Diferenças

Ano passado o livro do Peter Gay virou minha cabeça com relação à algumas questões do movimento que hoje chamamos de “esclarescimento”. Claro, são coisas que a gente sabe – de uma forma ou de outra – mas que acaba esquecendo na ânsia de leitura. A principal destas questões é como o movimento alemão (Kant-Hegel) foi um movimento isolado, e eminentemente acadêmico. Os principais autores intelectuais do movimento na frança e na inglaterra foram perseguidos,  tiveram que fugir (caso do Rousseau) e estava preocupados com questões correntes (de um lado, Ricardo e de outro lado Mill inventaram a filosofia econômica para dar conta de um mundo que tava mudando diante dos olhos deles).

O que mais chama a atenção é o potencial reacionário que as filosofias políticas de Kant e Hegel apresentam quando a gente coloca elas lado-a-lado com Mill , Bentham ou mesmo Hume.  Ainda assim, todos estes autores se preocuparam com questões políticas do tempo deles, e foram capazes de nos oferecer algumas alternativas interessantes. Não existe, exatamente, um autismo político por parte de Kant – ainda que a gente prefira ignorar certos trechos da doutrina do direito, especialmente aqueles sobre casamento e/ou o papel da mulher na sociedade. Justiça seja feita, Bentham escreveu coisas bastante constrangedoras sobre pederastia e a fragilidade emocional da mulher.

Mas estou me afastando do meu ponto principal. Ainda com todos seus problemas, Bentham é de uma clareza analítica e de uma capacidade de antecipação magnífica. As questões de direitos dos animais, igualdade formal e welfarismo são colocadas por Bentham e exploradas de uma forma que ainda repercute hoje. Se comparamos a doutrina do direito de Bentham e Mill com aquela de Kant e Hegel, o desgaste da doutrina alemã salta aos olhos. Enquanto Bentham destrói a doutrina do direito natural em quatro frases, Kant precisa de metade da doutrina do direito para justificar porque ele não vai reproduzir a ordem jurídica alemã, apenas para nos premiar com 400 páginas de pietismo. Hegel, ao falar da indivisibilidade do casamento, nos remete logo depois para a beleza da reprodução da ordem social eclesiástica na ordem social familiar. Mill estava preocupado, por sua vez, em como proteger a mulher em caso de divórcio. Existe este abismo entre a filosofia continental e a analítica, que parece presistir até hoje, nas questões de filosofia prática. Ou filosofia social, se é que isso (qualquer uma das anteriores) existe.

Estudando questões de Rational Choice e Formal Theory, estas coisas todas estão voltando para a minha cabeça. Explico: comecei na filosofia com um background pesado em Hare. O que eu sabia de filosofia, ao entrar no mestrado, poderia ser resumido como a filosofia da linguagem do Peirce, um pouco de utilitarismo clássico, um tanto de utilitarismo contemporaneo, uma (má) leitura de Habermas, uma (péssima) leitura de Kant e uma (terrível) fascinação por semiótica do Umberto Eco. Com o tempo, deixei de lado estes interesses. Embora eu nunca tenha de fato ambandonado R. Hare. Mas vamos lá: porque estas coisas estão voltando?

Fico pensando até que ponto não estamos reproduzindo, hoje, um tipo parecido de contraste. De um lado, temos uma preocupação forte por questões de análise formal. Uma filosofia política que se ocupa das questões que interessam para a sociologia, para a antropologia. É nítida a mudança de discurso que A Teoria da Justiça causa nas sociais no estados unidos. Assim como a Teoria do Agir Comunicativo vai causar nas sociais na Europa. Estes dois livros vão estar situados mais para a tradição Anglo-saxônica, para horror dos Frankfurteanos, que exigiram a carteirinha do Habermas de volta. Os Frankfurteanos são, por sinal, o meio de campo neste meu exercício mental. Na outra ponta, temos os, como chamá-los? Fenomenólogos? Mas eles não fazem fenomenologia! Místicos? Mas eles não fazem – pelo menos não declaradamente – Teologia! Ok, vamos apelar. Vamos chamar eles de pós-modernos.

Legal.

Bueno.

Dê o nome de um livro da chamada “pós-modernidade” que tenha tido efeitos perceptíveis na doutrina social. “Já sei! ‘A história da loucura'”. Ok, teve, em 1968. Foi até bem fundamental para a mudança de tratamento em algumas instituições psiquiátricas. Mas “Um estranho no ninho” também colaborou. Tu tá pronto para chamar o Ken Kensey de filósofo?

(tempo para pensar)

(sim?)

(ok, para de ler agora. não tenho nada para te dizer).

(não?)

(beleza, segue comigo)

A desgraça do Foucault é que ele foi falsificado por todo o zé-mané que se meteu a verificar os dados que ele apresenta nos livros dele. Qualquer maldito estudante de sociais pode verificar as hipóteses do Foucault. Uma por uma. Usando métodos de análise quantitativa. E uma-por-uma as hipóteses são impossíveis, não-verificáveis. O que se convencionou chamar “chute”. Enquanto isso, a gente consegue continuar aplicando os modelos do Rawls em cenários de Rational Choice. A gente consegue testar as hipóteses discursivas do Habermas.

O que me leva aos Frankfurteanos.

Verdade seja dita, de todos os problemas dos Frankfurteanos, ignorância sobre as questões sociais nunca foi um deles. Tu pode acusar eles de pegar um método que tu goste menos do que o outro. Tu pode acusar eles de ler um fenômeno de uma forma mais ou menos equivocada. Mas tu não vai chegar para mim e dizer que o Marcuse não sabia fazer uma análise de conjuntura, porque daí eu vou ter que comprar uma discussão contigo.

