Filosofia Francesa é uma forma de rugby

Todo mundo sabe, filosofia francesa é para os fortes – eu diria que é uma foma mais agressiva de rugby. Rugby, sabe-se, pelo menos mantém algumas regras. Filosofia francesa é a vitória do oba-oba desenfreado e sem limite, é o jogo sem regras, é o pesadelo do Wittgenstein.

Meu problema com filosofia francesa, basicamente, é que eu sou apaixonado por filosofia francesa.

Eu sei, isso soou bizarro.

Mas eu precisava tirar isso do meu sistema. Eu gosto de ler Derrida, ok? Eu acho o Adeus um texto sensacional. Sou tomado de um fervor bíblico quando leio o capítulo do Gramatologia sobre Wittgenstein. Dia desses eu tava lendo Marion, e achando uma coisa sensacional. Marion!!! O cara do fenômeno mínimo, sabe? Gosto de falar mal do Foucault, mas no fundo no fundo eu morro de amores pelo careca, e no meu íntimo acho As Palavras e as Coisas um bom livro de filosofia.

Creio que o motivo principal da minha revolta é que pelo meu encanto com estes autores, e pela ajuda de professores sensacionais que me incentivaram a dar vazão ao meu entusiasmo, acabei virando algo um pouco desprezível: um caolho teórico.

Reli estes dias o texto que apresentei, no congresso de fenomenologia sobre Levinas e Agamben, e me questionei como ninguém se levantou para me dar uma cadeirada. Eu merecia ter levado uma cadeirada por ter tido coragem de ter lido aquele troço em público, uma coisa é o professor me dar apoio e dizer que tá ótimo, outra é eu ter a cara de pau de apresentar aquele negócio em um evento grande. O texto pode ser resumido em: o Estado é malvado, feio e bobo, e quer te pegar na saída; a política contemporânea é o pesadelo da ética; vamos todos dar as mãos, olhar para o céu, e ver como o outro do nosso lado precisa ser aceito.

Ou seja: total e completa aderência.

Da minha dissertação e de meu artigo sobre o relativismo não tenho tanta vergonha – na real, gosto para cacete do que escrevi sobre relativismo, no contexto derridiano. Mas não consigo mais ler meu projeto de tese que apresentei à Capes. Simplesmente penso “deus do céu, o Valls tava coberto de razão quando me disse que isso aqui era um desfile de lugares comuns”.

Acho que simplesmente estou me tornando melhor em conhecer o jogo contrário aqui nos istates, para tentar jogar melhor contra eles depois, ou usar uma ou duas estratégias deles para aprimorar meu próprio jogo. Mas não consigo mais com o discurso homogêneo (seja de um lado, ou do outro). Acho Searle pior que qualquer continental, e o Nagel uma coisa desprezível e obsoleta. O problema é que eles usam uma linguagem muito menos obtusa, muito mais clara – ou seja, jogam um jogo com regras mais claras, e portanto mais agradável aos olhos.

Mas pronto, confessei. Eu gosto dos pós-modernos. Com restrições, é claro. Mas acho bacaninha o jogo deles. Só que eu sou um filho da puta pretencioso, e eu quero me tornar melhor no jogo, para poder dar um ou dois pontapés sem precisar arriscar levar um carrinho e quebrar a perna.


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Comments
One Response to “Filosofia Francesa é uma forma de rugby”
  1. moche disse:

    É, estou de acordo com várias coisas. Tb acho que os franceses são bacanas de ser ler – gente como Foucault, Derrida, Lyotard, deleuze – mas tropeçam às vezes no “vale tudo”.

    E também acho que a linguagem analítica é mais acessível. MAS não admito, como tu diz no post, que gente como Searle e Nagel ridicularizem e tirem para farsantes filósofos que eles NÃO ENTENDERAM. É incrível. Tu lê “A última palavra” do Nagel e as refutações dele são totalmente ridículas. Primeiro, porque ele expõe de forma totalmente caricata o que pensam seus adversários (inclusive é incapaz de mencioná-los, o que acho até anti-ético). Segundo, porque os argumentos são risíveis. O mesmo com o Searle, se bem que deste só li entrevistas e nenhum livro.

    Então o negócio acho que é buscar uma conciliação, talvez na linha do Rorty, se bem que não necessariamente repetindo todas as suas conclusões, muitas das quais não concordo.

    Sobre o Levinas e Agamben, deixa pra outra hora. :-)

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