O terreno árido do conhecimento

Hume:

Nothing is more dangerous to reason than the flights of the imagination, and nothing has been the occasion of more mistakes among philosophers. Men of bright fancies may in this respect be compar’d to those angels, whom the scripture represents as covering their eyes with their wings. This has already appear’d in so many instances, that we may spare ourselves the trouble of enlarging upon it any farther.

Mill:

All languages and literatures are full of general observations on life, both as to what it is, and how to conduct oneself in it; observations which everybody knows, which everybody repeats, or hears with acquiescence, which are received as truisms, yet of which most people first truly learn the meaning when experience, generally of a painful kind, has made it a reality to them. How often, when smarting under some unforeseen misfortune or disappointment, does a person call to mind some proverb or common saying, familiar to him all his life, the meaning of which, if he had ever before felt it as he does now, would have saved him from the calamity. There are indeed reasons for this, other than the absence of discussion; there are many truths of which the full meaning cannot be realised until personal experience has brought it home. But much more of the meaning even of these would have been understood, and what was understood would have been far more deeply impressed on the mind, if the man had been accustomed to hear it argued pro andcon by people who did understand it. The fatal tendency of mankind to leave off thinking about a thing when it is no longer doubtful, is the cause of half their errors.

Kant:

It is difficult for the isolated individual to work himself out of the immaturity which has become almost natural for him. He has even become fond of it and for the time being is incapable of employing his own intelligence, because he has never been allowed to make the attempt. Statutes and formulas, these mechanical tools of a serviceable use, or rather misuse, of his natural faculties, are the ankle-chains of a continuous immaturity. Whoever threw it off would make an uncertain jump over the smallest trench because he is not accustomed to such free movement. Therefore there are only a few who have pursued a firm path and have succeeded in escaping from immaturity by their own cultivation of the mind.

Sabe, se tu não consegue passar disso… Talvez fosse o caso de tu nem tentar. Sei lá, só uma sugestão.

Eu acho, acho , que é na Antropologia que o Kant fala de aptitudes. Em algum momento, ele para tudo e diz, por exemplo, alguns tem aptitude para seguir ste tipo de discussão, outros não tem. Beleza. É totalmente justo isso, totalmente tranquilo.

Mas se tu vai fazer teoria, camarada… Se tu vai falar de problemas que chamamos de “sociais”, tem um momento que tu tem que te questionar “eu consigo fazer isso, passar pela chatice, pela aridez, pela encheção de saco, pelos colegas arrogantes, pela guerra de ego, pelo achismo, por todos os motivos para, sei lá, virar poeta e largar isso de mão?”

Se a tua resposta é que “nah, prefiro ter uma vida de verdade”. Maravilha, vai em frente.

Isso aqui é um jogo de linguagem violento, enjoado e sacal. Sinto muito.

Claro, tu podes chamares do que tu quiseres. Tu pode dizer que é árido, que não chega em lugar nenhum. Tu pode inclusive denunciar toda inaptitude para lidar com estas questões que necessitam mais do que o papinho semanal no Ossip para impressionar aquela mina que tu queres comer. Nada de errado nisso. Mas não confunde. Se tu não consegue passar disso, não é o assunto que não leva para nada. É tu que é incompetente para lidar com isso.

Assim como eu sou incompentente para fazer poesia, tocar piano e viver uma vida bem-orientada.

Agora eu vou ali jogar Burnout: Paradise Island e pensar no dilema do prisioneiro, que, diga-se de passagem, faz muito sentido .

Comments
20 Responses to “O terreno árido do conhecimento”
  1. Tatiana disse:

    Muito bem escolhidas as citações. :)

    Mas eu cada vez me convenço mais que são raros aqueles que estão realmente interessados nesse tipo de comprometimento que vc descreve, nesse tipo de excercício. Para mim, sinal disso é a resistência que uma grande parte das pessoas que “pesquisam” ciências humanas tem em ler ou se dedicar a qualquer texto ou tema que saia das suas zonas de conforto. Lógica? não-não. Matemática? Nem começam a ler. Perspectiva filosófica/política ligeiramente diferente da deles? Rotulam com um adjetivo bem desagradável antes mesmo do final da introdução. Mas ao mesmo tempo, seguem criticando e escrevendo sobre deus e sua época. É complicado, é desmotivador, é frustrante, e sobretudo, é triste.

    Mas como aquele teu colega disse (e eu peço licensa para adotar a expressão :) ), são pesquisadores de orelhas de livros. Quando vc se dá conta disso, credibilidade vira um “issue”, como dizem os americanos.

    De novo, excelente post. :)

  2. Habkost disse:

    saindo de lado, eu gosto de comer minas com o papo pseudo-intelectual-de-mentirinha-baitola.

    tipo eu não sei nada de kant, nem desses caras, mas tu fala de heidegger e as menininhas se molham.

    pelo menos existe honestidade neste campo: ninguém espera mesmo que eu tenha lido ^^

    post bem legal, gosto deste tipo de desabafo

  3. Sabe, o problema todo é o Heráclito.

    Ele com aquele papo de “os deuses também moram aqui”, e tal.

