Sobre a suposta inutilidade da filosofia

O Walter, para variar, me motivando a postar.

O motivo é a entrevista que o Walter colocou no blog dele, do Simon Schwartzman, sobre pesquisa em nível superior e universidade.

Bom, vou começar com uma experiência pessoal.

Já ouvi, e de gente que eu respeito muito, a frase “a filosofia é inútil”, “a filosofia não serve para coisa alguma”, “um filósofo nunca fez nada que preste”. Todas estas frases, sem exceção, foram ditas por pessoas que detêm, ou detiveram, recursos públicos para as suas respectivas pesquisas.

Depois disso, em Chicago, tive que ouvir uns camaradas estudando Filosofia e Universidade, falando de um tal de Direito à Filosofia, e do “caráter eminentemente combativo da filosofia”, ou do “engajamento crítico” que apenas a filosofia proporciona. Tendo em vista que as pessoas que eu conheço que menos pegam jornal na mão, menos sabem o que tá acontecendo no mundo, menos ligam a TV na hora do noticiário, são pessoas que estudam humanas, e mais especificamente, pessoas que estudam filosofia, estou para ver direito este tal de engajamento crítico.

Mas este camarada em Chicago era um sujeito bacana, tinha estado na América Latina, onde se encantou com o nível de esclarecimento proporcionado pela teologia da libertação nas camadas mais pobres. Ou seja, era um camarada bastante iludido. Mas este sujeito, ao mesmo tempo, falava que a filosofia não podia se vender, não podia se render à instrumentalidade do capital, e citava o Derrida e o direito à filosofia de novo.

O papo do Derrida, e da filosofia que é importante porque é desimportante, que é importante enquanto mecanismo de resistência é um engodo sem precedentes que remete ao que 1968 teve de mais emaconhado. Não culpo o Derrida, ele era uma cria do tempo dele, e não poderia pensar diferente. Mas acho engraçado o pessoal falar isso hoje sem ficar vermelho de vergonha.

E acho um tiro no pé o papo de inutilidade da filosofia, como vamos justificar a grana que o governo investe na gente? Agora o governo tem que investir em um bando de inútil que vai ficar sentado elaborando pensamento crítico?

Pois bem, aqui é onde eu me distancio desta gente: Não penso que filosofia seja inútil. Eu acho que uma boa formação e educação na filosofia, especialmente nas faculdades, poderia tornar a pesquisa em ensino superior, a mesma que Schwartzman critica e problematiza na entrevista, em algo mais significativo. Para usar um termo em inglês, algo mais meaningful.

Vou tentar falar de algo que eu conheço um pouco, que é o estado da arte nas faculdades de direito, e na bioética, quando tenta se pesquisar a sério. Com exceções, a maior parte da pesquisa que se faz no Brasil nesta área é um mambo-jambo. Uma salada mista de oportunistas com gente bem intencionada, e sempre marcada com uma presença muito forte de grupos religiosos e organizações fazendo lobby. Pois bem, o que acontece é que o sujeito já tem mais ou menos definido o que ele quer tirar da pesquisa antes de começar ela.

Então, Hannah Arendt vira uma cristã. Kant vira um positivista. Rawls um socialista. Hegel um patrolador de mundos (embora isto esteja assustadoramente perto da verdade). E aí por diante.

Bom, se levássemos filosofia a sério, estas pesquisas que saem de coisa nenhuma e terminam em lugar algum não estariam ocupando pó nas nossas bibliotecas. Porque? Por que elas não fazem sentido. São apenas um apanhado de diferenças bibliográficas, sem organização, sem fundamento e sem coerência.Um lava a jato filosófico, como um amigo meu sempre diz. Daí a importância de que a pesquisa tenha uma orietnação forte para metodologia e epistemologia, duas das principais contribuições que a filosofia pode dar, e o caminho pelo qual podemos argumentar que somos relevantes, que podemos, sim, receber recursos que não vão entrar pelo cano.

Temos uma horda de alunos nas graduações e pós-graduações que simplesmente não tem idéia do que significa método, e que passam limpo por isso muitas vezes, ou por medo que as universidades têm de perder o apoio do governo federal ao admitir a incoerência de sua pesquisa, ou por puro e simples descaso do corpo docente com relação à pesquisa feita na universidade.

