Uma semiótica de Southern Illinois

O popschuckwagon é um trailler que vende barbecue (pronuncia-se bér-bi-quiúi, ou éíquíuí se tu for do Tennesee e não tiver dentes – 75% da população local, portanto).

Ainda não fui lá, mas podemos através da análise de signos, fazer uma pequena semiótica da região para os não iniciados – os que estão tentando entender onde eu e a tatiana nos encontramos, e também os que pretendem uma carreira em Southern Illinois.

Pois bem, primeiro, uma pequena análise do mascote da empresa:

piggy

1 – O porco é perneta. Ou seja, trata-se de um porco resiliente, que não desiste fácil. Mesmo tendo sua perna decepada (certamente para o cozimento de um belo pernil), o porco continua sorrindo e pronto para a luta com suas muletas sulistas (percebam o desenho, são sem dúvida muletas sulistas feitas 100% nos estados unidos).

2 – O iron belt. Estamos, afinal de contas, no bible belt. O cinto bíblico. No caso, o cinto de metal simboliza mais uma vez a força (aço), e o comprometimento local (cinto é um símbolo da cultura mid-western, como um todo). Estamos sobretudo diante de um porco LOCAL.

3 – O chapéu sombreiro. Para completar o uniforme de cowboy. Ou melhor, de horseman (cowboy é coisa das antiga, aqui é horseman). O porco então se pronuncia como um porco comprometido com os ideiais locais, e um porco que pode ser consumido sem culpa – não é um estrangeiro (aqui compreendido como qualquer um de fora dos estados unidos reais, também conhecidos como Bible Belt).

Passamos agora para a análise de imagem:

geral

1 – O camarada. O camarada tem que ser analizado, isoladamente, depois.

2 – A disposição da grelha. Não se deixem enganar. O descuido não é descuidado. É planejado. Cada objeto é colocado de forma deliberadamente aleatória e sem sentido na grelha, a pergunta “o que este detergente tá fazendo aqui?” ou “porque alguém mantem alcool tão perto do fogo?” denuncia o teu status enquanto “não daqui”. As coisas tão ali porque elas tão ali, oras. Que inferno!

3 – A árvore quase caindo em cima da estrutura de madeira improvisada é um caso à parte. “Em uma zona de tornado, não seria o caso de ficar longe de árvores e coisas do tipo?” . Claro, se tu for um MARICÃO. Mas se tu é uma pessoa comprometida com os ideiais mid-westerns tu sabe que um mid-western e seu trailler só se separam na hora da morte, e que fugir ou tentar tornar desastres uma coisa mais suportável é algo que alguém de – argh – Chicago tentaria fazer. Portanto, fica-se embaixo da árvore, inclusive durante a tempestade, o vento e tudo mais. Por sinal, tu continua GRELHANDO enquanto todas estas coisas acontecem. E, mais importantemente: SEM PERDER O BONÉ DE VISTA JAMAIS.

4 – A estrutura de madeira. Porque tu não quer folha caindo em cima da chuleta de porco, cacete! Ora bolas, para proteger da chuva que não vai ser, né? ou tu tá vendo alguma proteção pro pessoal que vai comer? Claro que não. A idéia é ter um teto que vá te proteger a carne das folhas e, eventualmente, te soterrar durante um temporal. O soterramento não apenas é previsível, como desejável. A morte mais gloriosa é aquela causada pelo teto de madeira improvisado que tu construiu no teu trailler e/ou casa de carnes.

5 – O cusco. Precisa explicar?

Agora, para a nossa estrela.

camarada

1 – O Boné. “Mas ele é careca!”. Sim, e teu ponto é, exatamente? “Para que boné se tu não tem cabelo?” Obviamente, tu foi criado em apartamento. Sua anta, o boné É o cabelo. É parte do corpo. Um verdadeiro mid-western dorme, acorda, toma banho, trepa (ahan, até parece) e é enterrado com seu boné.  O boné é parte do caráter, da forma de ser do mundo do mid-western. Assim como a cabeça de viado empalhada em cima da cama no teu trailler e o six-pack de Bud na tua geladeira.

2 – O avental. O avental é mais que uma proteção para tua roupa. Até porque, magicamente, o avental sempre está pristino e a roupa, inversamente, tá sempre manchada de carne. O avental é um statement of purpose. É uma carta de intenções. Ele pode ler “God bless our troops”, “God bless the pig”, “Fear the government that fear your guns” ou “I (coraçãozinho) Pig”. No caso de grelhadores mais “liberais” os dizeres são mais na ordem de… opa, estes são os grelhadores mais liberais, tanto que deixou-se fotografar e tem um sáite na inet (mas DUVIDO que aceite cartão de crédito).

