o double-bind do dispositivo

Não sei como traduzir “double-bind” para o português, talvez “dupla-face” seja uma boa tradução.

Um pequeno resumo.

Eu e o Walter temos uma discussão corrente, que já tem uns três anos, e que eu não sei como ainda não terminou em morte. Basicamente, o Walter acha que tudo que foi produzido a partir da influência de Nietzsche tem um destino inexorável: a lata de lixo. Ainda que eu entenda este argumento, especialmente depois de ter lido Dussel, eu não consigo concordar com ele.

Talvez eu esteja generalizando demais, acho que o problema do Walter é mais com o pensamento de 1968, e seus inspiradores (especialmente Heidegger e Nietzsche). Mas não é sobre isso, especialmente, que eu quero falar. É só para colocar em contexto o que motiva este post, especificamente, uma provocação do Walter, que chamou um dos meus autores de escolha, o Giorgio Agamben, de “desespero profundo“.

Primeiro, vou concordar com o Walter.

É o seguinte: o papo de controle-total, de neo-liberalismo malvado e de um grande monstro chamado Estado Liberal de Direito (com letras maiúsculas) que vai dominar tudo é um delírio.

Mas ninguém aqui tá levando o Chomsky a sério, certo?

Mas eu quero aqui aproveitar para dar uma pincelada em algo que tem me chamado a atenção, que é o aspecto duplo do que Deleuze e Foucault chamaram de dispositivo. No geral, a discussão sobre dispositivos, ou sobre a técnica, é caracterizada por um terrível exagero, uma exacerbação dos perigos da tecnologia e uma condescendência com o indivíduo que estaria exposto aos tenebrosos perigos de uma exposição à técnica totalizante.

Pois bem, vamos dar nome aos bois. Este discurso é um discurso razo e anacrônico. Mas Foucault nunca defendeu ele. E quem usa Foucault para fazer isso está simplesmente entendendo tudo errado. Foucault vai falar de tecnologias de poder mas também de tecnologias do Eu, ou colocando em termos menos pomposos – mecanismos estatais de controle versus mecanismos individuais de resistência.

Ok, isto tem gosto de 68. Mas vamos tirar a afetação Foucaultiana, por um instante, e focar no que isso pode significar. E pouco me importa se era isso que Foucault queria dizer. Neste sentido, será que o uso que fazemos de dispositivos (de técnicas) não podem ser positivos? Foucault abre esta porta quando diz o seguinte:

“(…) we always have possibilities, there are always possibilities, there always possibilities of changing the situation. We cannot jump outside the situation, and there is no point where you are free from all power relations. But you can always change it. So what I’ve said does not mean we are always trapped, but that we are always free – well, anyway, that there is always the possibility of changing” (Foucault, 2004[1982]:166)

Ainda que sempre existam algumas relações de poder (e acho que isso é dificilmente discutivel) em ação sobre o indivíduo, ele pode superar esta situação de opressão (e esta opressão não precisa ser a opressão terrível de um Estado malvado). Temos aqui, para usar um termo que eu gosto muito, estratégias contra a arquitetura – e o Walter vai ficar irritado comigo, mas um bom exemplo disto é a explosão de veículos como a novacorja, que vão utilizar uma tecnologia como a internet para tocar o horror.

De outro lado, também precisamos reconhecer que o guri que só se relaciona com pessoas via internet e via bluetooth tem um problema sério. Acontece que este problema não é apenas do dispositivo, é o problema do deixar-se dominar, ou melhor, do que tu faz com a tua liberdade.

A liberdade de vender coca é o mesmo caso. Se tu vai vender cocaína na esquina, tu pode ser pego. Seja pela polícia, seja pela câmera de vigilância na esquina. Se tu for procurar pedofilia na internet, eu espero que tu seja pego por algum mecanismo de controle. A desgraça disto, é que os mecanismos de controle costumam falhar – muita gente vende coca e não é pega pela câmera, muita gente acha pedofilia na rede e não é pega, atentados terroristas acontecem apesar do controle nos aeroportos.

