Godard, ou “ai meu saco, me tira daqui”

Recomenda-se ver Godard chapado. Não para apreciar o filme melhor, não, nada disso. Recomenda-se ver Godard chapado para que tu possas te distrair com outras coisas que não o filme. Substâncias recreativas do tipo lisérgicas são especialmente recomendadas, para que enquanto o filme passa tu possas ficar entertido pensando “Caaaaraaaa, mazéssé Godárd usáva cor prá caráleo, néhn?” ou “Dediiiinhuuuusss uzedinhhhuuuuu d’inha mãoooo” ou ainda “Véi qui barát’se lance né?”. Substancias da família THC são menos recomendadas, já que elas podem levar para discussões do tipo intelectual, melhor resumidas como “Lima e Silva vai ao Cinema” ou “Ossip na lanterninha”.É neste tipo de discussão que escutamos leitmotifs como “‘vélho, este esquema pequeno-burgues é tipassim uma coisa que a gente tem que lutar contra” e “cara, tá na óra de dexá d’lado a complacência e ser ativo, véi” ou “bah cara, este cara mál aí me lembra meu pái véi” seguido do universal “passa’béqui”.

Bem, vamos ao filme, sim? O filme que eu vi hoje, é o tal do La Chinoise. No all movie, chamaram o Godard de maoísta, que no meu entender é o mesmo que chamar de Nazista. Vejam, um dia eu votei no PT, um leitor novo deste blog certamente se lembrará de ter me saudado como louco-sem-tamanho-com-propensões-para-o-sado-masoquismo quando eu confessei ter votado no Stédile. A este leitor novo deste blog direi apenas que se eu me visse hoje com 17 anos de idade, eu dava um soco no meu estômago seguido de um “deixa de ser imbecil, seu guri de merda”. Também direi que ainda tenho as fotos de gramado.

Mas eu estou dando voltas e não falo coisa alguma Mais ou menos como o Godard. Mas eu achei a crítica do All Movie equivocada. O Godard DEMOLIU com a New Left naquele filme.  Antes mesmo da New Left tomar forma na França, com seu exército de guris de apartamento entediados, o Godard foi um percursor da crítica aquela palhaçada toda que hoje romantisamos como a Paris de 1968.

Em outras palavras é a velha discussão do “pobre é lindooooo” que tanto marca o papo de libertação. O oprimido é santo, vítima e tem uma jeba de 22 cm.  Os jovens do Godard são um bando de iludido, o guri que ensina filosofia, e condena a namorada quando ela vai trabalhar como prostituta para financiar os delírios dele. A guria criada no apartamento de cinco quartos em Paris que usa o livro vermelho para irritar papai e mamãe. O revolucionário de botequim que se mija nas calças na primeira briga. Enfim, vocês conhecem os tipos.

Ao mesmo tempo que o filme me matou de tédio, eu fiquei com a sensação que o Godard tava tirando sarro desta gente toda. Tirando sarro inclusive do próprio estilo, naquela sobreposição de imagens. Eu achei o filme uma grande de uma zombaria com todo o pensamento cartoon de 1968 antes de 1968. E mesmo que esta não tenha sido a intenção do Godard, me parece que é isso que sobra do filme. A gente apontar para um bando de guri iludido que ficava procurando os seus belos e bons-selvagens para ficarem admirando.

Claro, o mais interessante de tudo isso, é que o Adorno também sacou esta gente quando os alunos ocuparam Frankfurt. Ele mandou todo mundo de volta para a teoria, ou em outras palavras, irem estudar e deixar de serem panacas. E quando ficaram balançando as portas da sala de aula, ele chamou a polícia para descer o cacete na piazada. Digno.

(tá, antes que me lembrem que o Adorno foi massacrado pela imprensa e mesmo pelos alunos, e acabou seus dias isolado e deprimido no interior, eu gostaria de ressaltar que hoje é muito difícil não reconhecer que diante de um bando de baderneiro desinformado o Adorno tinha toda razão. Revolução, este papinho aranha de contra tudo isso que tá aê,  nada mais é que uma resposta preguiçosa e bobinha)

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