O que significa uma eleição?

Uma eleição não significa, a princípio, coisa alguma.

O que significaram as últimas eleições municipais no Brasil? Ou as eleições de 2004 aqui nos Estados Unidos? Em uma democracia, principalmente democracias maduras, uma eleição é um evento normal, uma coisa que acontece de tempos em tempos, e na qual tu julga um projeto, substitui por outro, avalia possibilidades. De certa forma, tu estares meio no automático com relação à uma eleição pode ser mais um sinal de maturidade política. Eleições conturbadas são coisas de países em crise.

Tu pode estar de saco cheio com as possibilidades, é verdade. Achar que tem pouca diferença, pouca opção, pouca relevância. Tu pode te empolgar, te envolver, seguir números, dados, entrevistas. Mas isso tudo é escolha.

2000 foi uma campanha significativa aqui nos Estados Unidos no pior sentido possível. Foi significativa porque dois candidatos que não empolgaram o público disputaram, pouca gente votou, muita gente votou no Nader – até como protesto. Na Florida, houve uma baderna. A eleição é significativa por ter sido atípica, no sentido que a gente pensa em uma eleição, digamos, no Irã ou na Venezuela. Uma coisa estranha. O presidente eleito, o filho de um ex-presidente, com diploma comprado em Yale, um guri criado com dinheiro do petróleo e convivendo com as maiores figuras da época dele. Enfim, um playboy que tirou a sorte grande. Também era um cara que acreditava em Destino-com-dê-maiúsculo, e via o mundo em escala de cor cinza.

Em 2004 houve uma campanha normal, um referendo sobre uma política de segurança, onde os americanos optaram claramente por um projeto de proteção e ataque. De preemptividade. Foi uma opção desastrada. O custo político-econômico, e eu diria mesmo moral, desta opção vai demorar muito para ser resolvido. O país que inventou a democracia moderna parecia se desinventar diante de todos.

2008 pode ser lido como um referendo sobre o Governo Bush. Neste sentido, é uma eleição normal. É normal o outro partido ganhar. É normal existir uma rejeição do projeto anterior, de um governo que falhou em todas as suas promessas. As pessoas foram votar, enfrentaram filas, e comemoraram uma vitória. Tudo normal, se tu pensar na eleição de um presidente da república.

Corta para 1968.

em 1968, Martin Luther King havia sido assassinado, Bob Kennedy – que teria se tornado presidente – também, o sul pegava fogo. George Wallace, o governador segregacionista do Alabama, simpático à KKK, concorria com Curtis LeMay na chapa como vice, que havia mandado bombardear hiroshima e tinha aconselhado o presidente Kennedy a entrar em guerra com a Russia em 1964 durante a crise dos mísseis. Esta chapa ganhou o sul. Massivamente. Dez milhões de pessoas votaram nessa gente. Outras 31 milhões elegeram Richard Nixon presidente. O nome desta eleição é “Revolução Conservadora”.

Essa foto diz algumas coisas:

Memphis, 1968. Corpo de Martin Luther King no chão, um tiro na cabeça. Na ponta esquerda, Jesse Jackson aponta pro lugar da onde eles ouviram o tiro. Dr. King foi para um hotel de beira de estrada, depois de receber críticas por estar em um hotel “de rico”.

Chicago, 2008 – Jesse Jackson, ontem, no Grant Park  no meio da multidão, como um civil, ouvindo Barack Obama discursar pela primeira vez como presidente dos Estados Unidos.

O que aconteceu ontem nos Estados Unidos, enquanto uma eleição, foi um evento comum. O candidato da oposição ganhou diante de um adversário enfraquecido, com uma chapa fraca, e um partido desmontado. Enquanto evento cultural, é muito difícil falar de ontem.

Pensem o seguinte: Um negro chamado Barack Hussein Obama foi eleito presidente pela maior parte da população dos estados de Virginia, North Carolina e Indiana. Virginia era a capital da confederação. North Carolina teve uma das repressões mais brutais aos negros durante os direitos civis. Indiana só votou em democratas tres vezes na história dos Estados Unidos. Nenhum – NENHUM – destes Estados apoiou Lincoln.

Que o Obama fosse ganhar esta eleição era natural, que ele ganhasse Colorado e Novo México, junto com Pennysilvania e garantindo Iowa levasse a eleição, de forma apertada, seria até normal. Mas o mandato que o Obama ganhou ontem é impressionante, e vai muito além de uma “eleição”.

Repito: o evento de ontem foi cultural, esta é a parte notável do que aconteceu. . E a normalidade como tudo seguiu. A lição que os Estados Unidos deu ontem é memorável – e talvez ela signifique mais internamente do que externamente. Tennessee rejeitou Obama por razões que até as paredes do Opry de Nashville conhecem, e este estado também será governado, e terá que olhar para seus vizinhos em Indiana e perceber que eles viram alguam coisa que eles não forem capazes de fazer.

O Obama vai errar. Vai decepcionar muita gente por ser um presidente centrista. Nada disso importa agora, isso é matéria de eleição – é uma coisa normal. Não tem nada de normal na capital da confederação, no estado históricamente mais comprometido com a escravidão, que este Estado vote em um Negro para presidente. Isso extrapola uma eleição, isso é o que se convencionou chamar de revolução.

É um termo fora de moda, meio perigoso este. Mas não tem outro termo para usar. Não é uma revolução política, isso é bobagem, não foi isso que aconteceu ontem. O Obama, enquanto democrata, é um democrata convencional, talvez mais durão na hora de falar de política externa – e é com certeza o político mais calmo que eu já vi. A revolução na cultura, na auto-compreensão do Americano, depois desta eleição é algo que vai ter que ser estudado.

Pensa agora nos negros em South Carolina, em Georgia, em Lousiana,em Arkansas. Olhar para o retrato do presidente e ver um cara parecido contigo, que 45 anos atrás não poderia andar no mesmo lugar que um branco em um Ônibus Greyhound no Alabama. Esta compreensão de futuro possível, de que tanta coisa possa mudar positivamente em 40 anos – e de que lugares como Indiana e Virginia podem mudar tão profundamente a ponto de elegerem um negro. Hoje, nada nos impede de pensar em um governador negro em Georgia. Em um presidente latino de Colorado. Em um país com a história de conflito racial, de paranóia etnica e homogenia, como os Estados Unidos tem, esta possibilidade é uma revolução.

Sem sacanagem, é um privilégio poder acompanhar isso de perto. Os americanos, hoje, são uma sociedade diferente que eles eram ontem. Estes vão ser quatro anos sensacionais de acompanhar, para bem ou para o mal.

Comments
3 Responses to “O que significa uma eleição?”
  1. Moche disse:

    Para mim a questão vai muito além da questão racial (se a coisa tivesse sido colocada nesses termos, e jamais foi, Obama teria perdido certamente): é a derrocada do neoconservadorismo e uma espécie de volta à “América” dos “pais fundadores” (tudo que o velho Rorty sempre sonhou – infelizmente morreu antes de ver). Parece que Obama está preocupado em transformar os EUA menos do país que Chomsky não cansa de denunciar e mais em um lugar para os seus jovens se orgulharem como algo aberto, democrático, livre, de baixo para cima, etc.

  2. allana disse:

    ato de eleger

  3. Fernando Ferrari disse:

    E na mesma linha: Coitado – aquele que sofreu o coito
    Democracia – poder do demo

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