“Toda alienação é um esquecimento”

Esta frase do título é do nosso amigo comuna Walter Valdevino, digo, Horkheimer.

Aqui na biblioteca da SIU, enquanto eu tento derivar motivação para leitura do eu-puro-transcendental, eu adquiro toda uma nova admiração por pessoas como Karl Marx que tiveram a disciplina de ficar estudando até se tornarem verdadeiros psicóticos. Eu admiro profundamente isso, eu invejo isso.

Hoje eu sonhei com os conceitos de protensão e retensão em Husserl e Merleau-Ponty. Detalhe: eu sonhei que estava na biblioteca, lendo sobre isso. E que eu não conseguia desenvolver uma idéia. Eu continuo trabalhando, até dormindo. Isso deve significar, é claro, que eu estou no caminho certo para me igualar aos que, em tributo às humanas, deram sua sanidade mental.

Eu preciso admitir uma coisa. Eu achava que fenomenologia era meu campo, eu pensava que entendia alguma coisa – alguma coisinha – sobre o assunto. Eu não sabia nada de nada. O rigor do Husserl é um exercício que te torna mais humilde, que joga na tua cara o quanto tu é burro, incapaz e precisa te dedicar mais.

Acima de tudo, eu tenho adquirido um respeito enorme por esta gente justamente por causa do rigor. Lendo Husserl, eu não encontro um chute, um apelo para alguma noção comovente para comprar a simpatia do leitor, nada. É conteúdo, e toma conceito, toma conceito, leva conceito. Não entendeu, relê, seu infeliz!

Ah sim, dia desses eu me perguntava se eu me tornei um analfabeto. Explico: A definição de analfabeto funcional é ser capaz de ler um texto, mas não ser capaz de entender o que está escrito naquele texto. Pois bem,

In all uses of the word sens, we find the same fundamental  notion of being oriented or polarized in the direction of what he is not, and thus we are always brought back to a conception of the subject as ek-stase, and to a relationship of active transcendence between the subject and the world. The world is inseparable from the subject, but from a subject which is nothing but a project of the world, and the subject is inseparable from the world, but from a world which the subject itself projects. The subject is a being-in-the-world and the world remains ´subjective´ since its texture and articulations are traced out by the subject’s movement of transcendence. Hence we discovered, with the world as a cradle of meanings, sense of all senses, and ground of all thinking, how to leave behind the dilemma of realism and idealism, contingency and absolute reason, non-sense and sense. The world as we have tried to show it, as standing on the horizon of our life as the primordial unity of all experiences, and one goal of our projects, is no longer the visible unfolding of a constituting Thought, not a chance conglomeration of parts, nor, of course, the working of a controlling Thought on an indifferent matter, but the native abode of all rationality.

Pois bem, só nesta passagem eu consegui encontrar pelo menos cinco conceitos fundamentais que o Merleau-Ponty desenvolve, ou pega emprestado do Husserl – sem falar do Heidegger. Vambora: Ser-no-mundo; Sentido; Transcendencia; Subjetividade; ek-stasis; e, vamos lá, Pensamento.

Daí, subjetividade é temporalidade encarnada, o sujeito é a in-corpo-ração do tempo. Depois, o invisivel (pensamento) pega o visivel (objetos) para falar sobre condições de verdade, mas isso tudo tá dentro de um campo de futebol que tu vai chamar de ek-stasis (que, por sinal, é a concepção de transcedência aqui). Mas não é só isso, se eu escrever isso na minha prova, meu orientador vai RISCAR TUDO e dizer que tá TUDO ERRADO. Porque a forma que está fraseado, que está construído, não avança o argumento, não demonstra o método em jogo.

Ontem eu ouvi algo que eu acho que eu tava esperando para ouvir desde que cheguei na filosofia: estávamos discutindo a concepção de tempo do Merleau-Ponty, na possibilidade do futuro poder revelar alguma coisa no presente. Eu trouxe a possibilidade do Merleau-Ponty estar lidando com metáforas, em um sentido metafórico para este “ponto de vista do futuro”. A resposta do meu orientador foi fantástica: não importa se é uma metáfora, precisa fazer sentido. O autor não pode jogar isso no nosso colo, dizer “é uma metáfora” e esperar que a gente responda “ahhh bom”, se o ponto de vista do futuro, metaforicamente, precisa ser pensado a partir do presente, ele não é um ponto de vista do futuro, e a metáfora não faz sentido algum, e não ajuda a esclarescer a dimensão de tempo do autor. A passagem era essa:

(…) the fresh present is the passage of future to present, and of former present to past, and when time begins to move, it moves throughout its whole length.

Em compensação, esta definição de tempo:

Time is not a line, but a network of intentionalities.

Junto com a noção que a retensão não é intencional, levou a seguinte conclusão (minha):

Retenção não é parte do tempo-vivido.

Em síntese:

Depois de seis meses estudando isso, eu não tenho nem idéia do que eu tô fazendo. Eu simplesmente estou fazendo coisas e trabalhando com conceitos, eu finalmente entendo o trabalho dos monges franciscanos, copiando textos, quase que não reflexivamente, simplesmente repetindo noções e incorporando (hehe) tudo automáticamente. É um exercício de humildade.

E também te ensina que tu precisa odiar uma coisa profundamente para conseguir compreender ela.

Comments
2 Responses to ““Toda alienação é um esquecimento””
  1. Renata disse:

    desculpa… eu to bege comigo…
    eu li “toda ALIMENTAÇÃO é um esquecimento”, e fiquei alguns segundos tentando relacionar uma coisa com a outra…
    ai, ai, ai, a tinta do cabelo…

  2. em tempo, o IP 41.210.242.68, que estava storming este post, acabou de ser marcado como SPAM.

    Sorry, better luck next time.

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