Neste sentido, a primeira providência seria o povo dentro da universidade de filosofia levantar a mão e dizer “oi, a gente pode ajudar nisso”. Se tu vais falar de alguma coisa – qualquer coisa – vais te certificares de saber as condições de possibilidade do discurso que tu tá fazendo, de como ele acontece, de como tu pode demonstrar a validade das tuas suposições na prática – ou, da coerência teórica do que tu tá apresentando (no caso de pesquisa especulativa).

E o argumento vai mais longe, podemos dizer que isso não implica que indivíduos abandonem suas convicções pessoais que levaram eles a fazer pesquisa em nome de um certo elitismo epistemológico – o que podemos fazer é nos certificar que a pesquisa saia bem feita. Com isso, podemos olhar para a direção de uma faculdade e dizer: “olha, tu tens como tornar tua pesquisa mais eficiente e mais coerente se tu tiveres uma orientação epistemológica forte, e disto a gente entende”.

Não tem direito a filosofia nenhum, não tem caráter de “resistência” ou coisa parecida. Quem quer ser ativista, que seja. A filosofia não é homogênea. Mas estudantes de filosofia bem formados podem ajudar a tornar a pesquisa em geral mais eficiente.

Claro, este podem é um grande SE. Até porque estamos muito confortáveis em nossos castelos para sair para fora e botar a cara para bater, é complicado chegar nas faculdades e dizer “isso tá uma merda, faz de novo”, e muitas vezes, é isso que tá em jogo. Não é fácil fazer isso em um país onde o ensino superior tá rápidamente virando um negócio onde o aluno sempre tem razão. Sabemos das dificuldades de reprovar um aluno em uma universidade privada, e das razões que levam as instituições a adotarem estas perspectivas.

Aí, o que eu colocaria é que não é todo aluno que tem que ser cobrado como se fosse virar um pesquisador – a orientação para a pesquisa é uma opção. Só que eu acho problemático que alunos de faculdade de direito saiam advogados sem ter nem idéia do que é um sistema ou o que diabos é um contrato social – e acreditem, esta é a regra. Diabos, a maior parte dos caras mal sabe o que é uma constituição. Daí o cara sabe a parte instrumental, mas não sabe as condições de possibilidade do sistema que ele tá operando. Com isso, temos uma comunidade de advogados formada, essencialmente, por um bando de falcatrua que só sabe vomitar lei.

A questão é que toda a ciência se preocupa com questões de “verdade”, e boa parte das ciências se preocupa com “sistema”, e é isso que mais falta nas faculdades, sejam elas de Direito, Medicina ou Engenharia. O cara se ocupa de uma série de práticas, mas tá alienado de como estas práticas são possíveis, de como elas se tornaram possíveis.

Admito que bons profissionais podem se formar sem ter muita base das condições de possibilidade de seus respectivos campos, mas não creio que bons pesquisadores possam fazer isso. Mas apenas com bons pesquisadores podemos formar bons profissionais, e não existe pesquisa sem uma formação epistemológica e uma noção de método forte.


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Comments
10 Responses to “Sobre a suposta inutilidade da filosofia”
  1. Moche disse:

    De pleno acordo.

    Falar que a filosofia é inútil é uma imbecilidade. Quem falou isso já fez discurso, e se fez discurso teve epistemologia, e se teve epistemologia já fez filosofia. Não tem como pular isso.

  2. Ferrari disse:

    Filosofia não serve pra nada, e História também. Esse povo tinha que largar essas maconhices e estudar Português e Matemática, pra conseguir um emprego decente e descobrir que cabeça cheia não enche o prato.

  3. cmhochmuller disse:

    Tá, mas então a coisa toda quase que se reduziria a um corretivo da produção científica das demais áreas?
    Nada contra…
    Mas eu, particularmente, fico com a cara na lona de pensar que todo o patrimônio acumulado ao longos dos séculos, que todos os cabelos brancos, que todas as prisões, que todos os sacrifícios, que enfim, tudo aquilo que se fez um nome da filosofia (concebendo-a como algo heterogêneo) se reduza a isso.
    Eu sei, eu sou brega, antiquada e romântica.
    Sem falar no “excêntrica” que tu bem sabe de onde vem. :D

  4. Moche disse:

    se chamarmos esse “patrimônio” de “metafísica”, acho que vai pro saco mesmo.

