De como a literatura pode destruir toda filosofia sobre a técnica

Ballard, Crash p. 145

Later, Vaughan explored the possibilities of the car-crash in the same calm and affectionate way he had explored the limits of that young prostitute’s body. Often I watched him lingeing over the photographs of crash fatalities, gazing at their burnt faces with a terrifying concern, as he calculated the most elegant parameters of their injuries, the junctions of their wounded bodies with the fractured windshield and the instrument assemblies. He would mimic these injuries in his own driving postures, turning the same dispassionate eyes on the young women he picked up near the airport. Using their bodies, he recapitulated the deformed anatomies of vehicle crash victims, gently bending the arms of these girls against their shoulders, pressing their knees agains his own chest, always curious to see their reactions.

[Mais tarde, Vaughan explorou as possibilidades da auto-colisão da mesma forma calma e afeccionada com a qual ele tinha explorado os limites do corpo daquela jovem prostituta. Frequentemente eu o observava debruçando-se nas fotografias de colisões fatais, enquanto ele calculava os mais elegantes parametros daqueles ferimentos, as junções daqueles corpos feridos com o para-brisa e o painel. Ele então mimicava estes ferimentos nas suas próprias posturas de direção, lançando o mesmo olhar desapaixonado para as jovens mulheres que ele pegava perto do aeroporto. Usando os corpos delas, ele recapitulava as anatomias deformadas de vítimas de auto-colisões, gentilmente dobrando os braços destas gurias contra os ombros delas, pressionando os joelhos delas contra o seu próprio torax, sempre curioso para ver as reações delas.

Aceito sugestões para a última frase. Achei que minha tradução tá com erro na colocação do pronome, com a palavra, os gramatólogos. Preciso re-aprender esta lingua maldita.

Mas, só para cutucar. O cálculo e o frio da narrativa do Ballard demole com quase tudo que já li sobre técnica e sexualidade. Especialmente sobre dispositivo. Talvez não seja o caso de acusar o dispositivo de acabar com a autenticidade, mas de questionar que diabo de autenticidade é essa? E quem foi que inventou que a gente não consegue viver sem isso?

Alguém pode chegar na biblioteca na PUC e colocar fogo na minha dissertação, por favor? Parece que só tem três cópias.

Crash, definitivamente, é um dos meus romances favoritos.

Comments
27 Responses to “De como a literatura pode destruir toda filosofia sobre a técnica”
  1. Moche disse:

    Mas quem falou em autenticidade?

  2. O Heidegger, oras :)
    Eu tava falando do texto sobre o dispositivo, só isso.

    (nada a ver com teu texto sobre sensualidade :) )

    E eu falei sobre autenticidade, na minha dissertação. Que precisa ser colocada no lixo – urg .

  3. E o fucô também ;)

  4. G.D. disse:

    Vou DENUNCIAR isso ao Conselho de Psiquiatria e vai ser criada alguma Parafilia com teu nome a integrar o proximo DSM.

    Autenticidade?

  5. G.D. disse:

    Alias: prova dos NOVE

    Fale de “Crash” com alguem e vai saber da VERDADE sobre o CARATER desse algum pela resposta:

    a) Ah, o FILME aquele;
    b) Ah, o LIVRO, aquele;
    c) Ah o nome de um Livro que serviu de base para um FILME e que por sua vez ganhou um FILME homonimo que nada tem a ver com ele e que levou o Oscar;
    d) o nome de algum chocolate novo?

  6. Bah. Aquele filme que ganhou o oscar é um HORROR SUPREMO.

    e pensar que Do the Right Thing sequer foi indicado para melhor direção.

  7. marcosfanton disse:

    Bom, cara, pelo menos do teu post tu já podes tirar algo de POSITIVO: tu já conseguiste separar a filosofia sobre a técnica da literatura (da má literatura, no caso dos filósofos, claro).
    Mas, assim, se tu quiseres sentir mesmo algo ruim, e, pior, que não tenta falar sobre técnica, mas fazer filosofia (philosophia perennis), NÃO PERDE o livrinho do Jaspers [fechem os olhos, crianças]: “O homem é a niilidade de um punhado mínimo de poeira no seio do universo sem limites – e é uma criatura de uma profundidade capaz de conhecer o universo, e de abarcá-lo dentro de si mesmo. É ambas as coisas, entre ambas as coisas. Seu ser titubeante não é uma realidade subsistente, residual, determinável”.
    Isso é n-o-j-e-n-t-o. Imagina escrever isso em uma dissertação? Será que vão me sovar? :/

  8. ” O homem é a niilidade de um punhado mínimo de poeira no seio do universo sem limites”

    Eu nao consigo parar de rir.

  9. ” punhado minimo de poeira no seio do universo sem limits”

    mais ou menos tipo um peido.

  10. “punhado mínimo de poeira no seio do universo sem limites”

    tipo uma leitoa grávida.

  11. “punhado mínimo de poeira no seio do universo sem limites”

    puxa, me emocionei. era assim que me chamavam no departamento.

  12. “punhado mínimo de poeira no seio do universo sem limites”

    excelente nome para um filme pornô.

  13. “punhado mínimo de poeira no seio do universo sem limites”

    ou, como chamam em algumas culturas, “Beatles”

  14. marcosfanton disse:

    “punhado mínimo de poeira no seio do universo sem limites”
    salário de filósofo

  15. “punhado mínimo de poeira no seio do universo sem limites”

    também conhecido como ‘falo majestoso’

  16. marcosfanton disse:

    “punhado mínimo de poeira no seio do universo sem limites”
    “desculpe, não é da casa do Tatáta?”

  17. marcosfanton disse:

    “criatura de uma profundidade capaz de conhecer o universo, e de abarcá-lo dentro de si mesmo”.
    Stephen Hawkins!

  18. “criatura de uma profundidade capaz de conhecer o universo, e de abarcá-lo dentro de si mesmo”.

    “porra, mas a tua mãe é muito gorda MESMO, hein?”

  19. “Seu ser titubeante não é uma realidade subsistente, residual, determinável”

    Tipo um velho bebado.

  20. marcosfanton disse:

    “criatura de uma profundidade capaz de conhecer o universo, e de abarcá-lo dentro de si mesmo”.
    O Michael não morreu?

  21. marcosfanton disse:

    “Seu ser titubeante não é uma realidade subsistente, residual, determinável”
    – Foi aquela mina ali que eu peguei ontem.

  22. “criatura de uma profundidade capaz de conhecer o universo, e de abarcá-lo dentro de si mesmo”.

    bah, o Rex era um baita cachorro mesmo.

  23. “É ambas as coisas, entre ambas as coisas.”

    Puxa, agora tão falando da Rogéria na filosofia, é?

  24. marcosfanton disse:

    “É ambas as coisas, entre ambas as coisas.”
    – Amor, isso que tu fez pra jantar é um ensopado de camarões dinamarqueses com lulas afro-australianas com um toque de pimenta da Noruega ou um cachorro-quente ao molho rosê com salsichas coloridas?

  25. “É ambas as coisas, entre ambas as coisas.”

    Jaspers = profeta da pan-sexualidade.

  26. G.D. disse:

    Also Spracht SERGUEI

  27. marcosfanton disse:

    Trocadilho infame:
    Jaspers é o filósofo mais pro-lixo que eu já li.
    :P

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