    Ele devia ter dito, “os deuses também habitam aqui, MAS NÃO FODE”

  4. ok, falando sério.

    Se tu for ver, é que a gente tem uma tradição professoral. O que é bom. Só que a gente não sai disso. Daí tu tem esta coisa da “zona de conforto”. O Draiton sempre dizia, quando tinha uma coisa mais fudida sendo apresentada, “isso também é filosofia”. Acho que é por aí. Tu não tem como comprar só uma parte do pacote, assim como tu não tem como ser MEIO rigoroso. Ou tu é rigoroso, ou tu não é.

    Pega um ensaio como Estrutura e Genesis, do Derrida. Aquilo para mim é um excelente exemplo de RIGOR. O cara vai para a base do negócio e faz uma análise genial dos pressupostos de um texto.

    Tu não tem como fazer aquilo sem ter uma noção global do assunto que tu tá lidando. E é isso que quebra minhas pernas. Não tem como ficar usando palavrinhas de ordem, entrar no discurso-de-dicionário-filosófico e achar que tá fazendo GRANDE MERDA.

    Tipo aquela minha colega ontem, chapada de remédio, nos encontrando na lavanderia:
    “nao, porque tu sabe que tem este tratamento para HEROINA, que é feito por uma universidade de NEW ORLEANS, que tem uma base em JUNG e na questao da CONSCIENCIA, e eu queria comparar ISSO com FOUCAULT e a questão do DUPLO EMPIRICO, mas eu NAO SEI, pq na realidade este TRATAMENTO para HEROINA é uma coisa que eles fazem assim, baseados em JUNG mas poderia ser FOUCAULT, mas eu NAO SEI, dai eu tava
    eu tava PENSANDO nisso né, porque tu JÁ VIU que a HEROINA e FOUCAULT, né? e ESTAS COISAS ASSIM”

    Tipo, tu vai lá, coloca FOUCAULT DROGAS SELF DUPLO EMPIRICO. E bada-bim!

    Questionar daonde isso vem? Nah, difícil.

    Daí o cara se acostuma com este debate típico do Ossip, “bah meu, li o Foucault ontem, e é real, cara, este lance das políticas das drogas e tal. Tu sabe se o pessoal tá vendendo docinho ali atrás do opinião hoje? Vamo comprar umas bala e ver Estrada Perdida!”

    Tudo bem, mas depois não vem me dizer que o que a gente faz é sem-sentido, árido, chato e o caralho. Pode até ser todas estas coisas, mesmo. Mas, é isso que torna o que a gente faz diferente de um papo de guri no Pisso.

  5. Habkost disse:

    Eu não gostei da crítica ao estrada. o estrada é um clipão afú, com momentos tétricos e engraçados. “ligue para mim” “eu disse que estava aqui”.

    Cara, entendo o que estás dizendo. Traduzindo em muídos, tu estás colocando que tu fica puto da cara quando um idiota qualquer vai se meter de pato a ganso na tua área, e fala merda. E estás me dizendo que, eventualmente, até os grandes cagam.

    Entendo perfeitamente. É como dizer que direito do trabalho é sério, e que direito de família é softcore.

    Li o que tu postaste como um desabafo de alguém que está vendo que não é bem assim para ser realmente bom na área que escolheu, que não é fácil saber lidar com isso. Na boa, isso é um grande passo p’raquilo que tu queres.

  6. A critica nao foi ao Estrada. A critica foi aos panacas que compram docinho no estacionamento atrás do opinião e vão ver David Lynch para ABRIR A CABEÇA, VÉI

  7. Habkost disse:

    eu sei, animal.
    eu te conheço o suficiente pra saber que na faculdade éramos nós no ossip. só que sem o docinho. só que sem as gurias.
    aliás, éramos nós no maza.

  8. nunca entre no Ossip na minha vida.
    MINTO.

    fui lá uma vez
    um imbecil começou a falar de um monte de coisa em Kafka, que qualquer um que tenha lido kafka sabia que não era kafka. fiquei puto das calças e fui embora.

    na faculdade era nós no maza, no Espiral, no Van-Ghogh e no fim-de-século.

    Isso fazem dez anos, tiago.

  9. Habkost disse:

    nós ficamos mais bonitos com o tempo

  10. ô. principalmente o Ferrari.
    se bem que o Ferrari sempre foi gatão.
    (ok, vamos manter isso aqui sério, este foi o fim do interlúdio nostálgico, ok? OK.)

  11. Habkost disse:

    Mas eu venci do alemão no street versus x-man. Com o Juggernaut

  12. Em um evento onde até a segurança da PUC foi mobilizada. Mas sério, pô. Primeira discussão séria EM MESES neste blog e a gente tem que avacalhar, né?

