Os meio-oestes

A tati, uns tempos atrás, tava tirando com a minha cara que eu não seria tão feliz em qualquer outro lugar nos Estados Unidos. Hoje ela adicionou, “talvez em Oregon, porque chove um monte e tem café”. Mas é verdade, existe um espírito no meio-oeste que desperta algo de primário, quase infantil, nesta minha psiquê não-analisada. Talvez sejam as planícies e os campos de cultivo, que, como bem disse a minha irmã, davam vontade de gritar “segure seus sapatinhos Dorothy” (minha irmã viu o Mágico de Oz dublado, ok?  o original, vocês que viram Matrix e não viram o Mágico de Oz bem sabem, é “Hold On Dorothy, cuz Kansas is goeng by-eby”).

Mas é legal tu pegar teu carro, botar na estrada, gastar vinte pila para encher o tanque (/morte imediata) e dirigir quatro horas até o Kentucky. A paisagem lembra os filmes que eu sempre gostei, desde guri. Eu era apaixonado pelo mid-west e não sabia, Blues Brothers, Curtindo a vida adoidado, Animal House, todos aqueles filmes idiotas que se passam neste terreno que define um pouco da tal experiência americana.

O lado bom e o lado ruim, é claro. Porque só no mid-west a tua revista de turismo tem uma sessão separada para “cultos” e uma matéria gigantesca sobre a celebração da paixão de cristo feita aqui em Lousiville, que pelo visto tem todo o sadismo recomendado – com direito a cristo vomitando sangue na cruz e tudo. Só no mid-west as estradas te comprimentam com um “When you abort me I feel pain” a cada 100 milhas, e uma foto de um bebê fofinho. Mas também só no mid-west o camarada do teu lado na fila do Subway em um buraco entre Indiana e Illinois se solidariza com o fato de tu tá sem voz e puxa papo sobre o vento.

O vento. O vento é um caso à parte. O carro quase decolou, em vários momentos. Tu vai passando pelas pedras aqui da região, devidamente escavadas para darem lugar à estrada, e o vento vai canalizando. Eles chamam de Prairee Wind. Vento de Pradaria. No Rio Grande do Sul, a gente chama de vento norte. Mesmo vento, mesma idéia. Lugares abertos ventam para cacete. Acaba criando uma certa familiaridade. Tu sai do carro, tu sente o vento à toda, fecha a porta do carro, olha para o lado, vê a pradaria: “é, eu não me enganei de lugar”.

Talvez eu esteja romantizando toda esta experiência, admito esta possibilidade. Qualquer um que se dê o trabalho de escrever mais que cinco linhas sobre vento, ou sobre uma viagem, é um romântico em potêncial – hey! eu larguei uma carreira em propriedade intelectual por uma possibilidade de bolsa na filosofia, isso depois de ter ouvido “esquece platão” durante minha prova oral no mestrado (uma chance para descobrirem quem foi que disse, a tati não pode tentar). Eu certamente não sou o cara mais pragmático do universo.

Mas de qualquer forma, é interessante isso. Eu sempre fui fascinado pelo meio-oeste gaúcho, que na realidade é o sul. Pela região da fronteira, ali em Quaraí, Artigas, Livramento, etc. Sempre foi uma aventura ir para aqueles lados. Agora eu vivo nas heartlands que não são mais as heartlands, o meio-oeste que assim como o sul do RS está destruído. Para entender a crise nos Estados Unidos, tu precisas passar por Indiana, precisas ver os lugares abandonados, a população envelhecendo, os negócios com placas de “obrigado pelos últimos 30 anos, estamos fechando”.

Eu não sei porque ainda não arrumamos uma máquina fotográfica depois que a última morreu de velha. Mas é que tudo parece tão interessante, tão urgente, que a máquina fotográfica meio que se torna obsoleta. Parece que tu deixa um tanto da experiência da coisa de lado quando tu paras para pensar uma foto. Não sei, não sou um artista. Com a palavra, os fotógrafos.

De qualquer forma, aqui no midwest parece que o vento quase nunca é metafórico.

Comments
2 Responses to “Os meio-oestes”
  1. e este, senhoras e senhores, foi o post de guriazinha do semestre. Cortesia de minha garganta detonada e de uma viagem de 5 horas. Convém não criar expectativas para outro do mesmo tipo antes de Agosto. :)

  2. Ferrari disse:

    Gostei. Deixa de ser fresco, até pq tu tem um blog só pra filosofia em outro lugar, e fala mais de ti. Repete.

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