O Lobby da Tortura

O ” especialista” é uma figura necessária, eu diria até clássica, do jornalismo político norte-americano. Existem especialistas para tudo, e cada emissora tem os seus “queridinhos”, alguns se tornam figuras míticas, referências de períodos conturbados, e “termômetros” da “opinião pública”, outros acabam entrando em desgraça por esta ou aquela colocação mais infeliz.

Claro, isso tem mais relevância entre o público entre 40-65 anos, que assiste TV para se informar, e que não entendeu muito bem toda a bolha da informação on-line; gente que cresceu com a CNN se tornando uma rede especializada em fazer noticário 24 horas por dia, sete dias por semana.

Daí a matéria do NYT de hoje, sobre o Lobby que os “analistas” políticos, supostamente independentes, estavam fazendo nas redes de TV durante o Governo Bush:

The effort, which began with the buildup to the Iraq war and continues to this day, has sought to exploit ideological and military allegiances, and also a powerful financial dynamic: Most of the analysts have ties to military contractors vested in the very war policies they are asked to assess on air.

A matéria é interessante, e trabalha a espécie de contra-propaganda que o governo insere na mídia, que fora da FOX, tende a falar de forma mais crítica do governo. O governo americano parece compreender algumas das nuances de informação e contra-informação, e sobretudo de propaganda de guerra.

Mas a parte que eu achei mais interessante da matéria (que é bem grande), foi sobre Gitmo:

Some of these analysts were on the mission to Cuba on June 24, 2005 — the first of six such Guantánamo trips — which was designed to mobilize analysts against the growing perception of Guantánamo as an international symbol of inhumane treatment. On the flight to Cuba, for much of the day at Guantánamo and on the flight home that night, Pentagon officials briefed the 10 or so analysts on their key messages — how much had been spent improving the facility, the abuse endured by guards, the extensive rights afforded detainees.

The results came quickly. The analysts went on TV and radio, decrying Amnesty International, criticizing calls to close the facility and asserting that all detainees were treated humanely.

Não quero fazer grandes julgamentos aqui, só achei a dinamica da coisa extremamente interessante, especialmente o fato do governo ainda confiar no poder das redes de informação via TV como formadoras de opinião (do contrário, não haveria nenhum motivo para colocar estes “especialistas” fazendo lobby). Não é que elas não sejam mais influentes, mas a idéia de cultura de massa está nitidamente em crise.

Explico: a forma como tu tens acesso à informação na internet tá mudando a dinamica de como neguinho forma a própria opinião, se tu pegas as gerações mais novas, o pessoal não lê mais o Times ou a Newsweek, mas o Talking Points Memo e o Huffington Post. A politico.com virou uma força tão grande de informação que a CNN organizou debates com apoio e suporte da Politico.

No entanto, o governo continua fazendo Lobby na TV, certamente porque identifica neste público uma referência mais importante (algo do tipo “se perdermos eles, perdemos tudo”) ou simplesmente porque não entendeu o jogo novo.

De qualquer forma, vale ler a matéria para ver como a Guerra no Iraque, Gitmo e um monte de outros absurdos foram vendidos pela televisõa por estes especialistas; mas não custa manter em mente: boa parte do fracasso do governo em manter a opinião pública do lado deles passa pela internet e pela disseminação da cultura de massa.

Enquanto isso,

with President Bush’s clear knowledge and support — some of the very highest officials in the land not only approved the abuse of prisoners, but participated in the detailed planning of harsh interrogations and helped to create a legal structure to shield from justice those who followed the orders

Os detalhes de como os prisioneiros em Gitmo foram tratados começam a aparecer, e este editorial do NYT resolve chamar alguns protagonistas das políticas externas do Bush para a briga:

We have questions to ask, in particular, about the involvement of Ms. Rice, who has managed to escape blame for the catastrophic decisions made while she was Mr. Bush’s national security adviser, and Mr. Powell, a career Army officer who should know that torture has little value as an interrogation method and puts captured Americans at much greater risk. Did they raise objections or warn of the disastrous effect on America’s standing in the world? Did anyone?

Mr. Bush has sidestepped or quashed every attempt to uncover the breadth and depth of his sordid actions. Congress is likely to endorse a cover-up of the extent of the illegal wiretapping he authorized after 9/11, and we are still waiting, with diminishing hopes, for a long-promised report on what the Bush team really knew before the Iraq invasion about those absent weapons of mass destruction — as opposed to what it proclaimed.

o pior de tudo é ver as pesquisas, ver como a coisa tá se desenhando, e chegar a conclusão que o McCain pode ganhar, seja do Obama ou seja da Hillary. E continuar com uma política que ignora o aquecimento global, ignora o colapso da política militar norte-americana e, finalmente, acha que a crise do crédito vai se resolver botando MAIS crédito na praça.


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