    Porra, a gente é foda :P

  13. Habkost disse:

    tá, tá

    mas uma coisa me incomoda.Eu entendo que o sujeito é rigoroso e pá, mas como, nesta altura do campeonato nós ainda não temos aquelas respostas definitivas e pá?

  14. porque se tu chega na resposta definitiva, tu fez alguma coisa errada.

    é tipo o Hegel, no final da lógica.

    ACABOU, a filosofia ACABOU aqui.

    TCHAU.

    daí a gente é premiado com Marx, e fica se perguntando porque.

    A premissa básica do que a gente faz é que não tem resposta definitiva. Isso é um troço que tanto alguém quanto o Gadamer quanto alguém quanto o Popper são capazes de entender.

    Não tem pesquisador que vai dizer que vai SILENCIAR o debate com uma idéia DEFINITIVA. a tua idéia é definitiva, até que ela não é mais definitiva.

    por isso que se tu é um cara responsável, tu trabalha com premissas falsificáveis. Por que é esse o jogo. Se o que tu tá fazendo não é sequer falsificável, tu não consegue elaborar algo que pode ser verificado, falhar e ser revisado, tu não tá fazendo teoria.

    Esta para mim é a diferença fundamental entre teoria e literatura. Um poeta não precisa se preocupar com isso, um cara que faz teoria, precisa.

  15. Habkost disse:

    ah tá.
    entendi

  16. marcosfanton disse:

    Muito bom o post, cara!!
    Essa questão é muito boa.
    Acho que o Stein coloca uma boa denominação para este tipo de filosofia, falando de “filosofia ornamental”: tu falas em filosofia num discurso de formatura, praquela mina q tu ké kumê, prus teus parceirus, pra conversá cum u mendigu q é muuuito afudê, véi, e sabe tuuudo da realidade purquê tá sofrendu, etc.
    E o problema, como tu mesmo apontaste, são os níveis semânticos (vamos dizer assim) que vão se confundindo em um ambiente acadêmico, que, supostamente, teria que ser levado a sério. Aí, tu podes aplicar qualquer filosofia em qualquer lugar e sempre manter aquele bafo de circunspecto.
    Nesse sentido, a princípio, eu veria três problemas grandes aí: (1) trabalho intelectual não é algo para mostrar/exibir como algo que incremente teus sentimentos, isto é, que vire algo por puro prazer intelectualóide imediato (mesmo poesia ou arte, quando é levada a sério) (e uma pessoa que obtenha prazer lendo Kant ou Frege, por exemplo, é de se desconfiar seriamente. [joke:P]); (2) como é possível criar critérios para dar sentido a um texto e dizer que ele, bom, que ele tem sentido?; e (3) que tipo de pesquisa filosófica seja interessante não apenas para o âmbito filosófico, mas que faça sentido também para outras áreas?

  17. (2) Para mim, rigor semântico é o caminho. Tu dá as condições do teu texto, e o teu texto segue estas mesmas condições impostas para ele.
    (3) A contribuição aí é tu conseguir fazer a ponte entre o teu saber teórico-epistemológico e o tema-aquele-específico que tu queres contribuir com uma determinada colocação. Aquela história: já estudou matemática? Não? Então não te mete com filosofia da matemática. Já teve num hospital? Já viu a rotina de uma emergência? Sabe como funcionam estas merdas? Não? Então não te mete com bioética.

    E por aí vai.

  18. Habkost disse:

    tá, pera lá. então eu só posso pensar sobre alguma coisa que eu tenha pensamento empírico, como no caso a bioética?

  19. Habkost disse:

    opa
    disse errado e me confundi
    o que eu quiz perguntar é o seguinte:
    só posso falar daquilo que tenho experiência real, como no caso da bioética e o hospital?

  20. não sei se tu só pode FALAR, mas ajuda se tu tiver experiencia. Especialmente na tua capacidade de teorizar sobre o assunto.

    É tipo, digamos, falar sobre polícia. Tu gostaria que o cara que comanda a política de policiamento fosse um poeta? Não, tu gostaria que ele fosse alguém que já tivesse colocado o cu na reta para levar tiro alguma vez na vida, correto? Até por uma questão de saber o que tá em jogo.

    Claro que existem GRAUS nesta cachaça. Mas tem um momento que tu precisa ter alguma dimensão da prática do que tu tá falando. Se não tu acaba sendo o Bisol na secretaria de segurança, dizendo que o problema da polícia é o uso de cuturno. Ou um tecnocrata, achando que PDV para serviço público vai ajudar a moralizar alguma merda.

    Tem que ter alguma dimensão prática do que tu tá falando, especialmente se as coisas das quais tu teoriza têm uma dimensão prática perceptível – e é difícil achar um troço que não tem. :)

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