atual presidência diz todo aquele resto? Então é isso que sobrou para o moral highground? Um papo condescendente de somos os detentores de isso e aquilo.

O que me leva ao segundo ponto;

O papo de moral highground deve muito para um outro papo, o papo da tal da eleição. Um autor lituano, certa vez, escreveu um livro chamado A liberdade difícil. Não vou citar o texto, que não tenho à mão. Mas vou citar um artigo, de Ephraim Meir (minha tradução, por favor não reproduzam):

Para Levinas, eleição não é um privilégio, mas uma responsabilidade; é a nobreza de entrar em uma relação desigual. Consciência moral é, assim, consciência de eleição. Esta posição, “separada das nações”, é para Levinas percebida em Israel, que é acima de tudo uma categoria moral.

(…)

Também a idéia de eleição que é expressa nos artigos retornam na filosofia de Levinas. A eleição de Israel longe de contradizer o universalismo, é uma função deste. Ser eleito não é consciência de direitos excepcionais, mas de tarefas excepcionais: é a própria prerrogativa de consciência moral. A concepção Judaica de eleição, longe de ser anterior a um universalismo, onde todas as diferenças são escondidas, inclui esta abolição de diferenças como uma condição, ainda que seja indispensável a ela.Também na filosofia de Levinas, o Eu é “eleito”.

Eu não quero comprar uma briga aqui, eu quero mais é propor uma reflexão. Leiam o Meir. Assistam o McCain de novo. Prestem atenção na questão do Highground moral nos dois textos. O sentido de um conservadorismo moral e de uma postura de higher-ground derivada de uma certa eleição me parece presente nos dois discursos. O curioso é o que este conservadorismo parece esconder: um certo recurso à moral para escapar da discussão política no fim das contas – reparem como o McCain se esquiva da pergunta sobre o juiz ao final de seu belo discurso; depois reparem como Meir (assim como Levinas) tem um pavor patológico das discussões políticas.

Dizer que a moral deve fundamentar a política parece um discurso vazio. O que significa isso? Qual moral? Desde que ponto de vista? A moral do eleito? Qual eleito? Com qual autoridade?

Neste sentido, creio que tanto Kant quanto Hobbes ainda nos oferecem mais saídas que nossos contemporâneos moralistas – que parecem retornar para uma idéia profundamente imanente e conservadora de moral. Se Kant falava de um dever moral, ele também falava de uma superveniência de morais no processo histórico – e depois fomos bem sucedidos em desacralizar a história kantiana. Hobbes nos oferece um contrato – é um contrato brutal, é verdade -mas pelo menos não temos que aceitar condescendências; ou migalhas morais oferecidas como um discurso edificante.

Isso é para aceitar waterboarding, Fabrício? Tu tá dizendo que waterboarding é moral?

Não, eu estou dizendo que inaceitável políticamente – sobretudo porque nada garante que funciona, e o custo que pagamos para nos livrar de nossas intuições que dizem que isso tá completamente errado é altíssimo (e não correspondido). Não tem um highground moral, é só uma intuição – se preferirmos ser fenomenológicos (e eu prefiro) é uma intenção. Uma forma de se aproximar de um problema. Não é a forma, e não tem eleição nenhuma que me chama desde o infinito.

Tem um cinismo muito grande neste papo de eleição e de highground moral, e é esta provocação que eu queria deixar. O McCain faz um discurso muito bonito sobre como toda a conduta é errada e inaceitável, e como os americanos sabem mais que isso porque são um exemplo de eleição. Mesma coisa o papo de eleição e responsabilidade pelo outro.

Ao mesmo tempo, quem faz este discurso muitas vezes é o primeiro a representar um partido que apoia esta mesma prática que agora a pouco ia contra o higherground moral – ou o cidadão que vai tentar me dizer como viver a minha vida de forma responsável; isto me cheira a hipocrisia e conservadorismo.

Sintam-se a vontade para divergir. É a idéia.

Comments
3 Responses to “The moral Highground”
  1. moche disse:

    Eu achei o post instigante, mas não consigo concordar totalmente com isso.

    Para mim, política sem parâmetros éticos mínimos é porta aberta ao totalitarismo.

  2. “Se Kant falava de um dever moral, ele também falava de uma superveniência de morais no processo histórico”

    ???

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  1. […] do McCain discursando sobre a tortura, e que era um absurdo terrível e que a gente tem que ter um highground moral? It’s a mighty fine line to walk. Sen. John McCain (R-AZ) opposes torture. But when the […]



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