Ficções

Eu tinha escrito um texto grande, pessoal, sobre minha relação com a escrita de ficção e o escrever ficções. Claro, apaguei tudo. Não interessa.

Eu acabei de apagar um texto grande, mais dois parágrafos, tentando elaborar o texto acima. Estava brega, chato e sem sentido.

Depois, eu escrevi mais um parágrafo, quase cheguei em um ponto. Deu errado.

A coisa mais horrível em trabalhar com o que a gente trabalha, é que as vezes parece que quanto mais tu tenta justificar o que tu faz, mais tu te convence que as justificativas que tu tá dando estão equivocadas. Essa coisa paradoxal, creio eu, marca a minha experiência tanto com a filosofia quanto com a literatura.

Ok, cheguei no meu ponto. É interessante, eu tentei escrever ficções, pouco antes de sair do direito. Eram horríveis. Adolescentes, bobas, sem sentido. Mais ou menos como 96% de tudo que é produzido com o nome de “literatura”. Não sei se o que eu escrevo, em matéria de filosofia, ou de teoria, se encaixa nos 0.05% dignos de serem chamados “decentes”, provavelmente não. Mas pelo menos eu tenho alguma dúvida sobre isso, e estou disposto a correr certos riscos para ver onde vai parar esta empreitada.

Mas o paradoxo que eu estou tentando apontar é o seguinte: como tu te autoriza? onde, exatamente, tu te dá o direito de te chamar um cronista, um escritor, um professor? Ok, se tu te chama de “filósofo”, tu é um cretino. Disso eu tenho poucas dúvidas, o cara que assina como “Filósofo”, merece todo a chacota que vai receber. É paradoxal, porque parece que quanto mais tu tenta justificar o que tu faz, menos tu consegue convencer. Um fenomeno comum: coloque um literato, qualquer literato, para justificar a existência da literatura contra um realista dos mais tacanhos. Veja o literato ser destruído em cinco minutos.

É simples, qualquer um que diga “a gente não quer só comida”, evidentemente nunca passou fome.

Se tu tiver com frio, tu vai queimar teus livros para te esquentar. Inclusive os que tu escreveu.

Se a faculdade estiver em crise, as humanas vão primeiro.

Tu podes argumentar, “ok, mas neste raciocínio quase todas as coisas são bobinhas e desnecessárias. E tu tá ignorando que a literatura é um fenômeno comum em qualquer sociedade, seja na forma de tradição oral, ou no papel.”

E tu terias um pouco de razão. Eu só consigo escrever estas coisas porque tem um universo de história, de memória, atrás disso. A gente é formado por este monte de mitos. Não discuto isso.

Mas sei lá, eu acho que a gente já de-sacralizou tanto estes mitos, já contamos tantas vezes a mesma história, que agora talvez elas – todas elas – tenham se tornado supérfulas, inúteis. Para usar o Dawkins, talvez elas operem como um vírus no nossos sistema de prioridades.

Ou talvez o Dawkins também participe do espetáculo de bobajadas que a gente usa para nos destrair das coisas essenciais.

Ou talvez eu devesse parar de ler Nietzsche.

Isso, primeira providência: jogar Nietzsche fora.

(ei, este post serviu para alguma coisa!)

Comments
10 Responses to “Ficções”
  1. marcos disse:

    Cara, acho que em certa parte do teu texto, tu te pergunta se antes surgiu o ovo ou a galinha.
    Digo isto, no sentido de que, se tu pegar uma metafísica como a de Heidegger ou até mesmo querer apelar para a psicanálise, tu vê que a relação com os entes, com os objetos, nunca é direta ou meramente empírica (isto é, ingênua). Tem sempre algo que tu transcende, preenche com significado, etc.
    Se tu concordar comigo até aqui, então a gente pode pegar os exemplos dos livros queimando e das tatuíras que tu foi matar para conseguir comer alguma coisa. Como tu acendeu o fogo? Como tu sabe que livros pegam fogo? Como tu descobriu um jeito de matar tatuíras? Daria até mesmo para se maravilhar com o fogo queimando e fazer um poema (que tosquera) ou fazer um quadro pós-moderno com as tripas (?) da tatuíra.
    Por um lado, tentando radicalizar um dos teus argumentos, eu diria que isso soa um pouco ao gordo Marx berrando: “vamos transformar o mundo!”.
    Por outro, concordo quando tu fala em superficialidade de certas histórias ou teorias. Tem que fazer algo que preste eque seja para inovar, transgredir.
    Que tu acha?

  2. Panorama of Endtimes disse:

    sabe, fabs, me parece que tu estás na crise da 11ª página. Eu tenho essa coisa de escrever coisas maravilhosas (ahan) até a 11ª página. Aí o texto seca, acaba, ou vira putaria desenfreada. Aí, morre. Me parece que tu estás sentindo isso: como ir daqui pra frente? o que é importante nisso que eu faço? O que eu faço tem sentido?
    Acho que o que tu tens que descobrir, ainda, que em qualquer nível de complexidade, o texto tem que ser interessante pra tí.
    Não é papo pra boi dormir, e sim, a única justificação que qualquer argumentação deve ter: o teu interesse nela.

  3. não acho que toda justificação tem um fundo egoísta, Tiago :)
    Respondendo ao Marcos.
    Eu não tenho nem idéia do que eu penso. Cada vez que eu tento dar minha opinião sobre estética o Wittgenstein se materializa do meu lado e começa a balançar a cabeça negativamente…

  4. Carlos disse:

    Como assim “chacota” por se auto-denominar filósofo???
    Juro que não entendi… Olha o respeito com a nossa ‘colega’!!!

    http://www.clicrbs.com.br/blog/jsp/default.jsp?source=DYNAMIC,blog.BlogDataServer,getBlog&uf=1&local=1&template=3948.dwt&section=Blogs&post=59296&blog=274&coldir=1&topo=3951.dwt

  5. direi apenas que lembro que essa menina tinha um apelido bem característico na época das fulltronics da vida.

  6. Tatiana disse:

    Cara, Porto Alegre e um antro. So numa cidade como aquela para certas coisas acontecerem e serem celebradas.

  7. marcos disse:

    POR FAVOR, pessoal! Parem um pouquinho de fazer qualquer coisa que vocês estão fazendo e vejam isso: http://www.youtube.com/watch?v=yDS2MwT7Ghs&feature=related . Curtam o raciocínio matemático-lógico-geográfico do cara. F-A-N-T-Á-S-T-I-C-O.

  8. Carlos disse:

    Isso não pode ser verdade!!!
    E a “filósofa” concorda… Tamo mal lá na PUC!!!

  9. “APROVEITAR ESTA DIALÉTICA DA DIFERENÇAM, NÉMN”

    resumo de tudo.

  10. Carlos disse:

    “Aproveitar esta dialética da diferença, némn” [2]

    SENSACIONAL!!!

    “Se não tem toda essa merda de religião católica, já muda tudo”

    ‘Ignorance is bliss’, apud RAMONE, Joey.

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