Saindo do armário?

Os não-crentes precisam começar a falar mais.

Richard Dawkins tem razão quando chama a campanha pelo lobby ateísta-agnóstico. Os não-crentes precisam se tornar mais agressivos, mais ativos e denunciar mais algumas das coisas que tem acontecido. Precisamos, de uma vez por todas, acabar com argumentos do tipo “tá na bíblia”, “porque deus quis” e “é minha fé, minha esperança”. Ninguém liga para nenhuma destas coisas. Vai te justificar direito.

Uma das maiores decepções da minha vida intelectual foi em 2007, em Chicago, ouvindo um cara que eu admiro muito. O John Caputo estava lá, expondo alguns argumentos sobre este ou aquele autor. Alguém pergunta: “ok, e como fica?”, ele “esta é minha fé, minha esperança”. É contra este tipo de coisa que precisamos nos levantar, este tipo de irracionalidade . Como assim “esta é minha fé”? Ninguém se importa. Tu pode acreditar no papai noel, no coelinho da páscoa ou em maomé. São todos a mesma mentira. Quem se importa com tua fé?

O poder destrutivo da irracionalidade religiosa, da fé, precisa ser confrontado de frente. E isso só vai ser feito se os não-crentes perderem o medo de dizerem “porque crer em um monstro de spaghetti gigante é absurdo e crer em uma criatura mística que controla o mundo não é?”. Por mais sofisticada que seja tua explicação, no fim das contas, tá lá o sentimento de fundo. De novo, porque devemos ter medo de fazer estas perguntas?

O conforto, qualquer conforto, que a religião te traz é só um substituto para a tua falta de condição de entender o mundo que te cerca. É a mesma função os contos de fadas, são coisas que a gente inventou para fazer sentido do mundo quando a gente não sabia lá muita coisa. Mas a evidência que as lições de mundo que a bíblia, o corão, ou qualquer outro livro sagrado, te dão são completamente dementes. São histórias de um deus que pede para um homem sacrificar seu filho só para depois dizer “TAVA TE SACANEANDO, VELHO! VALEU AÍ!”. Ou de um deus tão demente que manda uma parte de sua essência (?) para a terra, apenas para que essa parte possa ser deliberadamente sacrificada, para cumprir parte de uma profecia (?) que vai nos salvar de um sposto pecado (?) original (???) . É um bom argumento para um livro de ficção, e o cara tem que ter muita cara de pau para dizer que algumas passagens não são boas. Mas francamente. São histórias tão factíveis, ou tão “valiosas” quanto a do coelinho da páscoa ou do bixo papão. Ou simarillion. Tu não tá pronto para dizer que o Simarillion é a verdade da vida, né?

Existe um deus? Não sei. Ele tem um plano para mim? Claro que não. Ninguém tem um plano para mim além de eu mesmo. Ainda que seja importante a liberdade de credo, a liberdade de apontar o absurdo da religião tem que ser mantida, e tem que ser exercida por aqueles que identificam este absurdo. Assim como o absurdo de não lavar as mãos foi apontado. Temos bastante evidência para não crer, e não crer torna nossas vidas mais significativas, porque não somos mais resultado de um plano – mas o resultado de uma absurda série de eventos que levaram até a nossa existência, parte de uma ordem de prioridades miméticas – que de alguma forma conseguimos resistir.

Tudo bem se a religião te ajuda a viver uma vida mais justa. Mas se tu és capaz de identificar o absurdo de parte do sistema de crenças que a religião te oferece, porque não largar tudo de mão? Porque não admitir, de uma vez por todas, que qualquer conforto que a fé pode te trazer ele é insignificativo diante dos absurdos que a religião protagoniza. O movimento contemporâneo que tenta re-adaptar a religião, ou apelar para um misticismo, está apenas substituindo seis por meia dúzia. Este papo new-age de misticismo é apenas a resistência aos elementos que tu não gosta na religião alheia, e daí tu resolve fazer uma mistureba para tentar levar tua vida – superstição, amuletinhos, Jesus Negão, todas estas bobagens.

Sem religião é possível viver uma vida justa. Porque então, precisamos de religião? Para tentar achar uma vida após esta? Desculpa, é altamente improvável. Para tentar achar no passado lições para o futuro? Tu não precisa de deus para isso.

