Seria Sr. Spock um utilitarista?

E agora, para uns dos debates mais insanos que eu já tive o prazer de acompanhar.

Entre outras coisas, indivíduos que gostam de nerdices tendem a valorizar seus objetos de desejo como “teoricamente relevantes”. Caso clássico disso são discussões do tipo “A Ética de Destruir Cyborgues” ou, uma das minhas discussões favoritas, “HAL 9001 é um computador?”.

Entre todas estas discussões de cunho nerd as que mais repercutem são aquelas vinculadas ao trabalho de Tolkien e Star Trek, não obstante os dois epicentros de cultura nerdística com os seguidores mais dementes (bold statement, given).

Corta para o segundo filme da Série Clássica, sem dúvida o melhor dos longas. A Ira de Khan.

Como vocês sabem, e se vocês não sabem eu sugiro fortemente que vocês questionem o porque diabos vocês vieram parar neste blog, na Ira de Khan nosso amigo Spock vem a falecer ao decidir entrar em uma câmara radioativa (ou algo para este efeito) e ativar um dispositivo para salvar (ou algo para este efeito) a SS Enterprise I-A (o A é muito importante, e se tu não sabe porque ele tá ali, eu sugiro fortemente questionar a sua chegada neste blog, mais uma vez).

Eis a cena:

Pois bem, meu ponto: Sr. Spock é claramente um utilitarista, mas – aqui está o interessante – ele é um utilitarista da vertente menos legalista de utilitarismo – o utilitarismo de fins, não o de regras.

Como assim?

Vejamos:

Primeiro, Spock claramente age de forma insubordinada ao desobedecer seu superior direto (Admiral Kirk) e descer a plataforma. Mais uma vez, na plataforma, ele ignora e com efeito agride o oficial médico {Dr. Bones) que embora de patente inferior, tem soberania nas decisões de ordem sanitárias, para chegar ao seu objetivo. Neste momento, Spock diz:

“I am sorry doctor, but I have no time to explain this logically”

Claramente, vemos aqui um enunciado o tipo utilitário, mas não é do tipo de regras. Porque? Por que uma justificativa de regras não poderia justificar um argumento com base em um “tu vai entender depois”, muito menos decidir por uma conduta manifestamente ilegal. Neste sentido, alguém poderia dizer que o utilitarismo de regras é baseado em premissas não-negociáveis, o que não exatamente o caso. Mas ele veda condutas do tipo “Eu sei que isso está errado, e não posso justificar isto agora”.

No entanto, uma postura utilitária que foca apenas no fim, e não nos meios para atingir tal fim, suporta este tipo de argumento. Mas como Spock, então, não tem apenas uma conduta individualista e arbitrária? Como é possível dizer que o seu agir está de acordo com algum tipo de justificativa que podemos identificar como razoavelmente lógica, ou simplesmente conexa e transitiva?

Afinal de contas, Spock por ser meio-vulcano está obrigado a se expressar de forma conexa e transitiva (ao contrário de indivíduos totalmente humanos, que podem ser irracionais – mais sobre isso logo-logo). Nós sabemos que Spock agiu de forma racional ao chegarmos no diálogo tétrico entre Sr. Spock e Adm. Kirk, quando Spock diz:

” Do not grieve, Admiral – it is  logical:  the needs of the many outweigh the needs of the few – or the one”

Claramente, Spock esteve o tempo todo elaborando um calculo propositivo do tipo utilitário onde o sacrifício dele – e da ordem de comando à qual ele estava ligado – estava justificado pelo resultado da ação – as necessidades de muitos sobrepesam as necessidades dos poucos – ou de um indivíduo

Assim, Spock demonstra a transitividade de sua conduta, já que sua ordem de preferência assim demonstrada

1 – Bem de Muitos

2 – Bem de Poucos

3  – Bem Individual

É endorsada pela sua ação.

Assim como as necessidades que ele identificou obrigaram a sua conduta para atingir de forma satisfatória um resultado melhor. Pois para Spock, a situação estava assim desenhada:

SE ele obedecesse a linha de comando ENTÃO o colapso da nave era imediato e inevitável.