Mas é curioso que os Frankfurteanos, capitaneados pelo mesmo Habermas ali de cima, tenham se afastado radicalmente da filosofia continental pós-Husserl! E convenhamos, pós-Husserl, porque não podiam sequer aceitar Heidegger. Não podiam sequer suportar as consequências nefastas daquela análise de mundo. E ao mesmo tempo, os Frankfurteanos precisavam fazer sentido de um mundo que desabou diante do nariz deles (oi, o socialismo soviético faliu. O socialismo europeu faliu. O socialismo asiático faliu. Derrepente este papo de socialismo não era uma idéia lá muito boa, néhn?). Solução? Os Frankfurteanos foram dialogar com os analíticos e alguns pragmáticos, e deixaram os “pós-modernos” falando sozinhos. Ou tu acha que o Honneth tem algum uso para Derrida e Levinas? Acho que o termo que ele usa no “”Disrespect” é ‘generalizações abstratas sem qualquer sentido’.

Isso significa que o liberalismo saiu vitorioso e que este é o fim da história? Claro que não.

Mas tem algo de muito errado neste papo de simulacro, neste papo de retorno para a poesia. Em uma filosofia que controntada com o fracasso do socialismo soviético e o horror dos campos responde com uma radicalização do discurso sobre abstrações, com uma negação reacionária dos benefícios que o processo de esclarescimento trouxe para a gente e com uma negativa Nihilista da ordem normativa. E qual é a alternativa, mesmo? Porque ela não pode ser a proposta marxista. Esta proposta acabou, foi embora. Subiu no telhado, abriu os braços, tentou voar, caiu na direção do chão e faleceu. A gente pode tentar de novo, mas o experimento inicial parece nos dar evidências suficientes (eu diria quase irresistíveis) que a reprodução é um tanto suicida. Não existem alternativas? Bada-bim. Estamos diante de um anacronismo ímpar, então. Minha contra-proposta é: vou te criticar!

Legal. Mas, e aí? O velho Reagan ganhou uma eleição humilhando o candidato do outro partido ao perguntar “Where’s the beef?”. Que é republicanês para: “Tá, e daí?”. Não gosto do Reagan, acho ele um bosta. Um bosta simpático. Mas ainda assim, um bosta. De qualquer sorte, a pergunta continua relevante. E ela nos coloca numa posição complicada, que é a de eleger um bosta, porque não conseguimos responder “Where’s the beef?”.

O turn metodológico na filosofia do conhecimento representado por Husserl e Heidegger teve repercussões enormes, e algumas delas extremamente profícuas. Porque ainda não conseguimos, então, expandir este turn para a filosofia moral e política de forma convincente? Porque NENHUM trabalho de fenomenologia social ou ontologia social continua tendo repercussões testáveis nas sociais aplicadas? Parece que é isto que a nossa geração de pesquisadores em filosofia continental tem que se perguntar. Pelo menos é o que eu vejo como a contribuição para ser pensada: como criar uma guideline para pesquisa, para orientação metodológica, que possa de fato contribuir para o mundo lá fora para além de como pensamos abstrações acerca da nossa capacidade de compreender o mundo lá fora.

(ou, se pensarmos abstrações acerca da nossa capacidade de compreender o mundo lá fora é o nosso max-mini, e se a gente fizer este mini bem feito, a gente vai ter feito um bocado de coisa. Me parece que isso pode ter sido a conclusão do Heidegger, e eu não sei se eu gosto de onde isso foi levar a filosofia dele no fim das contas).

Comments
3 Responses to “Diferenças”
  1. Marcelo disse:

    Li este post as 5:15 de segunda feira. Enchendo linguiça na dissertação. Literalmente.

    Ao som do disco Rain Dogs do Tom Waits.

    Não entendi porcaria nenhuma do post.

    Mas o véio Tom é muito foda. O câncer de pulmão, o alcoolismo terminal e as múltiplas lesões na traquéia devem ter doído. Mas valeu a pena pra deixar a voz desse jeito.

  2. G.D. disse:

    Explique, por gentileza, COMO a gente conseguiria “verificar” hipoteses habermasianas como aquela (N. do E.: minha opiniao) PAPAGAIADA sobre comunicacao-discurso acarretando em verdade-consenso em parametros de “sinceridade” de expressao.

    Minha leitura (ruim, admitidamente) do “Agir comunicativo” me embaralhou mais do que ajudou, e me pareceu algo meio desconectado do “real” (palavra cada vez mais estranha).

    PS: os “britanicos” utilitaristas realmente encantam por esses aportes descritos.

    PS: Tom Waits HUMILHA, de fato.

  3. É que tchê tu pode tentar verificar aquelas hipóteses. Tu consegue reproduzir em um grupo, com uma amostragem diversa, as condiçòes que Habermas coloca para o agir comunicativo, e tu pode verificar como as partes vão, de fato, agir.

    [Se]
    Elas vão agir com relação ao princípio D e U, conforme expressado para elas antes do início do jogo
    [Se]
    As escolhas delas vão ser consistentes com estes princípios
    [Como]
    As escolhas delas vão ser consistentes com estes princípios.
    [Quando]
    Estas pessoas vão procurar um modelo de colaboração argumentativa e [se] esta colaboração vai implicar em resultados que todos os membros daquele experimento podem identificar como “somehow fair”.

    Me explica, por outro lado, como tu faz isso com a loucura pela justiça?
    Tu tem como sequer tentar falsificar ela? Tem como testar? Nops. No caso do Habermas, a teoria dele provavelmente seria falsificada. Mas poderiamos pelo menos verificar hipóteses para mudar o jogo que ele tá propondo…

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