Inclusive, tu não precisa de deus para nada.

Comments
17 Responses to “Saindo do armário?”
  1. PanoramaofEndtimes disse:

    olha, fabrício, tu só tá em C-Dale porque Deus quis. Não enche. =P

  2. Olha ali, no cantinho, tá vendo?
    SOU EU, mandando tu ir TOMAR NO MEIO :P

  3. Pensando bem, deus quis sim. Tanto que escreveu uma carta de recomendação. :P

  4. PanoramaofEndtimes disse:

    aliás o que tu estás, como filósofo, tentando discutir um assunto sério?
    Volta para discussão sobre inter-externalidade que vale mais a pena. Assuntos difíceis são para Cientistas Sociais.
    Essa é a ordem natural das coisas.
    tu queres desafiar a natureza?

  5. G.D. disse:

    (ligando o MODE ON para argumento RASTEIRO e previsivel)

    Antropologica e mesmo psiquicamente (Freud, no caso), nascemos imbuidos da necessidade e remissao a um “orgao superior” ou a alguma “sala da gerencia” da existencia e frageis diante das armadilhas de sempre justificar algo apelando para a submissao ou o “pertencimento” a uma ordem ou fe/crenca.

    Concordo com o que tu escreveu, mas mudar isso requer entre 743 a 826 anos seguidos de leituras de Onfray no banheiro e audios do Dawkins no IPod.

    (Argumento chinfrim e “ahh, bidu” MODE OFF)

  6. Pedro disse:

    Li “The God Delusion” e “God is not Great” com muito prazer. O Hitchens em especial por não ser tão, digamos, ácido ou ríspido em comparação ao “panfleto” do Dawkins.

    De qualquer forma, crendo ou não crendo, o que me parece mais interessante é um ponto que o Dawkins trata lateralmente: as religiões só se tornam realmente perniciosas para os demais quando elas entram no debate público com um grau de aceitação superior aos outros interlecutores simplesmente por ser ‘religiosa’. A partir desse momento, qualquer contra-argumento passa a ser considerado “hate speech” e ingerência indevida na “liberdade de crença”.

    Veja-se que, nessas circunstâncias, fica praticamente impossível ‘vencer’ um debate na esfera pública. Basta que se dga o quer que seja (aborto, criacionismo, design inteligente, eutanásia, etc) e o que vier do outro lado não deve ser aceito por ser ‘hate speech’ ou ofensivo ao credo do oponente. Essa “prevalência” do argumento religioso é que deve ser combatida.

    E olha que a gente tá no ocidente não-muçulmano!!!Imagina do lado de lá… (ops, hate speech)

    A solução seria, claro, que as menifestações religiosas olhassem pra dentro, que conduzissem o seus fiéis da forma como lhes mais apetecesse e deixasse para o debate público argumentos menos, digamos, religiosamente embasados.

    O que, no Brasil, fica bem claro com a Record e com o império IURD.

    PS – Ri, como há muito não fazia, com a descrição dos “Cargo Cults” e do “John Frum Cult” (em especial a da mulher com os fios amarrados na cintura que conversava com ‘deus’!!!) feita pelo Dawkins, o que reafirma o que disse o Divan aí em cima.

  7. marcosfanton disse:

    Bah, cara, sinceramente, eu não gostei nenhum pouco desse teu post. Ele é mais new-age que aquilo que tu tentas derrotar.
    Acho que se tu pretendes realizar um diálogo com a teologia – o que não parece, já que parece que tu simplesmente quer passar com um trator por cima de um lixo que a humanidade não precisa mais -, é desnecessário começar com esse tipo de argumentação.
    Acho que o Tugendhat tem um ponto metodológico importante sobre isso:
    “Tanto em uma direção como em outra, resulta pouco convincente a precipitada acusação de irracionalidade que se dirigem ambas partes entre si. É pouco convincente porque não podem persuadir a ninguém de que todos os representantes da parte contrária são estúpidos ou malvados ou ambas coisas de uma vez.
    Na luta política, é muito comum a difamação do adversário. O diálogo se interrompe o antes possível, escolhendo cada parte aqueles aspectos do outro que antes o façam aparecer como um ser débil. Platão situou este método retórico, tal e como ele o denominara, frente aquele outro que apontou como filosófico, onde “filosófico” somente quer dizer que aspira a estabelecer um diálogo.” (Racionalidade e irracionalidade do movimento pacifista e seus adversários).
    Tudo bem, tu podes dizer que não há como argumentar com justificações religiosas, mas, então, delimita o teu debate. Quando e onde não há plausibilidade nas justificações religiosas?

