Equivalências morais?

Uma cena, fantástica, do Munique, consiste na então primeira ministra israelense falando, após ordenar a saída dos grupos de extermínio que vão caçar quem levou os ataques de Munique para frente, dizendo “Agora eu sei como Eichmann se sentiu”.

Claro, Golda Meir nunca disse isso de verdade. Tony Kushner, que escreveu o roteiro de Munique, colocou esta frase na boca dela. É uma frase fantástica, porque trabalha com a questão da equivalência moral, e dos dilemas morais que certas decisões nos colocam.

O conflito de hoje ainda é uma continuação daquela história, ainda é uma continuação de uma série de opções desastradas, que começam com a inserção do estado de israel em um lugar onde ele estava cercado de inimigos, de estados que não reconhecem o direito de Israel existir – com ou sem um estado palestino, diga-se de passagem.

Não se pode falar deste conflito sem falar no desconforto que a chamada questão judaica sempre trouxe ao ocidente. Existe uma idéia persistente, especialmente pela esquerda, que judeu é um problema. Israel, então, é uma concessão. Os estados hostis ao redor de Israel simplesmente reagem, quase que naturalmente ao problema judaico.

Adotando-se a perspectiva isralense, é uma situação muito complicada esta. A persistência do discurso anti-sionista tem um fundo que ninguém ousa nomear, mas parte das teses e argumentos pró-palestina chegam no ponto onde tu fica esperando alguém falar dos protocolos dos sábios de sião.

Mas Israel, então, está certa em atacar a palestina? E com isso arcar com as conseqüências de um ataque? Porque quando tu inicias uma guerra, um ataque, sejam quais forem tuas razões, crianças vão morrer, escolas vão ser destruídas, inocentes vão virar pó. Isso é o que acontece em guerras, e quem autoriza uma guerra sabe que está autorizando isso. Assim como os foguetes lançados pelo Hamas também mataram crianças.

A questão da proporcionalidade é uma parte do que agride tanto neste conflito. Alguns malucos do Hamas lançam foguetes ao território Israelense, Israel avisa – parem. Malucos jogam de novo. Israel entra com força total e destrói tudo no caminho até jerusalem.

É verdade, quando um lado briga com pedras e o outro com AK, a gente tende a torcer pro lado com pedras. Mas é um engano pensar que Israel está agindo sem motivos, e eu não acho que todos que estão cometendo este erro são igênuos – uma boa parte dos que cometem este erro, que ignoram o fato de Israel estar brigando com uma força repressora e hostil na palestina, estão reproduzindo o velho “problema judaico” do qual eu já havia falado ali em cima.

Israel está usando terrorismo de estado para combater o Hamas? Sim.

Israel está sendo desproporcional na sua resposta? Sim.

Israel está repetindo o que foi feito aos Judeus com os palestinos? De forma alguma.

O massacre que israel está protagonizando na palestina não é uma limpeza étnica, é uma guerra. Talvez estas coisas andem de mãos dadas, é verdade. Mas me causa certo asco a necessidade de trazer a Shoa de volta na hora de discutir este conflito.  O fantasma da Shoa volta como uma chantagem, “não é por que isso foi feito a vocês, que vocês podem fazer aos outros”.

Mas eu estou fazendo voltas grandes e saindo do meu argumento principal.

A verdade é que este conflito está criando um problema sério para Israel, que é o problema da equivalência moral. Quando tu respondes a violência com mais violência, tu crias uma rede de legitimações – a tua violência, a tua agressão, justifica a minha resposta. Neste sentido, as partes se tornam equivalentes nas suas razões, e a discussão se torna estúpida, “quem bateu em quem primeiro?”.

