Obliterando o Intolerável

Dica do Walter, este artigo sensacional do Riker, que dá aula aqui pertinho, na Vanderbilt (que certamente visitarei, e onde procurarei o posto da nossa querida governadora Yeda, que de certo deve ter sido honrada por aquela instituição que um dia lhe deu um mestrado)

Estou terminando meu texto sobre Rational Choice, e quero ver se trabalho mais um pouco nesta questão da necessidade de obliterar o intolerante.  Ler sobre questões do dilema do prisioneiro, maximização de racionalidade e testes que matematizam condutas tem me convencido que é importante evitar a entrada na situação limite. Parece que a proposta de alguém como Rawls é justamente esta.

A questão é, se tu não está disposto a maximizar os teus interesses individuais para que eles sejam ao mesmo tempo capazes de incluir outros interesses, sem serem impostos aos outros, tu está em uma posição decente, e tu é capaz de participar destes processos de escolha social – feitos publicamente – de forma mais agregadora. Do contrário, tu te coloca nesta situação que é potencialmente de “prisioneiro”, ou seja, tu presume o teu interesse individual e é incapaz de maximiza-lo. Neste sentido, a construção da “paz” (sempre entre aspas) é possível apenas se tu obliterar este indivíduo de alguma forma. Seja isso através de mecanismos pedagógicos, ou, como é mais comum, na base da violência.

No fim das contas, a pergunta segue sendo aquela velha pergunta da modernidade. Com quem a gente fica? Com Hobbes ou com Rousseau?

Comments
12 Responses to “Obliterando o Intolerável”
  1. Tatiana disse:

    O link pro artigo está quebrado.

  2. Valeu, vou tentar arrumar. :/

  3. Tatiana disse:

    Sobre a contenda Hobbes x Rousseau: ambos são pensadores interessantes demais, e eu entendo o porquê da tua contraposição dos dois.

    Todavia, uma pergunta (que talvez seja prematura, tendo em vista que vc ainda nãopublicou o seu texto): como lidar com o pessimismo do Rousseau? Pq vc diz ali que “é importante evitar a entrada na situação limite. Parece que a proposta de alguém como Rawls é justamente esta”, mas me parece que, lendo O Contrato Social, o Rousseau aponta para a inevitabilidade de, mais cedo ou mais tarde, se atingir essa situação limite, ou, em termos mais rousseaunianos, uma degeneração do governo (“AS the particular will acts constantly in opposition to the general will, the government continually exerts itself against the Sovereignty. The greater this exertion becomes, the more the constitution changes; and, as there is in this case no other corporate will to create an equilibrium by resisting the will of the prince, sooner or later the prince must inevitably suppress the Sovereign and break the social treaty. This is the unavoidable and inherent defect which, from the very birth of the body politic, tends ceaselessly to destroy it, as age and death end by destroying the human body.” livro 3, capítulo 10).

    E aí?

  4. Pois é. Kant teve que escrever toda a filosofia política dele para responder esta questão.

    Mas parece que estas vontades particulares agem contra o governo porque não se sentem mais representadas pelo poder público, que adquire uma espécie de vontade própria.

    A questão aí, vira uma de maximização da vontade individual e representação dos interesses desta vontade maximizada. Isso é o que a gente vai chamar de Razão Pública.

    Por isso, também, sistemas contemporaneos de democracia vão ter alternancia no poder, o que garante a votação sobre a representatividade do governante – pelo menos formalmente.

  5. Tatiana disse:

    Tu pensa essa “razão pública” como um antídodo a um individualismo radical? E como é que ela se instaura e se sustenta? E por “maximização da vontade individual” vc quer dizer o que exatamente? Um,a generalização dos resultados das vontades/condutas individuais, um imperativo categórico?

    Pq para mim o problema segue sendo o mesmo representado pelo dilema do prisioneiro – ainda que vc saiba que cooperando vc vai atingir resultados melhores (2,2)do que aqueles que vc consegue via não-cooperação (1,1), como é que vc supera o medo da defecção do seu oponente/parceiro de jogo, e a possibilidade de acabar, aí sim, com a pior alternativa possivel (0,3), e não simplesmente a terceira-melhor (1,1)?

  6. mas aí que tá, no dilema do prisioneiro isso acontece porque as partes estão sendo, se tu segue uma concepção pública de razão, irracionais.