  8. carlos disse:

    Com este post e com o fim do purgatório, é certeza que você vai pro inferno! heheh

    Brincadeira!

    Seu texto me lembrou o Essays in Skepticism do Russel.

  9. carlos disse:

    Russel=Russell

  10. Pedro disse:

    Uma boa discussão:

    http://www.dawkinslennoxdebate.com/

    O Dawkins, me parece, não levou a melhor nessa…

  11. o primogenito disse:

    pequeno esquilo com frio (Fabricio em linguagem apache. Fabs=esquilo, icio=pequeno, brrrrr= frio):

    viu só o que dá estar em férias após meses de estudo infernal? A cabeça não quer parar, mas como não tem mais filosofia para se ocupar, fica pensando bobagens. Trata logo de arrumar alguma coisa útil para fazer!!!

    Quanto ao tema (não posso me furtar de colaborar com a polêmica, tão moderna, tão simples, tão desimportante):
    vai andar de bicicleta em meio aos plátanos perdendo as folhas do teu bairro, sente o vento frio, seco e o ar limpo batendo no teu rosto, para para (ahhh esta revisão ortográfica) pescar carpas no riacho que corre nos fundos da tua casa… à noite olha para o céu limpo e vê as estrelas… volta pra casa e sente o carinho com que as pessoas que te admiram te tratam (mesmo quando tu diz essas bobagens… escuta um pouco de Mozart, ou sendo mais religioso, escuta Beethoven… como assim não existe deus?

    além disso, e a física quântica?
    e o poder ilimitado do pensamento positivo?
    e aquilo que ainda não podemos cientificamente explicar?

    Por fim, tua luta é contra deus ou contra a intolerância característica do oficialismo religioso?

  12. Marcelo disse:

    AC Fanton:
    Ficar em cima do muro = bixisse

    Agora sério:
    Diálogo com religião = impossível, porque tu não pode discutir ordens vindas de cima.

  13. marcosfanton disse:

    Marcelo,
    não entendi bem o que tu quis dizer com “ficar em cima do muro”.
    Em relação ao segundo ponto, eu te perguntaria: com que pessoa tu estás, hipoteticamente, conversando? Que tipo de adversário seria? Quais os pressupostos que tu mesmo colocas a respeito da religião?
    Se tu mesmo já colocas como impossível estabelecer um diálogo, então não há mesmo razão para debater. Como é possível dialogar com alguém que já está, antecipadamente, derrotado? É simplesmente inútil e supérfluo.
    Assim, daria para dizer que o teu próprio comentário revela uma auto-contradição: como é possível não ficar em cima do muro sem haver um diálogo? Que diferença tu estabelecerias entre não falar e simplesmente atacar o outro, sem ouvir suas razões?

  14. Ferrari disse:

    Pra mim o problema não é a religião (até pq o que o Dawkins faz é religião), e sim o monoteísmo. É ridículo e perigoso lidar com intencionalidade e valoração na forma absoluta que o monoteísmo lida.

  15. Marcelo disse:

    O primeiro comentário era uma brincadeira, se tiver que explicar perde a graça, então nem vou começar, ok?

    O segundo, a sério. Pessoas que levam a sério sua religião (pelo menos da boca pra fora), de modo geral, não estão dispostas a dialogar.
    Ordens vindas de cima quer dizer que essas mesmas pessoas são portadoras da Única Verdade. Se tu não concorda é porque tu ainda não viu a luz.

    Sério, liga na rádio religiosa e tenta ouvir um programa de debate/entrevista/opinião.

    O que eu faço? Não vou debater religião, nem que me paguem.

  16. Nato disse:

    onde eu assino?

  17. This surely makes great sense to me!!

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