Notas sobre uma epifania

Título alternativo, Nick Cave and The Bad Seeds @ Riviera Theatre, Chicago. 28/09/2008.

Quando foi anunciada a tour dos Bad Seeds pelos Estados Unidos eu e a tati imediatamente surtamos. Havia a possibilidade – alta – da gente não poder ir no show. Era um domingo, poderíamos ter aula segunda, aquela coisa toda. Vimos o horário do show. Chegamos à seguinte conclusão: dá para ir, nem que seja de carro. Vamos para chicago, voltamos de madrugada, e pronto.

Compramos o ingresso. No segundo dia de vendas. General admission.

Desde então, estávamos ansiosos. Contando os dias. Percebam, uma coisa é ter o tipo de relação (quase religiosa) que a gente tem com música; mas os Bad Seeds são, tipo, a nossa banda. No sentido que é uma das poucas coisas que eu e a Tatiana tendemos a concordar integralmente em termos musicais. 

(mentira, o album preferido dela é o Boatman Call, o meu é o No More Shall We Part em um empate técnico com o Abbatoir Blues; eu não conseguiria dizer minha música preferida nem se pudesse escolher cinco, a tati fica entre Ship song e Into my arms)

Mas a gente concorda que é uma baita banda. E concordamos que é uma banda que colocaríamos entre as nossas favoritas. E vejam bem, entre um universo de literalmente milhares  de referências, Nick Cave entra no top dez tanto meu, quanto da Tati.

Dito isto, às circunstâncias:

Ficamos no Palmer House Hilton, em Chicago. Não me perguntem como. Agradeço todo dia a quem quer que seja que inventou a Expedia e à perspicácia da Tati, que inticou de ver o sáite antes de nos rendermos à alternativa

Chegamos sábado em Chicago, num estado de nervos lamentável. Viagem de seis horas de trem, cruzando as pradarias de Illinois até chegar na civilização. Toda vez que desembarco em Chicago percebo que sinto falta da poluição, do barulho de carro e da multidão. De não ter que dizer oi para todo mundo na rua, nem de ficar procurando rostos conhecidos. Esta vida de interior me agrada, até eu lembrar que existe um lugar místico chamado “cidade grande” onde tudo acontece. 

Domingo era o dia do show. Pela manhã, fomos no Museum of Arts de Chicago. Recomendo fortemente. Pulem a parte de arte e contemporânea, por deus. Eu juro que tem um quadro que consiste em uma base branca com uma moldura amarela em volta. É isso. Fim. Uma coisa deplorável. Sem falar no Pollock, na porcalhada do Warhol, enfim, coisa de publicitário. (agkasgkja) . A parte de arte medieval, a parte de arquitetura e as fotografias me deixaram meio transtornado, mas tive uma experiência quase mística diante dos retratos dos Médicis, tudo com cara de parente (A/C Fernando Ferrari) . Eles tem uma coleção de relíquias religiosas da idade média alta e baixa que me lembraram Baudolino. Tem também uma parte de expressionismo e impressionismo bem legal, enfim, vale a visita, mas perdemos quatro horas na brincadeira, e no fim eu tava nas ganas de matar o primeiro artista que aparecesse na minha frente.

O show começaria às oito horas, com a banda de abertura, Black Diamond Heavies. Cinco e pouco pegamos o metrô, quase seis horas chegamos na estação de destino, onde víamos, pela janela, o Teatro

Caminhamos, quase não pegamos fila.

O show de abertura, começou exatamente às oito horas. Estávamos, então, na quarta fila de pessoas alinhadas para ver o show. A Tati começou um processo de camperice que eu tinha apenas testemunhado em ônibus lotado às seis da tarde saindo da PUC e no shopping na véspera de natal. Antes da quarta música da banda de abertura – excelente, por sinal; a tati tava na segunda fileira. Eu preferi me manter no meu posto, na terceira. 

O público lotou o teatro, do tamanho do opinião, (talvez até menor) e era muito bacana. Na real, foi o primeiro público nos estados unidos que não se encaixou em uma das seguintes categorias:

a) Cuzão (Radiohead)

b) Poser (Nine Inch Nails)

c) Mimado (Robert Plant/Bob Dylan)

Era um público de fãs da banda, gente que conhecida todas as músicas, que tinha noção de quem tocava qual instrumento, e do que esperar. Por deus, tinha um cara que tinha visto Morphine em 1998!, isso é o tipo de informação que ganha meu respeito. 

