Blackburn sobre Heidegger

To understand what is going on, I believe, you need to know a story. Perhaps it is the story – the primal story. It tells of a primordial golden age, when man was united with himself, with his fellow man, and with nature (home, hearth, earth, fatherland, paradise, shelter, innocence, wholeness, integration). Then there was a fall, when primitive innocence and unity were destroyed and replaced by something worse (separation, dissonance, fracture, strife, estrangement, alienation, anxiety, distress, death, despair, nothing). To cure this state a road or journey is needed (pilgrimage, stations, way or Weg, Bildung, action, will, destiny). The way may need a leader, and the leader is the philosopher of Plato’s myth, who first ascends from the shadows of the cave to the sunshine above (seer, prophet, poet, hero). There is a crisis, and then a recovery of primordial unity itself (encounter, epiphany, authenticity, transcendence, apocalypse, consummation, marriage, jubilation). This may end the story, at its beginning, or the path may spiral on upwards, its travellers fortified by the necessary sufferings of the journey.

In the story, the world, and life itself, need interpretation, because they are the unfolding of a script, the writing of the world-spirit (tidings, message, hermeneutics). And the whole drama is figured not just in the life of an individual, but in universal history, or at least the history of the race. The story is a history of Prometheus or Hyperion, or the Prodigal, or Pilgrim, or the Artist, and it is also a history of the evolution of Man or of Dasein, or of the Geister.

[…]

Heidegger’s claim to genius was allowed because he grafted onto phenomenology a vague version of the primal story. He celebrates the primordial unity, which like many German Romantics he associates with Greece, and which for some private reason he locates among the Presocratic philosophers. He laments the fall that has plagued philosophy, science, and everyday life ever since. And he promises the ecstatic recovery that sets eternity into time, the mystical moment in which, as his favorite poet Hölderlin said, “the imperishable is present within us.” In the end the romantic epiphany is to be consummated, the false categorizations of fallen nature are lifted, and wordlessly the seer confronts the underlying realities of Being. But, heavens, the dangers on the way! For Heidegger is clear that there are risks and perils in attempting to eyeball Being. Wrestling, venturing, confronting, colliding, seized, and always alone, what a hero he is, this fearless Wanderer above the Seas of Mist!

Barbaridade.

Traduzindo:

[Para entender o que acontece, creio eu, tu precisas de uma historieta. Talvez aquela historieta – a historieta primaria. Ela conta de uma era de ouro primordial, quando o homem era unido consigo mesmo e com seus iguais, e com a naturez (casa, terreno, terra, patria-mãe, paraíso, abrio, inocência, integridade, integração).Mas então houve uma queda, quando a inocencia e unidade primitivas foram destruídas e sustituídas por algo pior (separação, dissonância, fractura, luta, estranhamento, alienação, ansiedade, tensão, morte, desespero, nada). Para curar este mal-estar um caminho ou jornada se faz necessário (colonização, estação, caminho das árvores, Bildung, ação, vontade, destino). O caminho pode precisar de um líder, e o líder é o filósofo do mito de Platão, que primeiro surge das sombras da caverna e aos raios de sol d’acima (visionário, profeta, poeta, herói). Existe uma crise, e então a retomada da unidade primordial ela-mesma (encontro, epifania, autenticidade, transcendencia, apocalipse, consumação, casamento, júbilo). Este pode ser o fim da hisória, no seu começo, ou o caminho pode iniciar uma espiral para cima, seus viajantes tendo sido fortificados pelos sofrimentos necessários da jornada.

Nesta historieta, o mundo, e a vida mesmo, precisam interpretação, já que elas mesmas são o desvelamento de um roteiro, da escritura do roteiro-do-mundo (ligações, messagens, hermeneuticas). E todo o drama é representado não apenas na vida do indivíduo, mas em uma história universal, ou pelo menos na história da raça. A historieta é a história de Protemeu ou Hyperion, ou do pródigo, do Colonizador, do Artista, e é também a história da evolução do Homen ou de Dasein, ou do Geister.

[…]
A auto-suposta genialidade de Heidegger lhe foi permitida porque ele grafitou na fenomenologia uma vaga versão da historieta primoridal. Ele celebra a unidade primoridal, que assim como muitos dos romanticos alemães ele associa com a Grécia, e que por alguma razão privada ele localiza entre os filósofos pré-socráticos. Ele lamenta a queda que contaminou a filosofia, a ciencia e o quotidiano desde então. E ele promete a estática recuperação que coloca a eternidade para dentro do tempo, o místico momento no qual, como o favorito poeta de Heidegger, Holderlin, disse, “o imperecível é apresentado dentro da gente”.No fim das contas a epifania romantica deve ser consumada, as falsas categorizações de uma natureza caída são então levantadas, e o profeta inmundaneimente* confrontta as escondidas realidades do Ser. Mas, céus, os perigos no caminho! Para Heidegger é claro que existem riscos e perigos na tentativa de encarar O Ser. Lutando, avançando, confrontando, colidindo, tomando, e sempre sozinho, que herói ele é, este destemido Caminhante acima dos Mares de Penumbra!