Ele poderia evitar este colapso, SE e APENAS SE ele se colocasse em uma situação de insubordinação direta às regras da aeronave. Mas esta insubordinação também implicaria no sacrificio da sua própria integridade em beneficio da integralidade dos outros individuos na nave. (agora sabemos que tal decisão foi transitiva, portanto, está justificada de forma suficiente para os termos do utilitarismo de fins)

No entanto:

Existe um grau de imprevisibilidade que pode nos obrigar a reconsiderar a hipótese do utilitarismo de fins na conduta de Spock. Permitam-me jogar esta alternativa lá-fora.

Spock poderia saber que seu sacrifício era uma alternativa possivel, mas em que medida ele tinha certeza que sua exposição de fato causaria um efeito bem-sucedido?

Dados os elementos de imprevisibilidade (levantar um peso, colocar no local correto, em tempo hábil, em situação de pressão e stress), Spock não poderia estar razoavelmente certo que sua conduta causaria uma necessária interrupção no processo de destruição para o qual a entreprise e seus membros se encaminhavam.

No entanto, mesmo sabendo desta imprevisbilidade – e Spock sendo um indivíduo inteligente e informado deveria saber disto, e creio ter evidência suficiente pelas ações anteriores de Spock que ele saberia sobre estas condições, neste contexto -, Spock ainda assim se arriscou.

Porque?

Porque ele se importava com a equipe da Enterprise de tal forma, que ele suportou o risco – quase absurdo – de sua conduta, para pelo menos give it a fair chance. Ainda que suas justificativas sejam do tipo utilitarista, a ação de Spock é baseada em um impulso emotivista! Claro, podemos dizer que não temos acesso as motivações de Spock, portanto elas são irrelevantes! (e eu admito que este é um belo argumento, já que de fato, não podemos afirmar qualquer coisa que não seja arbitrária sobre motivos conscientes ou inconscientes na conduta de um determinado indivíduo).

Neste caso, sabemos que o auto-sacrifício de Spock pode dar a Enterprise uma chance de sobrevivência, e talvez Spock tenha dito a Kirk que sua conduta foi lógica justamente por  mesmo diante de seu risco absurdo, oferecer um 0.5% de sucesso oposto ao 0.00000000001% de sucesso de não fazer nada ou tentar escapar da Ira de Khan.

Pois bem, é interessante que Spock possa ter agido de forma Emotivista – e eu sei que não posso afirmar isso peremptoriamente; pois esta possibilidade indica que as emoções humanas necessitaram um agir que depois foi justificado transitivamente por Spock – afinal, se sua conduta fosse um desastre, ele ainda assim poderia justifica-la? Este mesmo, não é o paradoxo do utilitarismo? Se não funcionar, danou-se de vez? Como uma pessoa racional pode optar por um sistema com tal rigidez e ao mesmo tempo manter a transtitividade de suas convicções. Afinal, SE as necessidades dos muitos são necessárias, teu agir ele mesmo não traz consequencias necessárias. Um vulcano radical, não poderia fazer coisa nenhuma e ao mesmo tempo ser consistente com esta afirmação. (ou poderia?)

Dois finalmentes, um deles é que na cerimônia de despedida ao Spock (não está no vídeo), Kirk reconhece o sacrifício de Spock dizendo que de todas as almas que ele conheceu, a de Spock era a mais Humana. Ora, esta afirmação, ela mesma, não reconhece os sentimentos de Spock na sua conduta, e indica uma falha na rigidez tipicamente associada ao Meio-Vulcano?

No filme seguinte, o desastrado – tragicômico e embananado – A Procura por Spock, Kirk diz ao seu amigo – quando finalmente é re-encontrado – que as necessidades de um indivíduo sobrepõem, sim, as necessidades de vários. Claro, no caso de Kirk, a afirmação é totalmente inconsistente, uma tentativa desastrada de Reductio Ad-Absurdum do argumento de Spock. Porque preciso lembra-los que Spock em todos os momentos mantém uma transitividade pelo menos defensável, senão perfeita, na sua linha de prioridade e uma conectividade na sua linha de conduta para um determinado fim (por exemplo, nada poderia justificar parar para comer um sanduiche naquela situação, exceto se e apenas se, o sanduiche contesse antídotos a radiação a qual Spock seria exposto).

