Estudando nos Estados Unidos

Disclaimer:

Desde outubro, quando recebi a noticia da minha aprovação na Fulbright, recebo email e coisas afins de gente me caçando pedindo informações sobre como passar no programa, ou pedindo dicas e manhas. Claro que não respondi nenhum destes email, não gosto deste tipo de abordagem – até porque parece que tem formula mágica para passar nos exames; é claro que não tem. Tanto eu quanto a Tatiana passamos (e no meu caso ainda passo) por uma série de entraves burocráticos e labirintos que não são fáceis de serem descritos – sei que contei muito com apoio de professores e amigos para seguir neste processo; e sou grato por isto. Mas não estou disposto a dar fórmulas mágicas, ou sequer apoiar completos desconhecidos que deram um google no meu nome quando viram ele na lista – e que de outra forma certamente sequer me comprimentariam no Campus, por me acharem, sei lá, mal vestido. Sou capaz de dar um rim para um amigo, mas não vou ficar dando barbada para completos estranhos.

Fim do disclaimer.

Com esta introdução quero deixar bem claro que este é apenas um pequeno documentário do que consegui perceber até agora sobre o estado da arte das universidades aqui, e como a gente tem uma impressão um pouco equivocada de como as coisas funcionam nestas terras estranhas.

Primeira consideração é que a quantidade de núcleos universitários é gigantesco. Tu tem grandes universidades em quase todas as regiões dos Estados Unidos, destas grandes universidades, tu vai sub-dividir entre os departamentos gigantescos (Ivory League) e os departamentos grandes, mas sem a grife da Ivy League.

Quem estuda nos grandes departamentos? Esta é uma excelente pergunta. Bem, isso depende muito da tua área de pesquisa, e do teu interesse pessoal. Para um americano entrar em um departamento da Ivy League, ele tem duas opções, ou ele é alguém com um currículo acadêmico primoroso, certamente com alguma pós-graduação já feita em um departamento reconhecido – por exemplo, é comum pessoas com Doutorado em Ciencia Política em um departamento médio, procurarem entrar em uma graduação em Direito na Columbia. Neste sentido, tu precisa de um GPA (média das notas) desde o ensino básico, bastante alto, conjugado com notas significativas no teu GRE e GMAT (caso necessário). Apenas isso não é o suficiente, diga-se de passagem. Sem contato com orientador, ou com a direção da faculdade, tua possibilidade de entrada em um grande departamento é próxima de zero. Se tu vem de fora dos Estados Unidos, é bom tu trazer financiamento contigo, do contrário tuas chances de entrar em um lugar como Harvard são realmente pequenas.

No entanto, departamentos grandes trazem vantagens políticas mais do que vantagens acadêmicas para os seus estudantes. A vida nas cidades onde estes departamentos ficam geralmente é caríssima (Princeton, por exemplo, é reconhecidamente uma faculdade exclusiva, por sua localização geográfica e quase nenhuma bolsa), e muitos departamentos gigantes (caso da New School) sequer oferecem housing para os estudantes (o que, no caso de uma universidade localizada em Nova Iorque é brutal). No entanto, um PhD em Harvard no teu currículo vai te garantir uma posição política ou acadêmica na tua saída do departamento.

Claro, tu vai conseguir entrar em um departamento como Harvard, ou Yale, ou qualquer um, por interferencia política-monetária. Se tu tem pedigree e teu pai contribuiu com milhões para a universidade, é claro que tu vai ser admitido.

Mas, no fundo, é uma questão de pretensão. Por exemplo, no meu caso, quase a totalidade dos departamentos da Ivy league não eram interessantes do ponto de vista acadêmico, pelo simples motivo que estas faculdades tem uma vocação analítica em Filosofia, o que tornaria a execução do meu projeto quase impossível. Também tive que pensar a adequação do meu salário de bolsista com a realidade da cidade onde a faculdade está localizada. Se tu estás disposto a estudar na UCLA, tem que estar disposto a pagar 700 paus para dividir um quarto com alguém – tá, talvez 500. Com este nível de gasto, sobra pouco dinheiro para gastar em material de pesquisa, ou para ir em congressos e eventos – parte essencial da tua formação, no fim das contas.

O que eu quero dizer com isso é que vale a pena tentar entrar em grandes departamentos, mas pela questão política – tu realmente tem um peso grande no teu currículo. Mas nem sempre pela questão acadêmica. Para quem quer levar um PhD, ou um mestrado, nos Estados Unidos, o mais importante é saber se a faculdade tem uma boa biblioteca para a tua pesquisa; uma localização geográfica que te permita ir para eventos com certa agilidade, e sobretudo uma boa orientação.

Não adianta sair do Brasil para ter uma orientação pior que em casa – só para poder se gabar de ter estudado fora. A vantagem aqui é sobretudo estrutural, mas sem o background de professores no teu departamento, tu vai acabar desenvolvendo uma pesquisa sem pé nem cabeça (isso na possibilidade ínfima de tu ser admitido com uma pesquisa de vocação contrária ou inexistente com a do departamento que tu procura).

Departamentos médios ou pouco reconhecidos fora dos Estados Unidos as vezes são mais interessantes para quem vem de fora, com grana curta – tu pode guardar dinheiro e investir ele na tua pesquisa, sem ter que te matar para conseguir pagar as contas no fim do mês. Claro, não vou dizer que tu vai encontrar um bom ambiente acadêmico para estudar antropologia na Universidade de Salt Lake. Exceto se tu for, sei lá, criacionista.

Mas estou convencido que é possível – e até vantajoso – buscar departamentos menores e com condições de te dar suporte para o PhD. Tem muito professor excepcional em departamentos fora do que a gente conhece como o mainstream – e a competitividade é basicamente a mesma, porque ela é parte do espírito americano. De resto, se tu participares dos eventos na tua área, tu vai ser reconhecido – o negócio é botar a cara para bater.


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Comments
One Response to “Estudando nos Estados Unidos”
  1. Patricia Santuci disse:

    Oi td bem?
    Eu gostei muito do que voce escreveu, e nem to aqui para te perguntar como voce conseguiu entrar em Fullbright, alis parabéns, isso é bem honravel.
    Eu faço faculdade de cinema aqui em São Paulo, e tenho como projeto quando terminar minha faculdade de fazer um curso tecnico na UCLA, porem tenho procurado bastante coisas a respeito de como se candidatar a faculdade e não acho.
    Eu só queria saber msm como me informar melhor sobre isso.
    Ou só viajando até os EUA msm?

    Bom agradeço se vc puder me ajudar
    Abraços

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