    Vamos voltar pro Arrow, faz uma lista das tuas preferências {4Z.3Y.2X.1A}. Agora, tu SABE qe se tu colaborar tu alcanças “y”, caso contrário “x”. Só que aqui, nem X nem Y podem ser decisivos SOZINHOS para o resultado racional, apenas juntos. Por isso eles precisam maximizar suas condutas no sentido de colaboração, e presumir a racionalidade da outra parte.

    Vamos transportar isso para um cenário social.

    Tu consegue fazer isso se tu tem uma confiança mínima nas pessoas com quem tu divide o convívio social. Nós TEMOS este tipo de situação em convívio social. Claro, tu tambem tem situacoes onde as partes se comportam de forma irracional.

    A aposta aqui é que quanto mais condições gerais – materiais – de prática democrática tu der para os indivíduos, ou seja, quanto mais o poder público corresponder às concepções individuais de bem que foram subsumidas em uma grande concepção pública, mais o teu comportamento vai poder ser “maximizável”. Por que tu sabe que o outro indivíduo tem uma potencialidade grande de também colaborar. Do outro lado, se tu não sabes das condições materiais deste indivíduo, e de como estas condições materiais implicarem em uma decisão racional [colaborativa], a possibilidade de tu maximizares tua ação é mínima. Porque tu arrisca perder tudo.

    No meu cenário, portanto, as condições materiais colocadas pela sociedade onde o individuo PERMITEM a ação racional. Sem estas condições materiais mínimas, tu não consegue, e daí sim, tu te larga no dilema do prisioneiro com tudo.

  7. Tatiana disse:

    Sigo sem entender direito esse teu conceito de uma “razão pública”. é aquela pergunta que o Clinton te fez em aula: como é que vc pode ter uma razão “pública”?

    No meu entendimento, a grande sacada da escolha racional é justamente mostrar que ações individuais racionais, quando agregadas para o coletivo, podem resultar em escolhas sociais irracionais. Mas isso, ao meu ver, não significa que os indivíduos, eles mesmos, agiram irracionalmente.

    No dilema do prisioneiro os indivíduos estão agindo de maneira completamente racional, mas individualmente, e justamente por não conseguir antecipar a ação do outro, optam por agir unilateralmente, de maneira egoísta, ou não cooperativa. Mas não irracional.

    Me parece exagerado dizer que o individuo só é efetivamente racional quando ele age cooperativamente.

    E ainda assim, como vc disse: ainda que se invistam em condições materiais que possibilitem uma pratica mais democrática, tudo isso segue sendo uma aposta.E aqui parece interessante lembrar da resposta institucional do Hobbes, não? O soberano, fora do contrato, que inibe a defecção. Mas daí deixamos o terreno democrático. Será que é possível pensar em mecanismos democráticos efetivos de inibição de defecção?

  8. ok, em termos de xadrez, tu me encurralou agora.
    Porque tu apelaste para o Hobbes.

    Mas Hobbes tem uma compreensão de indivíduo que diz que indivíduos NÃO VÃO colaborar. EU tendo a seguir com Kant, e mais contemporaneamente com alguem como o Rawls, e dizer que “não, eles podem colaborar, desde que as condições materiais para a colaboração sejam providenciadas”.

    Mas, se tu PRESUMIR a não-colaboração, tu vai agir de forma IRRACIONAL. Ela é irracional porque tu está causando a tua TERCEIRA preferência, quando tu poderias agir para atingir tua SEGUNDA. Mas a ação pela SEGUNDA presume a colaboração dos demais que estão no dilema.

    Tu tem, é claro, mecanismos democráticos ou menos democráticos, de controle de ação individual, para evitar que neguinho vá dar com a cabeça na parede e leve todo mundo com ele. É um dos muitos motivos pelos quais policiais costumam carregar armas.

    Outra coisa, eu não sou um demente para afirmar aqui que a razão pública é ACTUALLY EXISTENT. Mas ela tem relevância, uam vez que apenas quando tu age de forma maximizada tu consegue atingir o efeito racional.

    Claro, isso tudo presume um campo político minimamente decente, o que nos leva para as condições do Estado, e a construção das condições do Estado. Mais uma vez, eu volto pro argumento da construção prévia de concepçoes privadas de bem que são subsumidas naquela concepção pública que nos diz o que pode ou não pode fazer.

    Ok, eu acho que tô andando em círculos aqui.

