A exuberância de um debate inútil

“Advogado causa confusão ao acusar cadeirantes de serem pagos por empresa

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ciencia/fe2905200804.htm

Uma discussão acalorada entre um homem que se identificou como “advogado voluntário da frente parlamentar evangélica” e três cadeirantes movimentou a manhã em frente ao STF.

O advogado, Matheus Sathler, 24, abordou os três e os acusou de estarem sendo financiados por uma multinacional com interesses na Lei de Biossegurança. Nesse momento, tirou do bolso a carteira e ofereceu dinheiro.

Sathler chamou os cadeirantes para irem a igrejas evangélicas, onde seriam “curados” e poderiam voltar a andar. “Queremos todos vocês lá, homossexuais também. Quem for excluído [pode ir], negro, somos contra discriminação. Prostitutas e travestis também. E vai sair falando grosso”, disse.

Um dos cadeirantes, Luís Maurício dos Santos, 41, disse ter achado a manifestação “um preconceito total”. “Já fui várias vezes convidado a ir a igrejas evangélicas. Fui e continuo na cadeira.””

Eu deveria escrever algo sobre isso. Minha dissertação foi sobre este assunto. Mas a verdade é que é muito frustrante passar dois anos escrevendo sobre o assunto, e ver o debate de nível duvidoso no STF. Lobby de um lado, obscurantismo de um outro. De um lado, um monte de promessa feita de pontenciais de cura que ninguém sabe bem se existe, de outro, uma confusão generalizada sobre o tal do status de pessoa do embrião.

É frustrante, porque o que temos são promessas de possíveis avanços em tratamentos, que devem ser buscados, e são legítimos. Mas o que está sendo vendido é que paralisados voltem a caminhar, que problemas neurológicos possam ser curados definitivamente, e este tipo de coisa. O que eu gostaria de saber é se haveria tanto apoio para estas medidas se elas fossem divulgadas pelo que elas são: investigações que podem dar errado.

Sou a favor da pesquisa com células tronco, mas também reconheço que existem problemas de risco nestas pesquisas – problemas estes que não estão sendo controlados de forma apropriada. Quem se expor aos testes vai aderir ao quê? À toda expectativa criada pela imprensa, ou ao Consentimento Informado dado pelos pesquisadores?

O formato e qualidade deste debate expoem de forma dramática o quanto somos imaturos na discussão pública. Rapidamente nos dividimos em times, gente com camisa com “eu quero viver” ou coisa parecida de um lado, de outro, gente com “não matem criancinhas”. Ambos os lados massa de manobra para grupos com interesses próprios.

Existem, é claro, fatos científicos. Penicilina trata infecções bacteriais. Isso é um fato, independente da tua interpretação. No entanto, como esta infeção é percebida enquanto doença, são outros quinhentos. O que um paciente espera de um tratamento é geralmente mais do que o tratamento pode dar para ele, mas vendemos com esta terapia genética um produto que ainda nem sabemos bem qual é.

Temos diversas vantagens factuais na liberação desta pesquisa. E já disse: sou favorável. Não seria favorável ao DGPI, ou Diagnóstico Geral de Pré-Implementação de Embriões, ou melhor, seria favorável em um nível muito controlado. Mas não gosto do fundo eugênico deste discurso, acho que fala muito mal da gente este horror ao feio, ao doente, ao diferente.

A gente sempre tá surfando naquela ladeira escorregadia, o problema neste caso da pesquisa genética, é como tu arruma a bagunça, depois que um bando de gente foi iludida a pensar que esta decisão do STF ia mudar a vida deles? E se não mudar? E se der tudo errado? Eu sou a favor de liberar a pesquisa, mesmo que não dê em nada, porque isso é da natureza do processo de investigação científica.

Agora, explica isso para o bando de gente que tá lá esperando curas milagrosas.


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Comments
6 Responses to “A exuberância de um debate inútil”
  1. Lucinha disse:

    Eu fiquei muito revoltada quando assisti a votação na tv. Colocaram os pesquisadores como os messias do século XXI, embora estes tenham frisado o tempo todo: “são PESQUISAS”. O problema é que ficou tipo time de futebol, como se a pessoa tivesse um ‘lado’ pra defender. Eu não duvido que se encontre cura pro diabetes dentro de 15 a 25 anos, mas DUVIDO que as indústrias farmacêuticas deixem passar. E isso nada tem a ver com as pesquisas. Para as pessoas que esperam qualquer possibilidade de cura, esta é apenas a primeira pedra no sapato, e ainda tem neguinho mandando travesti ir se curar em igreja evangélica.

  2. Ferrari disse:

    Ôpa, tão curando travestis? Beleza, tô dentro!

    Concordo com a patroa (e o patrão), acho que a questão não é liberar ou não as pesquisas, e sim com quais interesses elas serão feitas.

  3. paulo disse:

    bem escrito

  4. Moche disse:

    Me surpreende a superficialidade do tratamento da imprensa no tema da bioética, de um lado (esse tema foi SOLENEMENTE ignorado), e o quanto cientistas podem ser marqueteiros (e até estelionatários), de outro.

    No mais, o que os cientistas querem com a liberdade absoluta é a mesma coisa que o empresário ricaço quer com uma diminuição de impostos (liberdade econômica): abusar à vontade.

  5. Lúcia disse:

    Cientista marqueteiro?
    Não vi pesquisador nenhum fazer marketing, nem a Zatz aquela, que adora aparecer na tv. Todos disseram que era pesquisa, e isso foi totalmente distorcido na televisão. A ciência não é boa ou má, o que se faz com as informações dela, que constituem sim, um abuso.
    Se voltarmos no tempo, vamos lembrar que a massa achava abuso dos médicos tomar vacina. Enquanto isso o tempo passa, e eu continuo achando abuso igrja evangélica dizer que homossexualismo tem cura.

  6. Marcelo disse:

    Qual o problema de empresário ricaço querer isenção de impostos? Tu gosta de pagar pro governo te impedir de trabalhar?

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