Night of the lotus eaters abriu o show. Confesso, fiquei preocupado. Mick Harvey tocando bateria (!!!), enquanto o Wydler tocava, sei lá, bongôs. Achei que eles tavam meio sem-ritmo, a voz do Nick Cave tava meio faiada, isso até a segunda parte, quando parece que eles se acertaram, e o Nick Cave fez a primeira menção “ao cara de chapéu” na primeira fila. Com isso, a pancadaria seguiu com Dig lazarus dig, quando eu tive a nítida impressão que o Warren Ellis ia ter uma síncope etílica e cair morto no palco. Por sinal, o Warren Ellis parece um pirata

Tupelo seguiu o estrago, “a song about a storm”, disse o profeta. E os tiozões (média de idade da banda tá na base dos 50) fizeram um barulho do inferno, que bota qualquer, eu disse qualquer, bandinha de “post-rock” metida a besta no chinelo. Claro, alguém poderia argumentar que com dois bateristas, eles tem a obrigação de fazer um bocado de barulho. Hei de concordar.

Depois encaixaram Today’s lesson com o Nick Cave tocando o moog, o Warren tocando algo que podia ou não podia ser uma mini-guitarra, e o Conway sentado no piano fazendo nada, coisa que ele fez durante boa parte do show. Por sinal, é um mistério o que o Conway tá fazendo nesta encarnação dos Bad Seeds, já que nas músicas que o piano aparece atrás da camada de barulho ou o Nick Cave ou o Mick Harvey tão tocando. Mas vá-lá. Ele tava encarregado da bebida, vai ver é isso, numa banda de sete malucos isso não é uma missão pequena.  Durante Today’s Lesson o Nick Cave apontou para a Tatiana, diretamente, e ela desintegrou por cerca de dois segundos, até que magicamente e inexplicavelmente ela se re-materializou. Eu culpo a inversão da dialética por parte de Marx.

Red Right Hand seguiu, e eu posso ou não posso estar enganado, mas eu acho que foi uma das músicas que o Nick Cave tocou guitarra (ele é canhoto, diga-se de passagem), a barulheira foi insana. No fim da música alguém caiu na asneira de gritar “Play O’Mailley’s bar” ou algo assim, ao que o Nick Cave respondeu “Please, we play we do whatever we like, except stand still with dignity”, e encaixou “let’s try The weeping song”, e foi a minha vez de desintegrar, considerando-se que, bem, Weeping song deve ser a única música do Nick Cave que não é o Nick Cave que faz o vocal principal na versão de disco – é o Blixa – e o Blixa é o único Bad Seed digno de nota que não tá mais na banda. Devo dizer que ficou foda. Isso que nem é uma música que eu gosto lá muito.

Midnight man foi a próxima música, onde comecei a notar que o Mick Harvey olhava para a mesa de som com cara de “eu vou te matar”. O Mick Harvey, obviamente, é o dono da banda. O Nick Cave só canta e engana nos instrumentos. A banda é do Mick Harvey. Então, imaginem a felicidade do homem quando ele percebeu que o retorno do instrumento dele, bem, não tava dando retorno. 

Ao final de Midnight Man, a banda fez uma pequena assembléia, e ficaram no palco o Nick Cave (piano), o Warren Ellis (violino), o Jim (bateria) e o Martin (baixo), e eles tocaram, tenho quase certeza que de improviso,  Love Letter. Antes do início da música, o Nick Cave deu uma puteada linda no cara da mesa de som, dizendo para botar o piano mais alto – “it must read “NICK” or “CONWAY” in REALLY BIG LETTERS”, disse o profeta.  A versão ficou muito boa, mas não combinou muito com o clima de apocalipse nuclear do show. Enquanto isso, os roadies estavam entertidos tentando arrumar algumas coisas no palco.  

A banda se re-colocou no palco, e Hold on to yourself seguiu, com o Mick Harvey tocando teclado, esta informação não é irrelevante, percebam. A versão ficou mais pesada que a do album, e mais uma vez eu temi pela possibilidade do Warren Ellis desabar no palco enquanto gritava “argh, me pots of golds! me pots of gold!”.

Para emoção geral, Mr. Cave ao final desta música anuncia “This is a song about a guy who dies in an eletric chair”, seguido de um “YEAH!” da platéia. O “Yeah”, no caso, iniciou um pequeno monólogo por parte do Cave sobre capital punishment, mas completamente sem sentido, alguém gritou “well, but he wasn’t the right guy”, ao que o Nick responde “wasn’t him? Well, fuck him!”. E daí a banda começou a tocar. Mas a guitarra do Mick Harvey continuava sem funcionar. Depois de quatro tentantivas de início, e uma piada “hey, you guys heard that one about the guy who dies in an eletric chair?”, a guitarra do Mick começa a funcionar, e inicia-se a música.

Pelo segundo compasso, quando entra a distorção da outra guitarra, eu vejo o Warren Ellis se movendo de forma bizarra na direção da mesa de som, certamente falando algo como “ay, me guitar ain’t workin’, me gonna rip ya guts of”yer body, argh!”. Diante da obvia inoperância do instrumento do Ellis, o Nick Cave improvisou as distorções da guitarra no moog dele, enquanto o Warren ameaçava jogar o instrumento dele para a platéia e o Mick Harvey continuava com a expressão de um homem prestes a matar alguém.