3 – A mão. A mão estratégicamente posicionada quer demonstrar o orgulho pelo que está na

4 – Grelha cheia de carne. Percebam, a grelha, assim como o boné, é uma extensão do corpo do camarada. Tenta fuçar na grelha. Não, sério, tenta. Mas tenta só uma vez, porque o camarada VAI TE MATAR, SEU MERDA. E com razão! Ora bolas, tu não sai por aí apertando a bunda de desconhecidos, né? (não responde, Ferrari). Então? Tu não vai tentar fuçar na grelha do camarada, tchê! Isso é inadmissível, é ofensivo, e é meio aviadado.

Uma outra coisa a ser avaliada são os menus de café da manhã. Percebam, os menus de café da manhã não servem café da manhã. Eles servem a morte cozida. Afinal, estamos tratando de :

Bacon, Egg & Cheese  *Ham, Egg, & Cheese  * Sausage, Egg, & Cheese

Your Choice $2.76 each         *Additional Meat or Egg Add $0.50

“Triple By-pass Breakfast Sandwich”  – Ham, Sausage, Bacon, Cheese, & 2 Eggs

$4.26                           *Additional Meat or Egg Add $0.50

Sourdough Bread & Gravy  – Daily til 9:30a.m.!             $2.76

Sourdough Donuts – Made Fresh Daily                        4/$1.39

Hash Browns                                                                 $0.69
Eu poderia aqui tentar explicar para vocês os por-menores deste menu. Por exemplo, o conceito de GRAVY. Gravy poderia ser traduzido como “molho”. Mas isso é sem dúvida uma injustiça linguística. Gravy é a morte líquida. Sério. Certos tipo de gravy são diretamente constituídos para diminuirem tua expectativa de vida instantaneamente. Tu come um pão de batata com um “molho” de tomate, pimenta, banha, gema de ovo e GRAPEFRUIT. Tua língua imediatamente, ao sentir o gosto, reage com “vem cá, tu tá de sacanagem, né?”. Depois disso todo o teu sistema circulatório se revolta diante da clara tentativa de auto-sabotagem – “a gente não lembra de ter sido consultado sobre isso, tu podia pelo menos salvar tempo e só meter uma bala na cabeça, né?”.

Exceto, é claro, se tu for um local. Um local, diante da negativa de existência do Gravy, via de regra reage com “so, what is about this that is food, again?” – falar sem as consonantes, como em “o, a’out is’ood, en?” é uma boa aproximação.  Crianças choram se o seu café da manhã, que consiste em um prédio de panquecas com cinco andares não está devidamente inundado com uma mistura de geléia de cereja, banha, caramelo e algo que pode ou não pode ser maizena.

Mas chega do café da manhã. Partimos para a análise do menu de facto:

Untitled

1 – O steak (pronuncia-se “estáiq”)  de porco, bem assado (parece apetitoso) e com molho doce (tu pode perceber isso pela cor levemente amarelado do molho em cima do porco). O molho é o que estraga, via de regra. Já comi um ou dois porcos mais doces que até não estavam ruins, mas nada bate a mistura SAL e PIMENTA. Mas aqui isso é tido como inadmissível, “se eu quiser sentir gosto de carne, para quê eu ia comer porco?”. Além disso, mid-western tem muita dificuldade com a noção de comida sem açúcar. Mas não quero julgar o porco antes de ir lá em Marion comer este troço.

2 – O feijão. Seguinte. Estrangeiros indo para os estados unidos. A pergunta que vocês tem que fazer para vocês mesmos é “eu gosto da idéia de passar o dia trancado no banheiro, me arrependendo de ter nascido?”. Se a resposta é “não”, então vocês NÃO DEVEM, sob HIPÓTESE ALGUMA, comer o feijão aqui. Primeiro, ele leva açúcar de beterraba. Sim, de beterraba. Não, eu não vou tentar descrever o gosto. Basta dizer que ao escrever  “açucar de beterraba” fui surpreendido com uma reação por parte de meu sistema digestivo que só pode ser descrita como “nem inventa!”.