  9. Em tempo, o artigo do Rawls “public reason revisited”, vocês podem ler aqui:
    http://www.hartsem.edu/academic/courses/summer2009/Idea%20of%20Public%20Reason%20Revisted%20(Rawls).pdf

  10. Tatiana disse:

    Eu entendo o que tu estás querendo dizer, mas me parece que tem alguma coisa que não esta encaixando bem…

    Mas agora tu me deixou pensando se o dilema do prisioneiro não pressupõe necessáriamente um entendimento hobbesiano de indivíduo, e logo, se não faz pouco sentido falar do dilema do prisioneiro quando vc está fora do paradigma hobbesiano.

    De qualquer forma – não me parece injusto trazer o Hobbes, tendo em vista que vc mesmo o citou no post. Compõe a discussão, né? Como tu mesmo disse, no final a gente se posiciona, seja num campo ou no outro…

    :P

    Boa discussão, Bixo!

  11. Moche disse:

    Eu acredito que toda modernidade está enclausurada em uma antropologia filosófica de raiz metafísica e que parte das discussões — por exemplo, uma certa vinculação do ser humano com a idéia de (auto-)interesse, contrato, indivíduo e troca — em torno de fenômenos absolutamente contingentes. Quer dizer: tudo isso é uma invenção histórica que cumpre seus efeitos, mas é contingente, podemos quebrar todas as premissas sem problema algum.

  12. Ok, vamos lá.

    Toda a modernidade? Todinha? Desde quem? Descartes era moderno? E Agostinho?

    Tá, mas isso é besides the point. E creio se além do TEU ponto também. Então deixa eu tentar entender o que tu estas colocando.

    Bueno, a modernidade é uma invenção histórica que cumpre seus efeitos. Mas ela também é contingente. Logo, podemos quebrar todas premissas (contrato, individuo, troca) sem problema algum

    Alguns problemas nesta sequencia. Primeiro, se a necessidade cumpre seus efeitos, ela não é contingente. Ela é suficiente. Neste sentido, se ela cumpriu seus efeitos históricos o seu projeto (de contrato, indivíduo, troca) já foi realizado, de forma que a quebra das premissas torna-se impossível, já que o efeito desejado já foi alcançado.

    Claro, exceto se presumirmos que a modernidade, ela mesma, nào é unívoca. E é justamente isso que eu e Tatiana estávamos discutindo. Dentre tantos lados, temos a compreensão Hobbesiana de indivíduo, oposta à compreensão de Rousseau, e finalmente Kant. Entre este trinomio, qual é a compreensão que tu queres usar? Nenhuma? Beleza.

    Creio que é jsutamente o sentido do início da tua intervenção: “a modernidade está ENCLAUSURADA em uma ANTROPOLOGIA FILOSÓFICA de RAIZ METAFÍSICA”

    “A modernidade”, este fenomeno unívoco, está presa (por ser unívoca) em uma antropologia filosófica (comum à todo o fenomeno moderno) e que por sua vez tem uma RAIZ (um fundamento, portanto) metafísico (qual tipo?).

    Pois bem, não discordo de tudo que tu disse aí. Por exemplo, é CLARO que a modernidade é uma invençã histórica. Mas por outro lado, ela não acontece porque um bando de barbado virgem resolve que ela vai acontecer. Ela é uma contingencia histórica, mas que na sua realização é necessitada enquanto um evento.

    Como a gente faz sentido disso, através do uso desta ou daquela referência à esta ou aquela concepção. Seja ela substancialista, como em Rousseau, Nominalista, como em Hobbes ou Kantiana, como em Kant… sao formas de ver um troço, e de fazer sentido disso.

    No fim das contas, também é um pouco de entender algo sobre estes dilemas que a gente vê lá fora, e que precedem o fenomeno moderno, diga-se de passagem. Ou não tem dilema do prisioneiro na caverna?

    E para além disso, as cidades de refúgio, do Derrida. Elas não estão exposta à este mesmo dilema na sua super-inclusão? Afinal, ao incluir o intolerante, eu abro para a individualização radical , e me aproximo de um grupo que todo querendo (B,W), acaba criando (T,T).

    Ou estaria em jogo também em Derrida uma necessitação da ampliação do alcance da igualdade formal através do respeito à diferença? Uma articulação de princípios universais com princípios de diferença material?

    Opa, pera aí. Isso soa como algo que conhecemos.

    Ah é, isso é moderno. Isso soa como Kant.

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