E finalmente, depois de alguns parágrafos, Blackburn salta a seguinte frase:

[T]he mantras are not expressions of some achieved vision or experience or emotion, but instructions to work one up. They are not the records of a pilgrimage, but a prospectus into which you can inscribe your own detail. The orchestra is only tuning up. So, (…) [w]hen Heidegger presents himself as a prophet out of his time, yet prefiguring the Way for the Ones Who Are To Come, few unbelievers will be reminded of Blake, or even Nietzsche. It sounds utterly trite, more like the script for Obi-Wan Kenobi in Star Wars.

Traduzindo:

[O]s mantras não são expressões de alguma visão, experiência ou emoção conquistada, mas instruções em como trabalhar uma destas. Elas não são relatos de colonizações, mas planos-de-viagem nos quais tu inseres teu próprio caminho. A orquestra está apenas afinando. Então, (…) [q]uando Heidegger se apresenta como um profeta do seu próprio tempo, ainda que prefigure o Caminho para Aqueles-Que-Estão-Porvir, poucos discrentes vão ser lembrar de Blake, ou até Nietzsche. Tudo soa subrepticamente tétrico, mais ou menos como o roteiro para Obi-Wan Kenobi no Star Wars.

Sinceramente, eu acho que é a melhor crítica de Heidegger que eu já li. E também uma das melhores introduções aos conceitos fundamentais da segunda fase do não-pensamento Heideggeriano.

E lá no fundo, tem alguma coisa ainda gritando mas no parágrafo nove de ser e tempo Heidegger escreve que…

Tem um mandamento básico que eu levo comigo desde uma conversa sobre filosofia no prédio 40 da PUC – não conto com quem. Mas foi mais ou menos assim: “olha, tem um momento que tu te irrita, porque o camarada vem falar contigo e diz ‘ah, mas na Lógica, Hegel diz que a questão da contingência blah blah blah.’, E é claro que tu sabe que é isso que tá escrito ali. E é justamente este o ponto! Só que o cara quer continuar discutindo aquilo nos termos da Lógica do Hegel, e esquece que existe o resto da história da filosofia, ou outras disciplinas, que podem ter algo a dizer sobre esta conversa toda”

O mandamento básico, e o Frankfurt vai me entender aqui (Oi Filipe!), é: evite o Hegelianismo de cavalo de rua. Sabe? Cavalo de rua? Que tem que andar com o tapa olho para não olhar para os lados e começar a distribuir coice? Tá, vamos tirar o Hegel. Evite a filosofia de cavalo de rua. Exceto se for para cagar-e-andar (meu deus, esta é a frase da minha vida).

Evite a filosofia de cavalo de rua, exceto se for para cagar-e-andar.

Farroupilha, ilustração já!

Por sinal,  queria mandar um fraterno abraço a todos que chegaram até aqui nesta postagem, elaborada as duas e meia da manhã. Também queria dizer que a casa tá limpa, eu tô me alimentando direitinho, tomando banho todos os dias, tô lendo os livros, escovando os dentes e passando condicionador. Só parei de fazer a barba até a Tati voltar, de forma que somada a barba com o cabelo longo, eu estou cada vez mais parecido com o primo It. Ou com o vocalista de uma banda de southern rock.

Oi, eu sou o Jerry. O Fabricio vai começar a cantar Truckin usando apenas termos de lógica proposicional antes do final do mês, se a coisa continuar neste ritmo.

Comments
4 Responses to “Blackburn sobre Heidegger”
  1. paulo disse:

    Alem das tarefas já relacionadas,tais como,arrumar a casa , alimentar-se e etc….,tensa abastecido a alpisteira cuidado do guaxinins e outros afazeres urbanos-campais?
    Sorte que os vizinhos se mudaram ,pois se as criancinhas sarnentas o visse de baraba grande com certeza iria pensar que és uma INvolução do Pé Grande que retornou a habitar os reconditos de Southern Hills.
    PS Espero que não fique muito parecido com seu primo da foto

    Portanto ,acho de bom tom não abusares para não correr algum risco em termos de sua integridade fisica

  2. Moche disse:

    o segundo Heidegger pode ser bem chato, conservador e até sem pé nem cabeça.

    mas os princípios epocais do qual ele falou são muito mais interessantes que TODA filosofia analítica.

  3. não sei mais nada.

    eu ainda acho que Heidegger tem que responder por ter feito um trabalho que tenta tão desesperadamente se desprender do próprio contexto. E pelo preço que este mesmo trabalho paga por este desprendimento.

    Heidegger, tenho me convencido cada vez mais disso, é um filho mais novo do idealismo alemão – tipo o Frederico. Se ele traz algumas questões importantes para a discussão sobre conhecimento, ele também tem que responder pela sua própria pretensão – aquela, de terminar a filosofia, de achar algo que ninguém nunca-jamais tinha achado, e que no entanto sempre esteve ali.

    Além, é claro, dele ter sido um monstro pessoal e profissional, um homem desprezível. Mas isso é besides the point.

    Sobre a analítica. Não sei se prá achar o Heidegger interessante a gente tem que patrolar toda analítica. Inclusive, acho que o Heidegger hoje, assim como Husserl, está muito mais próximo do que se faz em filosofia analítica do que se faz em filosofia continental.

  4. Moche disse:

    só falei da analítica pra te incomodar :)

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