A afirmação de Kirk, no entanto, é típica do capitão da enterprise – já que ela é puramente emocional. Ele busca Spock não por necessidade material, mas por lealdade e compaixão (sentimentos irracionais e não justificáveis de forma conexa de jeito nenhum). Mas para isso, eu precisaria de um novo post.

Com a palavra, os especialistas em Star Trek.

(em tempo, eu poupei o universo da tabela de alternativas possíveis e de rational choice que eu ia elaborar para o Spock, posso passar o numero da minha conta-corrente no Old National, se alguém se sentir agradecido ao ponto de fazer contribuições voluntárias)

(acho que isso é a coisa mais nerd que eu já escrevi na minha vida)

Comments
5 Responses to “Seria Sr. Spock um utilitarista?”
  1. Tati disse:

    Nossa maratona de Big Bang Theory está te fazendo mal.

    :P

  2. Ferrari disse:

    Eu escrevi uma resposta de 5 parágrafos que foi APAGADA por um bug do firefox, e fiquei revoltado. Resultado:

    fabricio. Steh auf Carbondale:
    mas eu to curioso de saber o que tu tinha escirto lá sobre o Herr Spock
    Ferrari:
    eu ia questionar algumas coisas sobre a necessidade da humanidade em um utilitarismo que não de regras
    Ferrari:
    e corrigir umas nerdices
    fabricio. Steh auf Carbondale:
    pois é
    fabricio. Steh auf Carbondale:
    interessante ponto
    Ferrari:
    acho que é um mito criado pela ficção científica que apenas humanos quebrariam regras humanas
    acho que no caso específico de star trek, a lógica vulcana não é a humana, é uma lógica de fins não-humanos
    pra começar que o próprio conceito de vida vulcana deveria ser mais valorizado que o de humana, uma vez que se reproduzem menos e vivem mais
    fabricio. Steh auf Carbondale:
    comentario!
    fabricio. Steh auf Carbondale:
    bah, tinhas que ocmentar isso de novo
    Ferrari:
    vou copiar isso aqui e postar
    broxei muito
    fabricio. Steh auf Carbondale:
    ;(

  3. Habkost disse:

    pois é, mas tu te esquece duma coisa: o spock (e todos os aliens do jornada, por sinal) falham miseravelmente em serem alienígenas. Pensa no spock, no sheldon, ou no Dr. Manhattan, por sinal, como gente que tem medo de sentir qualquer coisa. Ora, os vulcanos são seres humanos com orelhas pontudas, e não muito mais do que isso. Embora eles possam coreografar melhor o que vão fazer (dizendo que a leva a b que leva a c) por toda a série sempre foi um raciocínio razo. Eu sempre fiquei com a impressão que, se eles fossem realmente inteligentes, não precisariam justificar a conduta a priori.
    Até porque perde-se tempo precioso fazendo isso, saca?

  4. Ferrari disse:

    por MSN
    Ferrari:
    na verdade a lógica do spok é a de um super-homem, não de um alienígena
    os ets de sci-fi em geral são aspéctos da natureza humana isolados e ampliados
    não há estranhamento ou diferença, e sim uma reflexão sobre si com base em um constructo DE si
    fabricio. Steh auf Carbondale:
    sim
    fabricio. Steh auf Carbondale:
    mas o problema é que nao tem naa a ver com o que eu escrevi
    Ferrari:
    acredito que teria
    e é uma critica ao que tu escreveu tbm
    pq tu toma como base pra um julgamento moral aliena parâmetros humanos
    eu entendi que tu tomou um personagem, não o conceito de et
    o que se questiona aqui é até onde se pode criar um alienígena factível

  5. Ana Death disse:

    Muito interessante sua análise, eu curti. Acho que o Spock é parcialmente utilitarista, mas, na verdade, ele busca formas aparentemente lógicas para justificar suas atitudes que, na verdade, têm um fundo na emoção. Mas, novamente, não podemos ter certeza disso e apenas especular, como diria Kirk… Faço umas análises sobre Star Trek e The Big Bang Theory no meu site, convido-o a dar uma visitada: http://icultgen.wordpress.com

    – Ana Death

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