De qualquer forma, a versão improvisada ficou genial.  Mas novamente, resolveram fazer uma pequena assembléia, Nick, Mick e Ellis, enquanto o Conway já saia da frente do piano. Nick então tocou Into my arms, e a Tatiana teve um colapso nervoso por seis minutos.

Deanna seguiu, para surpresa geral, uma versão setenta vezes mais pesada que a do album, só para deixar bem claro que todos instrumentos tavam funcionando. Depois foi Moonland, do album novo, que seguiu a barulheira “a song abouth a guy that goes places”. Quando eu achei que não havia a menor possibilidade de eu ser surpreendido – porra, eles tinham tocado Weeping song! -, eis que Hard on for love, do Your Funeral/My Trial, começa a tocar. Todo mundo na banda parece tá se divertindo ensandecidamente tocando as músicas da década de oitenta, por sinal.

“This song is the answer for all your questions”, diz o Nick, antes de iniciarem uma versão Rockabilly satânica de We call upon the author, que prá mim é a pior música do album novo. Ficou muito melhor ao vivo, parece que faz mais sentido.

Nisso, a Tati olha para mim com uma cara estranha quando ouvimos os primeiros acordes de Papa won’t leave you Henry, certamente uma das músicas, junto com Weeping Song, que eu era capaz de apostar que não tocariam. Para mim, foi o ponto alto da noite. Foi também a última música antes do Encore. 

Cinco minutos depois, os sete tiozões voltam para o palco, e um monte de gente começa a pedir música. Especialmente uma menina na primeira fila, Nick Cave chega perto dela “What?”, “oh no, that’s too hard”, “hmn?”, “oh, ok”, “hmn”, “that’s for you, but’ll need audience participation”, nisso ele passa cinco minutos treinando os backing vocals de Lyre of Orpheus com a audiência, e a banda começa a execução da cousa.

Sou parte suspeita. Mas ficou foda. Nisso, o Cave, do alto do seu cavanhaque altamente Ronni Vonnish pergunta “ARE YOU READY?”, e uma onda de barulho percorre o teatro antes do acorde incial de  Get ready for love fazer todo o pessoal ao meu redor (eu incluso) pular feito um bando de criança. Stagger Lee, do Murder Ballads, terminou o show.

o Set List foi:

01 Night of the lotus eaters 
02 Dig lazarus dig 
03 Tupelo 
04 Today’s lesson 
05 Red Right Hand 
06 The weeping song 
07 Midnight man 
08 Love Letter 
09 Hold on to yourself 
10 The mercy seat 
11 Into my arms 
12 Deanna 
13 Moonland 
14 Hard on for love 
15 We call upon the author 
16 Papa won’t leave you Henry 
===== 
17 Lyre of Orpheus 
18 Get ready for love 

19 Stagger Lee 

Resumindo:

Foi o melhor show de uma banda de rock que eu já assisti. De longe. Foi o mais divertido. Até os problemas com a mesa de som ajudaram na experiência de ver estes caras improvisando. Os Bad Seeds são a melhor banda que eu já vi ao vivo, o entrosamento dos caras é absurdo, são sete malucos no palco, e tu vê que os caras sabem exatamente o que o outro tá para fazer durante a performance. (também, se tu for parar para pensar que tem gente nesta banda que tá tocando junto tem 20 anos, no caso do Nick Cave e do Mick Harvey, 30 anos…)

Também é sensacional ver uma banda no auge quando os caras tão com 50 anos de idade, ainda mais agora, quando o tempo médio de meia-vida de uma banda é 5 anos, e o auge do artista é com 24 anos – antes da MTV descobrir the next thing, ou o i-tunes/last-fm te recomendar um artista “similar”.

Eu só lamneto não termos conseguido assistir o show de hoje, também. De qualquer forma, foi sensacional, valeu muito a pena. Espero poder ver estes caras de novo antes de voltar.

Comments
One Response to “Notas sobre uma epifania”
  1. Ferrari disse:

    Alguns pensamentos que me ocorreram:
    – Inveja profunda; não que eu seja um grande fã de Niccolo da Caverna, mas acho que o show dos caras deva ser foda mesmo;
    – Comprou o meu papo que o Andy Warhol é um publicitário e não um artista, é? ;D
    – Nem me fala em Idade Média; estou próximo a fazer uma Cruzada/saque ao PPG por terem liberado o edital TRÊS SEMANAS antes do prazo de inscrição, e com 7 livros diferentes do ano passado (vou ter que ler 4 em 3 semanas);
    – Ninguém me convence que o Warren Ellis do Seeds não é o mesmo quadrinista, imagino quantos Warren Ellis existem no mundo;
    – A observação do Nick Cave que tocariam o que estivessem afim foi igual à uma do Wander Wilder em um show no Ocidente; o que imediatamente me fez pensar que os dois são iguais (menos os dentes). Doravante, sempre que vir/ouvir um deles vou lembrar de outro.

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