Genealogia vs Generatividade

That bios, that life – by which I mean the way in which the world immediately appears to us in the course of our existence – is a test should be understood in two senses. Test in the sense of experience, that is to say the world is recognized as being that through which we experience ourselves, through which we know ourselves, discover ourselves and reveal ourselves to ourselves. And then, test in the sense that this world, this bios, is also an exercise, that is to way that on the basis of which, through which, in spite of or thanks to which we form ourselves, advance towards an aim or salvation, or head towards our own perfection. (…). The challenge is this: How can what is give as the object of knowledge (savoir) connected to the mastery of tekhné, at the same time be the site where the truth of the subject we are appears, or is experience and fulfilled with difficulty?  How can the world which is given as the object of (connoissance) and at the same time the place of the subject’s “self”as the ethical subject of truth appears and is experienced?  If this really is the problem of Western philosophy – how can the world be the object of knowledge (connoisance) and at the same time the place of the subject’s test; how can there by a subject of knowledge (connoissance) which takes the world as object through a tekhné, and a subject of self-experience which takes this same world, but in the radically diffrent form of the place of its test? – if this really is the challenge of Western philosophy, you will see why The Phenomenology of Spirit is the summit of this philosophy.

Foucault, 1982 [Hermeneutics of the Self].p. 486-487

When science poses and answers questions, these are from the start, and hence from then on, questions resting upon the ground of, and addressed to, the elements of this pregiven world in which science and every other life-praxis is engaged. In this life-praxis, knowledge, as prescientific knowledge, plays a constante role, together with its goals, which are in general satisfactorily achieved in the sense which is intended and in each case usually in order to make practical life possible. But a new civilization (philosophical, scientific civilization), rising up in Greece, saw fit to recast the idea of  “knowledge” and ” truth” in natural existence and to ascribe to the newly formed idea of ” objective truth”  a higher dignity, that of a norm for all knowledge. In relation to this, finally, arises the idea of a universal science encompassing all possible knowledge in its infinity, the bold guiding idea of the modern period. If we have made this clear to ourselves, then obviously an explicit elucidation of the objective validity and of the whole task of science requires that we inquire back into the pregiven world. It is pregiven to us all quite naturally, as persons within the horizon of our fellow men, i.e., in every actual connection with others, as ” the” world common to us all. Thus it is, as we have explained in the detail, the constant ground of validity, an ever available source of what is taken for granted, to whihc we, wheter as practical men or as scientists, lay claim as a matter of course.
Now if this pregiven world is to become a subject of invetigation in its own right, so that we can arrive, of course, at scientifically defensible assertions, this requires special care in preparatory reflections. It is no easy to achieve clarity about what kind of peculiar scientific and hence universal tasks are to be posed under the title ” life-world” and about whether somehing philosophically significant will arise here. Even the first attempt to understand the peculiar ontic sense of the life-world which can be taken as a narrower, now as a broader one, causes difficulties.

Husserl, Krisis, p.119-120

O Foucault tardio é massa. Principalmente porque retoma alguns temas clássicos que ele tinha deixado de lado na História da Loucura e no Palavras e as Coisas. Esta citação ali em cima é da última aula que o Foucault deu na vida dele, gravada no Collége de France. O curso sobre Hegel e Linguagem, acabou não sendo ensinado, já que Foucault faleceu pouco antes do início do semestre letivo em 1984. Este ensaio, creio que, talvez tenha sido escrito por Agamben com o título “A Linguagem e a Morte”.

Claro, toda esta linguagem de filósofos da imanência – como Foucault, Deleuze e Agamben – é um tanto chata e cheia de voltas. Mas neste texto, especialmente, Foucault faz justiça a modernidade e a experiencia típica – estetica – que marca o modernismo. Porque os modernos tem uma preocupação estética e sensível muito mais aguda que os gregos – que encontravam o perceptivo sempre marcado por um Thelos , uma finalidade natural e limitada. O interessante é que no final do texto, Foucault parece apontar justamente para isso: a preocupação estética, ela mesma, é um resultado mais da Crítica do Juízo do que da ordem dos saberes aristotélica.

Mas eu queria chegar no Husserl.

Me interessa no Husserl este mundo que é pré-dado, mundo circundante, que acaba por limitar as nossas possibilidades de significação.  E esta abertura, que o Foucault não tem, que é a abertura da compreensão-de-mundo (seja ela através da Compreensão Existencial ou da Intuição Categorial), é o elemento que não consigo encontrar na chamada filosofia analítica e que ainda me parece a grande vantagem que a fenomenologia nos traz. Mas ela não é uma abertura absoluta para inserção de significados e a negação dos predicados assertivos verdadeiros ou falsos, pelo contrário: ela é uma forma diferente de falar sobre estes predicados assertivos, e é isso que Foucault não consegue entender quando diz que a verdade é jogo de poder. Existem concepções de verdade que são impostas, mas uma concepção pode, ainda assim, ser melhor que outra.

Talvez Husserl tenha entendido, junto com Kant e Hume, aquilo que Foucault tentou disputar: a tua experiência, por si mesma, não te prova nada, não tem valor algum. É apenas uma experiência. Enquanto tu não relaciona tua experiência com algum tipo de rigor e verificação das tuas proposições assertivas, tu não integra tuas concepções de mundo com o mundo-circundante, tu vai continuar falando que “seres humanos podem bater os braços bem rápido e voar”, por que é isso que a tua experiência te diz. Embora tudo ao teu redor insista em dizer que isso não é nem poderia ser o caso. Justamente isso que está em jogo na inter-relação tempo-compreensão-mundo.

Daí que eu pense que a concepção de generatividade é muito mais útil do que a de Genealogia. Enquanto a genealogia nos explica algumas formas de posicionamento de enunciados predicativos, a noção de generatividade nos demonstra como podemos trabalhar com enunciados assertivos que descrevem algo sobre algo, e ao mesmo tempo superam a relação entre interno e externo ao trazer a concepção de mundo-circundante e mundo-vivido.

Comments
One Response to “Genealogia vs Generatividade”
  1. filipecampello disse:

    Cara, vc postou exatamente a questão para onde minha tese está caminhando. E o Foucault morreu antes de ministrar o seminário intitulado “Hegel e a linguagem”? Vou aqui beber um pouco d´água (ou melhor, algo com muito álcool) para não surtar.

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