Mas isso é parte do que eu estou tentando colocar como via-dupla da técnica e do dispositivo. A gente tem um bocado de tecnologias novas para dar conta, e elas vão mudar a forma como a gente se percebe – assim como diversas outras tecnologias alteraram nossa auto-compreensão. Isso não é um problema, sobretudo porque, como Geertz bem demonstra, culturas não são estáticas, muito menos indivíduos. Mudamos um bocado de vezes durante nossa história, e algumas destas mudanças são derivadas das nossas relações com dispositivos.

Assim como o Estado usando tecnicas ou dispositivos para tentar controlar a população não é exatamente novidade, talvez seja novidade o alcance disso – e daí tanto a eficácia quando a ineficácia vão ser medidas em níveis maiores (daí a paranóia exagerada do Agamben). Mas acho que o Foucault teve uma intuição fenomenal ao falar da nossa relação com estes objetos, intuição esta que Heidegger tinha falado de forma mais obtusa nos seus ensaios sobre técnica (de desastrada conexão com o Nazismo).

Não sei até que ponto conseguimos falar em uma distinção entre público e privado hoje em dia, mas creio que a maior parte das legislações democráticas coloca uma distinção bastante clara, do quando tua ação privada se torna um problema público, e acho bom que as coisas sejam assim. A verdade é que uma população de 6 bilhões de pessoas dificilmente é controlável individualmente, assim como o tráfego na internet é de um peso tão extraordinário que controlar toda a informação que viaja aqui dentro é algo dificilmente factível.

No entanto, ontem mesmo lia uma matéria que o governo americano fechou o espaço aéreo de Washington por ter verificado radiação nuclear no perímetro da cidade. Acharam a fonte. Era um gatinho que tinha feito tratamento para câncer.

Daí tu vai ver o governo dizendo que precisa torturar para arrumar informação, ou usar determinadas técnicas ou dispositivos para controlar indivíduos, e tu pergunta “ora bolas, vcs conseguem achar um gatinho com radiação em um raio de 50 milhas do centro de Washington-DC! Realmente precisa dar choque nos caras em Guantánamo? Ainda mais tendo em vista que isso provavelmente nem funciona tão bem assim?” ou “precisa construir uma porra dum muro entre o méxico e os states? quer dizer, really?”

Tenho tentado indicar a necessidade da superação do debate da biopolítica e da questão do dispositivo em termos apenas ontológicos, ou apenas morais, e a mudança de foco para o plano político. Eu teria que explicar com mais detalhes o que pretendo fazer na minha tese, mas vou adiar que a questão aqui é reconhecer este double-bind, e lidar com ele politicamente – reconhecendo que precisamos de um mínimo (que até pode ter uma origem na questão da auto-comrpeensão e da ontologia, mas isto é filosofia demais para um blog) reconhecido políticamente como não-negociável. E talvez esta seja uma ponte interessante entre o liberalismo político e a fenomenologia, um ponto comum entre Rawls e Foucault.

Me perguntem de novo daqui a quatro anos. Certamente terei virado um completo realista. E, voces sabem, “o pior idealismo é melhor que o melhor realismo”.


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Comments
4 Responses to “o double-bind do dispositivo”
  1. moche disse:

    minha pergunta é: tu te aproxima, com essa politização da discussão ontológica e moral, de um utilitarismo?

  2. olha, toda moral tem um fundo utilitário. Acho que não tem como negar isso.
    No entanto, acho a tese da justificação e a tese do coerentismo moral furadas, porque não levam em consideração que toda fundamentação tem um fundo intencional.

    Minha aposta é deontológica, não utilitária.Creio que trabalhar com base em princípios mínimos não negociáveis é melhor que apenas confiar em fórmulas mágicas. Ambos são igualmente ad-hoc, mas o primeiro dá mais segurança sistemática – e parece mais coerente com a forma como as pessoas agem no seu dia-a-dia.

  3. a.b.c. disse:

    Double-Bind se traduz como duplo-vínculo

  4. Sim, eu sei.
    Mas não é uma boa tradução :)

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