Dois albuns do NIN

Primeiro, o instrumental.

Ghosts I-IV

Tu podes baixar o volume um gratuitamente aqui, são quatro EPs instrumentais focando em ambientes eletrônicos-analógicos que variam entre 2 e 7 minutos. Eu comprei o pacote com 4 DVDs Blue Ray e os quatro cds em MP3, mas eu sou fã.

Desde que eu gosto de música, eu gosto de música eletrônica. Acho que comecei a ser um aficcionado por música em 1995, e já nesta época eu ouvia coisas que poderiam ser caracterizadas como eletrônicas. Mas o que me fez pegar gosto pela coisa foi a trilha sonora do Lost Highway, e os albuns do NIN. Basicamente, ali eu aprendi que música eletrônica podia ser algo tão empolgante quanto um riff do AC/DC.

Um pouco depois disso, minha relação foi mudando. Passei de alguém que ouvia música eletrônica para dançar, de alguém que gostava de musica eletronica como expressão artística. Dois fatores foram determinantes para isso, eu ouvir um cd da tori amos chamado From the Choirgirl Hotel, um cd do Aphex Twin chamado Ambient Music Vol.II, um do Radiohead, chamado Kid A, e um do NIN chamado Further Down the Spiral.

Ouvi estes cds entre 1999-2001, em um período que eu quase não ouvi música analógica. Também neste período descobri os primódios da música eletrônica, com o Stockhausen, Silver Apples, Can e as coisas mais contemporâneas, tipo Phillip Glass. Isso coincidiu com minha tomada de gosto por Jazz, que antes eu ouvia mais como uma curiosidade eventual no fim da noite na 107.7 (conheço poucos adolescentes que podiam comprar cds de jazz com a própria grana, e meus pais infelizmente não gostavam lá muito da coisa. Assim, apenas fui ouvir jazz direito depois que comecei a ganhar dinheiro e poder queimar tudo que eu ganhava em CD).

Pois bem, na minha opinião, o Reznor sempre foi um artista que se beneficiou de quem quer que seja que contribuia com ele, no Pretty Hate Machine, os grandes momentos são quando ele remixa Public Enemy, A tribe Called Quest e Alien Ant Farm. No Broken, a melhor música é uma cover do Adam Ant. O Downward Spiral tem um contra album chamado Further Down The Spiral, com remixes do Aphex Twin, que são de chorar. O Fragile, per se, era na minha opinião o grande trabalho individual do Reznor. Mas um trabalho que deixava ele tecnicamente atrás de gente como Aphex Twin, os caras do Neubauten… isso para não falar do Kraftwerk (que nunca foi muito meu estilo).

Pois bem, a grande novidade do Ghosts é o Reznor surgindo como uma força, em matéria de melodia e composição, que pode ficar lado a lado com o Philip Glass. Mais que um gênio do estúdio, já que neste meio ele só tem um competidor no Dr. Dre, um cara que entende como melodias nascem, se formam e morrem.

É difícil descrever os quatro EPs, são quase quarenta movimentos para quatro temas, cada um remete à uma série de cenários sintéticos e seus referentes melódicos. É doido. As vezes é para dançar, as vezes é simplesmente música de ambiente, as vezes é difícil de ouvir e sem ordem. É música contemporânea em toda a sua força e potencial.

—-

The Slip

Muito bem, quando saiu o single, todo mundo ficou de orelha em pé. Era óbvio que tinha algo acontecendo.

Ontem o Reznor colocou no ar a segunda parte do Year Zero, The Slip, totalmente gratuíto, em 360 de qualidade. O CD mesmo vai sair em julho nas lojas. Tu vais poder ouvir todas as músicas aqui, tudo pelo youtube. O Reznor pediu que os fãz fizessem isso, e em um dia teve gente que fez até clipe para música.

O Tiago me passou o link, que eu imediatamente segui, e baixei o cd. Então hoje, enquanto eu fazia este caminho aqui:

Ida e volta, quase vinte milhas, meu novo recorde por estas bandas, por sinal. O mapa certo é o do link, o que tá mostrando aqui coloca uma avenida que não foi a que eu peguei, mas serve para ilustrar. Enquanto eu pedalava, ia pensando que é sensacional poder fazer isso, é uma das vantagens de se estar em um lugar pequeno: tu pode sair de casa, e em cinco minutos tu tá em uma estrada indo para um parque estadual, e pedalando cercado de paredões pré-históricos enquanto tu escuta boa música.

Sempre achei NIN muito urbano, mas é bizarro, porque o Reznor é um cara que cresceu num lugar no meio do nada, em PA. Na real, o som faz sentido, especialmente as partes mais ambientais, neste cenário meio aberto, bem isolado, do mid-west.

Bom, ouvi o cd duas vezes durante minha pernada (também ouvi um trecho do Ghosts), a pancadaria abre com a ambiental 999,999. Uma musica curta, que dá o tom do CD.

Disclamer: se tu não é fã da banda, ou não tá curioso para ouvir o cd, pare de ler aqui, e volte a ler no /Disclamer. Não vai fazer falta alguma para ti.

Depois, é 1.000.000, que é a pancadaria habitual do NIN, a bateria abre com tudo, a música deve ser especialmente boa para pista.

