Consequencias diretas de ler Foucault?

Palavras e as Coisas, p. 435:

O homem é um modo de ser tal que nele se funda esta dimensão sempre aberta, jamais delimitada de uma vez por todas, mas indefinidamente, que vai, de uma parte dele mesmo que ele não reflete num cogito, ao ato de pensamento pelo qual a capta; e que, inversamente, vai desta pura captação ao atravancamento empírico, à ascensão desordenada dos conteúdos, ao desvio das experiências que escapam a si mesmas, a todo horizonte silencioso do que se dá na extensão movediça do não-pensamento. Porque é duplo empírico transcendental, o homem é também o lugar do desconhecimento, deste desconhecimento que expões sempre seu pensamento a ser transbordado pelo seu ser próprio e que lhe permite, ao mesmo tempo, se interpelar a partir do que lhe escapa. É essa a razão pela qual a reflexão transcendental, sob sua forma moderna, não mais encontra o ponto de sua necessidade na existência de uma ciência da natureza (à qual se opõem o combate perpétuo e a incerteza dos filósofos), mas na existência muda, prestes porém a falar e como que toda atravessada secretamente por um discurso virtual, desse não conhecido a partir do qual o homem é incessantemente chamado ao conhecimento de si.

Kant disse primeiro, em 1784, e um pouco melhor:

once nature has removed the hard shell from this kernel for which she has most fondly cared, namely, the inclination to and vocation for free thinking, the kernel gradually reacts on a people’s mentality (whereby they become increasingly able to act freely), and it finally even influences the principles of government, which finds that it can profit by treating men, who are now more than machines, in accord with their dignity.

[uma vez tendo a natureza removido a casca dura desta semente da qual ela mais intensamente cuidou, quer dizer, o desejo de e a vocação para o livre pensamento, mais esta semente opera nos modos de pensamento do povo, mais os homens tornam-se cada vez mais capazes de agir em liberdade. Enfim, o livre pensamento age até mesmo nos fundamentos de governo, que percebe que pode se beneficiar em tratar os homens – que agora são mais do que máquinas – de acordo com sua dignidade.]

Relendo o capítulo sobre imaginação e representação, no entanto, me passou pela cabeça que o FKT pode ter sido profundamente injusto com os empiricistas quando diz que a modernidade nega a imaginação. É certo que Spinoza vai colocar a imaginação como relacionada com fantasmas, com ilusões. Mas me parece um exagero tremendo dizer que Hume vai fazer isso, até porque Hume vai apelar para aquilo que a turma tem chamado de Besire – Beliefs with Desires -; inclusive, andei lendo sobre desejos de primeira e segunda ordem em Hume (!!!) e o papel da imaginação nisso parece ser bem grande – desde que tu tenha evidências para suportar tuas imagens, tá tudo legal. Quanto ao Kant, bem, não sei. A crítica do juízo é um livro complicado, para dizer o mínimo, e tu pensar nesta questão da linguagem e da semântica que não são ligadas à algum processo representacional-imaginário é meio estranho. Mas isso seria coisas para o distropia (estou usando o blog para bloco de notas, ok? tá tarde, compreendam).

Sim, são vinte para as quatro da matina, eu tava jogando Xadrez e lembrei destas duas passagens. Deve ser por isso que perdi quando inexplicavelmente movi uma torre para comer o cavalo e perdi a rainha para um bispo maldito. Computador fica jogando na defesa, odeio muito.  Também, fazia tempo que não colocava coisas “sérias” aqui, e é bom dar uma variada antes que eu perca todo e qualquer resquício de respeito em consequência das coisas que discutimos por aqui.

Comments
4 Responses to “Consequencias diretas de ler Foucault?”
  1. paulo disse:

    Ao ler isto lembro-me das aulas de Filosofia no Colégio Militar de Salvador nos idos anos de 1970.
    O bnome do prfessor era DAVI. Agora ,imagine um professor de filosofia tentando ensinar a diferença entre o Bem o e o Mal para baianos de não mais que 17anos.
    Saber a diferença entre um raciocicínio certo ou um silogismo era muito difícil. Que me lembro passava horas decorando as palavras para escrever sem colar ,que o qe todos faziam ,e que o professor sabia.
    Na realidde depois entendi. Ele queria que vc explicasse os conceitos com suas palavras ,nunca copiar.
    Foi um Grande Ençinamento( copiei de LULA!)

  2. paulo disse:

    Mas que é difirciu entender o que vc escrevinha é

  3. paulo disse:

    Cavlo não se come ,se monta tchê!!!!

  4. G.D. disse:

    “disse um pouco melhor”?

    bah…

    Muito melhor. Alias, DISSE, porque, sou obrigado a ADMITIR, nessa passagem o careca simplesmente ARRODEIA(sic) e nao sai do lugar.

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