Fora do mundo

Uma coisa a gente tem que reconhecer sobre o doutorado.

Ele te consome. Não que teu tempo seja todo dedicado ao doutorado – longe disso; mas algumas coisas adquirem nova perspectiva. Crise econômica? Quem se importa, o Dewey tem uma noção fantástica de mundaneidade que pode ser compatível com as teses do Heidegger sobre a metafísica! Debates políticos? Spinoza não é onto-teo-logia, que se dane o Obama! Desastres ecológicos? Ora bolotas, eu tenho um capítulo inteiro do Merleau-Ponty para fichar para semana que vem!

E daí tu volta para artigos antigos, inclusive o (único) que tu gosta, e tu pensa: engraçado, derrepente eu odeio este artigo. 

Andei relando tudo que produzi até agora. Exceto os dois projetos em andamento no Heideggeriana, acho tudo um lixo. Inclusive o artigo sobre relativismo, que tem uma boa idéia, mas tá mal fundamentado. Não tenho nem idéia se isso é normal. Também não sei se é normal o fato de eu me irritar com o Dewey porque eu acho ele injusto com os modernos, os medievais e com os clássicos. Não sei se fico apavorado com o fato de hoje eu ter pego um volume da metafísica do Aristóteles numa mão, e a crítica do Heidegger na outra, e ter ficado “hmn, isso me vai ser útil”.

Minhas opções de trabalho, até agora, para este semestre, são todas fora da minha linha clássica. Meu autor preferido neste momento é um monista, e eu tenho olhado para Hegel com diferentes olhos. Falaram mal do Kant em aula semana passada e eu tive que me segurar para não pular no pescoço do infeliz gritando “isso é a tua interpretação sifílica, seu merda!”. Quem já falou comigo mais que cinco minutos sabe que as minhas opiniões sobre o modernismo geralmente envolvem uma série de palavrões inomináveis seguido de um “era gente sem alma” e um tique-nervoso de um homem a beira de um colapso.

Agora? Entre outras coisas, tenho achado o idealismo uma idéia factível. Spinoza maior que Hegel, que, por sua vez, pode ou não pode ter sido maior que Heidegger. Minha cabeça tá cheia de possibilidades de trabalho com Merleau-Ponty na filosofia política e eu olho para meu projeto de tese e tenho vontade de me jogar pela janela do Faner. Fiquem tranquilos. O Faner é projetado de forma que é IMPOSSÍVEL alguém se jogar pela janela – sério, isso foi de propósito

Ninguém é maior que Kant.

Estava lendo o Profanações, do Agamben, agora a pouco. Retirei na biblioteca hoje, junto com o livro do Benjamin sobre Baudelaire – que o Foucault copiou no “O que é esclarescimento”. Os dois livros tem em comum uma certa obcessão com o tema da salvação – redenção. O velho Šaʾul HaTarsi, vulgo Saul, é o fantasma dos dois messianistas in-charge. O outro profeta do juízo-final, que deu origem ao maior culto apocalíptico do século XX, também aparece. Até agora, me parece perigosamente próximo do tipo de bobagem que o Toni Negri anda escrevendo; mas, ainda é cedo para julgar, e eu tenho uma certa tolerância com o Agamben – porque, ao contrário dos contemporâneos dele, ele leva filosofia à sério. Talvez à sério demais, mas daí é outra discussão.

Enfim, eu não devia estar lendo Agamben, devia estar lendo Dewey. Mas se serve de consolo, eu preciso elaborar um artigo, e esta gente toda vai entrar no balaio.

E com isso, eu devo admitir minha desistência de manter isso como um blog pessoal a-pessoal.

Comments
4 Responses to “Fora do mundo”
  1. Moche disse:

    Bueno, sei lá por onde andam teus pensamentos, mas eu achei DUCARALHO “Profanações”, apesar de ser um tanto quanto reticente com retóricas “anticapitalistas”. Mas, no caso do Agamben, achei EXTREMAMENTE interessante, especialmente o último ensaio, em que ele ressalta a capacidade do capitalismo de absorver as suas profanações. Sei lá, para mim tem tudo a ver com profanar um “68” já complementamente transformado em “fake plastic” pela sociedade do consumo.

    Ãh? Sociedade do consumo? Isso existe? …..

  2. Ainda nao tenho opiniao formada sobre o Profanações, mal comecei a ler o troço.

    Na real, ando totalmente desmotivado com este debate sobre 68. Acho inútil. :D

    na real, na real MESMO, eu quero é fazer um sanduba de presunto e queijo aqui. e depois ler spinoza.

    a filosofia ficou desinteressante depois de Kant. (eu culpo o Hegel :P)

  3. Panorama of Endtimes disse:

    quer saber? todas as lições de vida, e tudo o que vcs precisam saber já foi pensado pelo batman. e ele sabe que vcs sabem

  4. Ferrari disse:

    Ou não. Não leu “Crise de Identidade”?

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