Encaixa Letting You, que é bem industrial das antigas, lembra Alien Sexy Fiend (melhor nome de banda, ever) e KMFDM. Fica claro, pela guitarreira, que a banda tá colaborando bastante.

O Atticus Ross tá trabalhando como produtor no album, e o Robin Finck voltou para o NIN, o que eu acho sensacional.

Discipline é NIN das antigas, lembra coisas do Downward Spiral, especialmente March of the Pigs. É temática mei-Sadô, mei-política. Bem no estilo do Year Zero. Os ambientes de piano são ótimos, e o uso do baixo para dar o tema tá bem legal também.

Este é o clipe oficial (eu sei, eu sei) da música:

Echoplex segue o estrago:

Achei legal esta música, especialmente por ser bem na manha, e ir adicionando ambientes aos poucos. O estilo do Finch na guitarra dá um tom parecido com o do Fragile, é só prestar atenção no timbre da guitarra.

Head down é uma crowd pleaser, deve soar bem ao vivo.

and this is not my face/and this is not my life/and there’s not a single thing here/ that I can recognize//

Por algum motivo, eu acho que isso segue a demência temática do year zero, minha aposta é que é para ser sobre tortura.

Lights in the Sky é minha música preferida do album junto com Corona Radiata (a próxima). Totalmente ambiental, escolha de elementos e texturas eletrônicas tá perfeita, e entra facil-facil entre as minhas músicas preferidas do NIN. Lembra coisas do Still. Não sugiro para momentos de contemplação da finitude.

Corona Radiata é um follow up violento, que segue o ambiente que Lights in the Sky preparou, e foi uma das músicas que mais me agradou enquanto eu tava na bicicleta, achei fantástico ouvir isso num lugar totalmente aberto, cercado por planície e com uns paredões de pedras ao fundo.

Fica bem óbvio que o trabalho instrumental e experimental do Ghosts seguiu neste album, uma coisa deve ter sido feito junto com a outra, and it shows. A entrada da bateria nesta música, quase imperceptível, é algo que acontece o tempo todo no Ghosts, e ficou realmente bacana. Daí, para a demência de barulho que segue até o final.

Fica junto com Just like you imagined, como meu instrumental favorito do NIN dentro de um album convencional. Os instrumentais do Further down e do Ghosts are a whole different deal.

The four of us are dying, título bastante animador, é a penúltima música, e abre com um baixo que lembra Becoming, do Downward Spiral:

A música é instrumental, e continua no roll que Lights in the sky abriu. Na realidade, quase todo o lado “B” deste album é instrumental, com exceção da última música.

Esta seria Demon Seed:

It keeps growing
And I can feel it breathe
I have been trying
To behave myself
It keeps growing
And I can feel it breathe
I have been trying
To tolerate you

Óbvio, dentro do “tema”. Inclusive, se alguém quer ver o nível da demência dos fãs full-time (não é meu caso), observem, por favor, este fórum, que vem discutindo toda a babaquice do ARG do Year Zero e agora do The Slip.

/Disclamer

Para as impressões gerais do album:

Achei melhor que o Year Zero, que foi um bom album do Reznor. De forma geral, não acho melhor que o Fragile, nem que o Further Down the Spiral. Faz mais meu gênero que o Downward Spiral (que eu acho excessivamente pipoca) . Colocaria em pé de igualdade com o Broken e o Pretty Hate Machine.

O Broken tendo a vantagem de ser um EP absolutamente imediatista, coisa que este cd não é em nem um milhão de anos.

Gostei especialmente do fato de ser um album de banda, não é uma brincadeira do Reznor sozinho no estúdio (como foi o desastrado With Teeth). O papo do tema me incomoda um pouco, mas já aprendi a abstrair isto. Acho que NIN funciona melhor instrumental, embora seja legal cantar algumas músicas junto. E também é legal quando os remixes usam a voz como instrumento, coisa que este album não faz, e que o Fragile faz muito.

Não achei melhor que o cd novo do Nick Cave, mas certamente é melhor que o Man-Man, embora seja menos engraçado. Taí, as vezes o Reznor se leva a sério demais, e isso me incomoda. Talvez seja por isso que eu tenha gostado tanto do clipe de Discipline, que é meio uma piada.

Recomendo ambos os albuns, o Ghosts é um excelente album do Reznor sobre o nome Nine Inch Nails e com a colaboração do Atticus Ross e de alguns outros músicos, o The Slip é um album muito bom de uma banda chamada Nine Inch Nails, coisa rara, que eu não via acontecer desde o Fragile – que foi bem band-oriented.


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Comments
One Response to “Dois albuns do NIN”
  1. Panorama of Endtimes disse:

    Acho que não concordo contigo em algumas coisas. Não escutei o disco decentemente, mas ele não me parece tudo isso. Acho o year zero bem superior. Do ghosts eu não posso falar, pq só escutei o primeiro movimento e algumas coisas dos outros, no player, mas me soou muito bem
    acho que em ordem deve ser melhor

    na real, tenho que escutar melhor. mas nao achei melhor do que o zero, e acho que está no nível do with teeth. ando sintindo falta de coisas como no fragile. e na boa, não compara o just like com qqer coisa do slip
    não tem comparação

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