3 – As batatas. Mashed potatoes são como um pirê de batata, só que cozido na banha quente. Nunca tive coragem de provar. Junto com o cozido de milho, constitui o “side-dish”, ou “acompanhamento” mais popular da região. Acho que a Tatiana já comeu, uma vez. Talvez ela queira dividir com a gente como foi.

4 – Garfo de plástico. Porque nada diz “meio-oeste”, como ter que cortar um puta pedaço de carne segurando um garfo de plástico. O recado é claro: o garfo tá ali para te identificar. Se tu usar, tu não é da região. Se tu for da região, tu imediatamente deixa o garfo para o acompanhamento, e come usando as mãos, porra.

5 – O prato de isopor/plástico barato. Sim, porque é claro que tu queres servir comida quente em um isopor/plástico barato que vai começar a se desmanchar dez segundos depois de tu teres servido. Mais uma vez: se tu demora mais de dez minutos para comer QUANTO QUER QUE SEJA que esteja no teu prato, tu é um marica que precisa SENTAR ou comer FORA DA TUA pick-up. Volta para Chicago, city boy.

6 – A toalha. Sério, eu adoro esta toalha. Ela diz tudo sobre a região. Quero dizer, diria mais se tivesse uma imagem de cristo em algum lugar. Mas eu tenho certeza que deve ter alguma significancia católica- cristã que a gente prefere ignorar. Mas é genial . Reparem nas cores. Reparem na coerência. Reparem no que isso diz sobre o caráter do assador “foda-se a estética, eu quero saber se o porco é bom”.

Bom, isso encerra minha análise semiótica sobre o lugar, e sobre este pedacinho do mid-west chamado Southern Illinois, com base em uma Bbq house. Mas pretendo ir lá, tomar café da manhã (ISSO MESMO, café da manhã!) logo-logo. Daí escrevo aqui como foi. Hei de tirar fotos.

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Comments
43 Responses to “Uma semiótica de Southern Illinois”
  1. Ferrari disse:

    Tu nunca foi pra campanha, né?
    Não, sério, tu NUNCA foi pra campanha.

    Essa grelha limpinha é o que dão pras chinocas de dois anos brincarem de casinha, pq nem mulher assa carne numa coisa dessas.

    E se fosse na campanha, o cachorro não ia estar ali. Afinal, não se desperdiça carne. Pergunte ao RU da UFRGS.

  2. Perceba. Eu tive o cuidado de chamar de GRELHA.
    Churrasco é totalmente diferente. Iria ferir as sensibilidades das MULHERZINHA aqui. :P

  3. PanoramaofEndtimes disse:

    bixa, fabrício, bixa.
    eu me sentiria em casa com a comida

  4. Ferrari disse:

    Tu tem que fundar um CTG aí. Sério mesmo.
    Se bem que a idéia do Fabrício tentado mostrar pros gringos o que é ser macho é uma coisa meio engraçada.

  5. Ferrari disse:

    Tiago, eles profanaram a carne. Isso só se resolve com garrucha e facão.

  6. PanoramaofEndtimes disse:

    eles não comem carne. eles comem coisas que são processadas. mata um boi e serve num churrasco de verdade. esse pessoal se caga

  7. ah sim, pq CTG é coisa de homem…

    Tiago, já te disse. Vem para Southern Illinois. Aqui a comida vem nas porções que tu gosta, e para os padrões locais tu é um homem em forma, desejável e pronto para o trabalho. Ia ser o garanhão da região :P

  8. Tati disse:

    Podemos chegar lá esse sábado, aposto que a Nath e o Carlos animam!

    Por sinal: Eu sou fã das mashed potatos. Ainda mais que aqueles pontinhos escuros que se pode ver na foto são BACON. E como toda pessoa sábia reconhece, bacon é vida.

    Menção honrosa para o “Triple By-pass Breakfast Sandwich”, também conhecido como o sanduíche de café da manhã “ponte de safena tripla”! Tem que admirar o senso de humor e ironia do camrada! :P

    Ain que fome!

  9. “eles profanaram a carne”
    A/C Giorgio Agamben e H. Flickinger.

    A de-sacralização da picanha e a perda do sentido do ser-si-mesmo.

    Prêmio jovem cientista djá!

  10. Tu é fã das mashed potatoes?
    M E D O

  11. PanoramaofEndtimes disse:

    a porção é boa, é?

  12. Ferrari disse:

    A Tati deve passar o resto do dia vomitando pra não virar uma nave-mãe por aí.