  5. Camila, não se reduziria. Claro que não, mas é assim que a gente pode justificar a existência do nosso campo.

    O que acontece, então, é que precisamos manter as nossas próprias condições de pé. Um bando de filósofos que só sabe de um campo é inútil, a gente precisa saber da onde as coisas saíram, e tentar resignificar algumas das coisas que já foram produzidas – daí a importância do cara que pesquisa filosofia antiga, ou spinoza, ou, sei lá, Agostinho.

    Mas a questão é: precisamos mostrar porque esta pesquisa é importante. É aquilo que o professor Stein fala das “revoluções permanentes”. A gente sempre tem que voltar para antigos paradigmas para compreender o que tá em jogo agora, e a construção acaba sendo dividida, já que ninguém consegue estudar tudo.

    (o cara que se mete a estudar monismo, por exemplo, provavelmente vai passar o resto da vida fazendo isso, mas a contribuição que ele dá não para, nem pode parar, só neste estudo – ela continua no cara que vai usar isso para embasar uma lógica na matematica, ou Ontology-Based systems, que estão revolucionando a análise de sistemas).

    e daí já respondo o Moysés. A questão da metafísica permanece, mas ela é resignificada. Assim como ela é inventada por Platão, resignificada por Aristóteles, Agostinho, Aquino, Kant, Heidegger e tantos outros. O quantidade de pressuposições de caráter metafísico que tu encontra hoje em análise de sistemas e lógica é fenomenal; e pesquisadores na área de filosofia tem ajudado nisso.

    Parte da ajuda, é entender como a metafísica se transforma com o tempo, e como o que temos hoje depende de toda uma história.

    Então não acho que a minha perspectiva restringe a filosofia, pelo contrário, eu Não quero censurar a pesquisa de ninguém. O cara quer pesquisar, sei lá, Baudrillard? Vai em frente. Só que tem que ter a noção do que tá por trás do que ele tá pesquisando, e para onde o troço pode ir depois.

    Se não tem esta noção de historicidade da pesquisa, nem uma noção de função para o depois, eu até acho que o cara pode ir em frente e pagar por um mestrado,e depois pendurar a dissertação dele na estante da casa dele e mostrar para os amigos enquanto toma um vinho caro. Mas não vejo porque devemos investir dinheiro em um interesse que termina em si mesmo.

    E isso serve para todos os campos, não apenas para a filosofia. A nossa vantagem, é que podemos tornar os outros campos ainda mais eficientes ao contribuirmos com noções de método e de epistemologia. Isso para não falar das próprias humanidades, onde sem uma noção básica de filosofia tu faz muito pouco.

  6. Moche disse:

    Quando falei em metafísica, estava falando do “além-mundo” do Nietzsche ou do negócio descolado do tempo como em Heidegger. Me parece que essa metafísica com “transcendência” se fué. Mas, claro, isso não significa jogar fora Platão, Agostinho, Aquino, Descartes e Leibniz.
    Outra coisa que acho importante é ressaltar o que é “ser útil”. A reflexão crítica pode ser “inútil”, mas está LOOOOOOOONGE de ser desnecessária. Ao contrário, ela que nos permite agir de forma menos tumultuada, apressada e muitas e muitas vezes violenta.