Israel é o único – único – Estado na região que é capaz de demonstrar que tem uma constituição, que respeita os direitos de todos seus indivíduos e que respeita minimamente os direitos humanos dentro do seu território. A autoridade do Hamas na palestina não reconhece direitos para as mulheres de forma suficiente, não reconhece as convenções básicas de direitos fundamentais, e oprime os não-muçulmanos – oprime mesmo os que não tem uma determinada visão da fé muçulmana. Ao jogar o jogo do Hamas, Israel comete um erro fundamental – ela desce ao nível do Hamas para brigar. E o resultado? O resultado é que o Hamas pode se vitimizar aos olhos da mídia internacional como voz dos oprimidos. Como me disse um amigo palestino “todo povo sob ocupação tem direito de resistir”. É verdade, tem direito. Mas o direito de resistência também tem seus limites. E o Hamas ultrapassa todos eles.

Sou simpático à idéia de tirar o Hamas do mapa. Mas a estratégia de Israel é equivocada, por que o que quer que vá substituir o Hamas depois deste conflito, vai ser quinze vezes pior – porque esta é a lógica do conflito, se o meu seguraça anterior não me protegeu o suficiente, vou contratar um mais forte para a próxima vez. O Hamas, enquanto pitbull dos interesses palestinos (grande parte deles, diga-se de passagem, totalmente legítimos), está falhando em proteger a faixa de gaza. Eu acho bom que Israel esteja preparada para brigar com o Hizzbollah na próxima vez. Ah sim, o Fatah? Que até reconhece o direito de Israel existir? Esqueçam.

Por trás de tudo isso temos um problema persistente e sem solução. O nome deste problema é religião.

Dawkins não fez um estudo muito sério sobre religião, é um estudo problemático, cheio de furos e de generalizações. Mas este discurso de legitimação, tanto de um lado quanto do outro, que constantemente apela para textos e terras sagradas, que tem esta cidade de Jerusalém como pano de fundo… isto demonstra bem como a religião pode funcionar como um virus no nosso sistema de justificação moral. A violência é legítima, é uma resposta legítima quaisquer meios necessários para livrar jerusalém dos impuros é legítima.

Claro, existem interesses econômicos que brincam e incendeiam esta discussão. Certamente é interessante para todos que querem explorar a região economicamente que ela seja instável – países estáveis costumam colocar preço justo nos seus produtos, e isso, sabe-se, é um pouco ruim para o “mercado” – pelo menos na forma como estes psicopatas parecem entender “mercado”.

Mas a pergunta é imperativa: sem religião, este conflito existiria? As justificativas para este conflito existiriam? Os dois lados seriam tão rápidos no seu conforto em apelar para a violência?

Talvez o contraponto para a minha pergunta seja a existência de um movimento pacifista dos dois lados da fronteira. Mas eu gostaria de saber o que os pacifistas estão dispostos a negociar. Jerusalém é negociável? Quem pode e não pode entrar em determinadas partes da chamada terra sagrada? Como podemos levar a sério pessoas que acreditam que um território tem propriedades místicas e mágicas? Porquê estes argumentos deveriam sequer ser levados a sério? “Mas aquela terra é sagrada”, este tipo de argumento deveria te expulsar de uma sala de negociação. O que isso sequer significa?

Eu não sei a resposta para estas perguntas. Mas eu sei que elas não existem sem o elemento religioso.

Comments
3 Responses to “Equivalências morais?”
  1. Marcelo disse:

    Uma coisa que eu aprendi no colégio, na aula de história da arte, era que existe uma oscilação entre temas religiosos e temas seculares.
    Acho que o mesmo vale pras outras áreas. Daqui a pouco esses caras param de brigar pelo flying spaghetti monster e começam a brigar pelo valor econômico da areia no deserto.

    Resolve? Não vai resolver. Mas não vai ter essa trava moral que tem hoje. Aí eles podem se matar a vontade.

  2. flying spaghetti monster > Allah

  3. Moche disse:

    estava esperando tua opinião sobre o assunto e, surpreendemente (:)), achei razoavelmente próxima da minha.

    Não daria, no entanto, tanto protagonismo para a religião. Se não tem a religião, eles inventam outra coisa para colocar lá.

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