  13. Tati disse:

    Atóron as mashed potatos. E o Mac&Cheese também.

    E para de te fazer, pq eu vejo teus olhinhos brilhando praqueles hamburguinhos de orelha de porco que são as “sausages” ! :P

  14. ô. a gente tem que tirar uma foto da porção no New Kahala prá ti.

  15. PanoramaofEndtimes disse:

    eu vou comer alguma coisa. sobrou um vazio do final de semana

  16. Tati disse:

    Eu tb. Cheerios com iogurte natural, pra começar equilibrar o organismo pro final de semana :P

  17. Ferrari disse:

    O vazio que preenche.

    Agora sim prêmio jovem cientista!

  18. A/C
    A ilha do dia anterior :P

  19. Tati disse:

    A Paula pode testemunhar sobre o tamanho das porções do New Kahala (e do Mid-West, em geral)

  20. Tati disse:

    E a Rê pode nos contar sobre as panquecas! :P

  21. Paula disse:

    Ai gents, fala sério, tão super falando mal de comida gostosa. Quero voltar pra Baby Back Ribs e bacon crocante e mashed potatos e todas essas coisas que envolvem morte fulminante (incluindo Absolut por 15 pila) djá! ;P

  22. Calma aí.
    Aceito tudo. Menos dizer que Gravy with Beans é comida GOSTOSA.

  23. Tati disse:

    Finalmente, a voz da razão! Obrigada, Paulinha, por ser um intervalo de lucidez no meio desse non-sense!

    :P

  24. Tati disse:

    Tem uns gravy bem feitinhos que em cima das mashed potatos ficam um espetáculo!

  25. Paula disse:

    Fabi, você mesmo me disse que pra toda regra existe uma exceção que a confirma. ;)

  26. Tati disse:

    Fora que ng falou das hash browns! Aquelas batatinhas são um pedaço do céu!

  27. Tati. Eu nunca te vi comer aquele gravy do Giant City Lodge. Então nem vem.
    Aquele troço é agressivo aos SENTIDOS :P

  28. “Aquelas batatinhas são um pedaço do céu!”
    Sim, tanto que se tu comer umas três porções tu vai pro céu DIRETO.

  29. Tati disse:

    o do Giant City Lodge não é bom, mas tem uns que são gostosos.

    Tipo a Paula, adorou a experiência dela no KFC, né Paula? Fried Chicken, gravy e mashed potatos!

  30. Paula disse:

    Nem vem, Fá, eu super pedia porção extra todo domingo e nunca tive problemas, a Tati que tá há mais tempo aí já até se acostumou. Desce que nem água. :P

  31. Tati disse:

    Ai Harboughs, pq me maltrataste?!

  32. Paula disse:

    Né? :(

    Ainda bem que quando eu for pra C-dale já vão ter despedido os garçons (xura)

  33. Cara, vocês duas não nadavam no gravy MESMO.

  34. Tati disse:

    Amor, dá um F5 aí, pq estamos falando das batatinhas, não do gravy :P

  35. Ferrari disse:

    Pelamordedeus, não me fala do KFC que eu trabalhei nessa merda. Fiquei 2 anos sem comer frango por causa dele.
    Até hoje sonho com o cheiro de gordura saturada.

  36. Tati disse:

    É horrível mesmo. Pior que o KFC, só o Arbys.

  37. Agora o KFC tá com uma galinha não-frita.
    Horror.

  38. Renata disse:

    Olha, eu amei QUASE todas experiencias gastronomicas da região! Exceto o feijao (q é ruim de doer!!) e as asas de galinha (mas eu detesto frango,galinha e aves em geral, em qquer região do planeta). No mais, sonho com o café da manhã com panquecas, ovos, pães com muuuuitaaa manteiga,salsicha, bacon, café liberado, dia sim e no outro tambem!

  39. E o omelete rê? fala do omelete para galera.

  40. Sérgio disse:

    Só lendo isso engordei uns 3 kg. Acredito que depois desse in-land hurricaine, deve estar sobrando umas carninhas de zumbis ai mesmo… Quanto a essa comida, se não fizer MUITO cocô não vale nada…

  41. LFTorres disse:

    Deixa que eu comerei pasto por vocês pra compensar o ecossistema… :P

  42. Paula disse:

    Ain, quero Harbough’s de voooolta :(

  43. Letesgo disse:

    Dizem que viram a Tati entrando de Burka na Harbough’s…dizem…

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