  7. Paulo Sergio Tometich disse:

    Olá!
    De um lado, entendo a posição de alguns em relação ao que estamos afirmando seja a inutilidade. A liberdade do pensamento implica em isenção, em autonomia, como talvez preferisse Kant, e objetivos de utilidade, em muitas situações, podem comprometer essa autonomia.
    Com relação ao abordado no artigo, essa demasiada exploração do instrumental, em detrimento da abrangência de fundamentação, em que concordo a filosofia poderia contribuir, não me parece se limitar a ciência, como pode ser entendido ao ler ao post.
    A mocinha da padaria, o pedreiro, o empresário, o caixa do mercado …, todos estão se tornando robotizados pelo sua limitação ao conhecimento instrumental e com isso limitando o campo de ação de seus conhecimentos. Mesmo quando buscam exercitar o pensamento filosófico, ou o fazem como um mero filosofar de senso comum, ou as vezes limitando a filosofia com uma abordagem historicista e o principal: dar autonomia ao pensamento (verdadeiramente pensar filosoficamente), se torna cada vez mais raro.
    Tudo o que sonhamos na modernidade, principalmente a idéia de que o homem pode ser dono do seu destino, pode se tornar uma grande ilusão, para além do que já percebemos de exagero nos ideais da época.
    Nunca as pessoas precisaram tanto de criar sentidos, pois desconstruímos muito do que elaboramos em outras épocas, a valorização da individualidade tomou proporções inimagináveis para os medievos e nos encontramos em uma encruzilhada, perdidos em um vazio sem precedentes.
    Esse vazio nos abre os portais de uma nova realidade, de um novo entendimento, no momento que permite a cada um construir suas bases. Sem pensar filosoficamente, ninguem será capaz de construir nada em termos de sentido, nesse cenário, nos tornamos robos, novamente dependentes de dogmas e de mecanismos de obediencia mais rigidos.
    Com o perdão do exagero, a duvida sobre o momento em que podemos delimitar o fim da modernidade será sanada, não com um neo-humanismo, mas com o animalismo, se estávamos certos ao afirmar que a racionalidade é que diferencia o homem, e que essa racionalidade não pode ser entendida apenas como uma capacidade automatizada de pensamento.
    Abraços

  8. Paulo Sergio Tometich disse:

    Ah! Não resisto, mais um detalhe, observaram o comentário do senhor Ferrari?
    “Filosofia não serve pra nada, e História também. Esse povo tinha que largar essas maconhices e estudar Português e Matemática, pra conseguir um emprego decente e descobrir que cabeça cheia não enche o prato”

    Pois bem, reflete exatamente o problema corrente que mencionei em meu comentário. Ou seja: por que nos é dada a opção de estudar matemática? A matemática nem existiria sem o pensamento filosófico, mas ele acredita que o conhecimento é isso: matemática e português.

    No final, acho que o ser humano atingiu um grau de soberba que culminou com a fabricação de sua caverna platonica. Esse homem, vê o conhecimento pronto, mas não entende o processo que nos levou e leva a ele, vê a sombra, não a luz.

    O senhor Ferrari não sabe provavelmente, mas prova nossas contruções, a maioria das pessoas não consegue entender nem o que a filosofia faz, quanto mais em que pode ser útil. Culpa deles? Não, não consigo me isolar assim. Culpa nossa.

    Confesso e sejamos honestos, é um saco explicar, falamos outra lingua entre filósofos e a sabedoria é tão encantadora que temos a tendência de afundarmos nela e abandonar os pensamentos cosméticos desse mundo voluptosamente agradável, que nasceu dentro da caverna ao som de funk e com a presença de Dionísio. Mas será que temos de fazer isso? Ou será que está na hora de voltarmos a frequentar as praças da Polis?

  9. Ferrari disse:

    O sr. Ferrari sabe disso, Paulo ;) Foi uma brincadeira com base no fato que qualquer rede de ensino prioriza a língua nativa (por uma questão de identidade) e a matemática (por uma questão lógica, não-crítica talvez, e operacional). E uma certadesilusão sobre o que a academia das humanas produz quase zero de impacto na vida cotidiana.

  10. Paulo Sergio tometich disse:

    Olá Ferrari, desculpe, é que a ironia não ficou clara para mim, pensando assim, quem sabe o que um pouco de Wittgeinstein não poderia fazer por nossa abordagem da língua, talvez bastasse …
    Mas talvez estejamos nos preocupando demais, essa situação torna a maioria de nos comparáveis a banco de dados, o que seria o mesmo que dizer, que substituíveis pela tecnologia.
    No lugar de usar a tecnologia para armazenar os dados estamos imitando ela e fazendo a mesma coisa, algo no mínimo intrigante e que nos permite reflexões profundas, até no campo ontológico eu diria.
    Quem sabe a necessidade de não ser substituído nos ajude a mudar essa realidade, o problema é que não é fácil sair da caverna, ainda mais com a senhora Chauí colocando a fogueira do lado de fora, como se já não tivesse luz desse lado, complicamos o simples e banalizamos o complexo.
    Já que parece gostar da ironia, somos brilhantes Ferrari.
    Abraço

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