Valores, Guerra ou Economia?

A eleição do Bush em 2000 só foi possível por que a eleição focou na questão dos valores. A discussão econômica foi importante, é claro, mas a diferença fundamental entre o Gore e o Bush, é que o Bush conseguiu se pintar como o cara que ia tirar o país da sodomia instalada na casa branca por Bill Clinton. Uma plataforma conservadora, e que defendia um Estado que falava de moral para os seus cidadãos, foi um dos principais fatores – eu diria o principal – que permitiu ao Bush perder por votos o suficientes que ele pudesse dar o golpe na contagem e assumir a presidência.

2004, no fim das contas, foi sobre a guerra. Kerry não convenceu na discussão com o Bush, e o público americano preferiu descartar questões de liberdades civis por outras questões, ligadas a segurança individual. Claro, a economia não estava tão horrível, o que pode ter ajudado um tanto.

Pois bem, e agora?

Agora, tudo que os Democratas querem é correr contra o Bush. A polêmica de hoje com o Bush descendo o ferro no Obama em Israel, é como um presente de natal para os Democratas. Tudo que eles querem, é que a discussão seja sobre diplomacia e como lidar com a política externa. É óbvio que os últimos oito anos foram desastrosos neste sentido – e não vai ser a entrevista com a Politico que vai fazer eu mudar de idéia sobre isso. Eis o que o Bush disse:

Addressing the Israeli Knesset on Thursday, Bush said: “Some seem to believe we should negotiate with terrorists and radicals, as if some ingenious argument will persuade them they have been wrong all along.

“We have heard this foolish delusion before,” he told the parliament. “As Nazi tanks crossed into Poland in 1939, an American senator declared: ‘Lord, if only I could have talked to Hitler, all of this might have been avoided.’ We have an obligation to call this what it is—the false comfort of appeasement, which has been repeatedly discredited by history.”

Com esta discussão, que era também o que tava em jogo no que postei agora a pouco, os Democratas podem facilmente demonstrar a incompetência e ignorancia dos republicanos atualmente na casa branca, e ainda por cima, podem apontar o dedo para a pipocagem do McCain nos mesmos assuntos – já que agora ele adere à este discurso da era Bush, mas até pouco tempo atrás criticava a falta de diálogo com a palestina e era contra a tortura.

No entanto, duas notícias de hoje podem dar o tom sobre questões de valores: o casamento homosexual, e a questão da liberdade da mulher sob o próprio corpo (aborto). Sem entrar em julgamento de mérito (sou a favor dos dois), esta discussão pode muito bem decidir dois ou três estados, e, portanto, a eleição.

O Obama tem conseguido se pintar como um conservador nos estados onde isto soa bem, e como um liberal, onde ser um conservador acaba contigo. Pelo que percebi até agora, ele está mais próximo, pessoalmente, dos conservadores. Só que isso não vale nada, tendo em vista que ele vota como um liberal no senado. Seria importante para o Obama ter um discurso homogêneo sobre isso, já que nas prévias democratas ele passou limpo com isso pelo simples fato de todos os candidatos estarem fazendo exatamente o mesmo. No entanto, o candidato republicano vai ter votado de forma conservadora a vida inteira, e vai poder apontar o dedo pro Obama nestas questões.

Quanto ao McCain, quanto mais ele foca na guerra e na Economia, mais ele se embanana. Mesmo a questão do straight-talking, que ele se gabava de praticar, tem sido combatida – e a campanha dele tem tido alguns problemas administrativos bem fortes, e que podem voltar para assombrar o vovô simpson, que sempre alegou ser austero e gastar pouca grana.

Ontem o McCain fez um discurso se distanciando do Bush, tentando admitir alguns erros da administração passada, e prometendo deus e sua época para toda a população americana. Se eu entendi bem, o Messias volta em 2013, e com ele chegam a prosperidade educacional, econômica e militar:

Oi, eu vou voltar e vai tudo ficar bom de novo. Os abortistas-gayistas-comunistas vão ter tudo ido para a França.

O editorial do New York Times resumiu tudo sobre o McCain:

Just talking about change is not enough. Look at the Republican Party’s witless attempt to repackage itself with a new Barack Obama-like sound bite, only to find that “The Change You Deserve” was the ad slogan for an antidepressant.

Mr. McCain’s speech highlighted some of the most egregious failures of the failed Bush presidency. But he needs to do much more to persuade the country that he has the ideas and the will to address them — and that his party, which refused to question Mr. Bush for seven long years, is really the one to change direction.

Novembro promete. Mas daí eu não vou estar tão desocupado a ponto de poder dar conta de tudo isso. Bom, tough luck.


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One Response to “Valores, Guerra ou Economia?”
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  1. […] A eleição vai ser sobre valores. Já tinha indicado isso aqui e aqui. A Palin é uma conservadora, e uma conservadora casca grossa. Daquelas que defende a […]



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