O esquadrão da morte moral ataca novamente

Começou assim:

Um colega brigou com uma outra colega, que também era sua ex-namorada. Daí, ele teria dito para ela algo do tipo “tu é uma vagaba qualquer que nem dar consegue direito, e ainda por cima tu é perneta!” (ela não tem uma perna, mesmo). Nisto a menina teria saído chorando dizendo que ele era um cretino ou algo para este efeito, e foi falar com as amigas (tudo isso ainda dentro do bar). Daí, uma das amigas tomou as dores e foi falar com o colega (esta amiga também é colega. Eu mencionei que Carbondale é um lugar pequeno?). Daí, ela foi falar com o cara, ele se mostrou irredutivel na postura “a mina é uma vagaba perneta que não sabe trepar” e por isso ganhou um murro do lado da orelha. Como resposta, ele ofereceu um murro na fuça da digníssima colega.

Fino.

Comoção geral, blah blah blah, vocês perguntam “foi tudo?”. Não, não foi. A colega em questão então liga para o colega, se desculpando pelo murro, ao que ele responde “não é bom quando batem em ti, né?”. E desliga.

Corta para dois meses depois.

Reunião da Associação de Filosofia Americana (risos). A SIU presente em massa, já que esta é a grande área do nosso departamento (ouso dizer, o maior do mundo em termos de Pragmatismo). Em Austin, Texas, a reunião foi bem, com certas tensões na hora das perguntas. Noitada, PUB. Galera bebendo. Todo mundo feliz, contente. Como bons estudantes de humanas bebados, o papo descamba para teoria. Resultado: dois colegas começam a trocar socos indiscriminadamente na frente de metade da comunidade filosófica que estuda pragmatismo nos Estados Unidos.

Daí, umas semanas atrás, eu recebo, juntamente com todo mundo do departamento, um gentil convite mandando que os colegas compareçam à uma palestra sobre Sexual Harrasment and Abuse. Ou, assédio sexual e agressão.

Oito da manhã. Terça feira. Eu tenho duzentas coisas mais interessantes para fazer, inclusive cheirar meu próprio peido ou ler Dussel (sendo ler Dussel o verdadeiro ato de coragem aqui), e eis que preciso ir para esta maldita palestra no Centro de Bem-Estar Estudantil (Student Wellness Center, vocês não querem saber do que se trata).

Chegando lá, no auditório, em formato de U, com aquelas mesinhas longas uma-depois-da-outra num degradê, sabe? Pois é. Cheguei uns cinco minutos atrasados, e o palestrante (um negão, Dr. em Speech Communication – que é a área do conhecimento responsável pela propagação do Politicamente Correto) está nos falando que seres humanos sempre se comunicam, mesmo quando não querem se comunicar. Indivíduos sempre estão relacionados inter-subjetivamente. Precisamos respeitar o outro, pensar no outro, levar  a regra de ouro em consideração.

Enquanto eu pensava em atos de auto-mutilação mais prazeirosos do que ter que ouvir aquele blah-blah-blah politicamente correto, ele seguiu por uma hora nos falando de como as pessoas podem usar seu status. De como piadas raciais nunca são engraçadas. Como não existe algo como aceitável, quando se trata de rir de alguém. Como Bullying (nem idéia de como traduzir, mas sabe o cara aquele que batia nos nerds na tua escola? Ele era o Bully. Bullying é agir como aquele cara, sacaram?), então, ele tava nos dizendo como Bullying é uma coisa que se expressa linguisticamente tanto quanto fisicamente.  Que palavras machucam. Que tu não pode usar a B-word, a N-word e coisas parecida de forma alguma, nunca, não importa se tu é preto (caso de ‘igger) ou puta (caso de ‘itch). Não pode usar nunca, sob hipótese alguma, senão aiaiaiai, tu pode ofender alguém.

Neste momento, minha vontade era de dizer todas as palavras proibidas em sequencia, baixar minhas calças e adicionar CUUUUUU QUEMMM QUEÉÉÉÉÉ CUUUUUU???? Só para dar uma perturbada geral no clima civilizado do recinto.

Eu fico pensando, sabe?

Será que esta completa paranóia com o politicamente correto, com o não-ofender, com o ser receptivo, não tá detonando completamente as dinâmicas normais de amizade, intimidade e vínculos pessoais? Quero dizer, quem quer que testemunhe uma conversa entre eu, o ferrari e o tiago, vai ter certeza absoluta que faltam exatos dois minutos para a gente começar a se bater. Eu não acredito nesta merda de PC, porque basicamente ela detona as dinâmicas de reconhecimento mútuo e sacanagem que, me desculpem, são saudáveis.

Eu não quero ter que me policiar , ou policiar minha linguagem, quando estou entre meus amigos, porque o que eu digo pode ofender alguém da mesa do lado. Sinto muito, eu não vou me policiar. E se tu achares que eu estou sendo excêntrico, inconveniente ou inapto socialmente, a possibilidade de eu aumentar o volume em dois, e começar a falar de diferentes tipos de parafilia inter-erótica e inter-espécies é bastante grande. Usando todos os termos proibidos. Um-depois-do-outro.

Esta domestificação da linguagem alheia é uma coisa hilária. Porque na real, só varre o preconceito e a violência linguística-física pra de baixo do tapete, e permite que práticas que são realmente agressivas e inadmissíveis sejam continuadas. Ou será que o politicamente correto tirou o negro americano da miséria? Será que o politicamente correto liberou os hispanicos da perseguição no sul dos Estados Unidos (hispânicos legais, que estavam ali antes da colonização em lingua inglesa).

Este papo simplesmente é o mesmo moralismo velho de guerra, que vem te falar de respeito pela alteridade com quinhentos esqueletos enfiados no armário. Que vem te falar de inclusão, discurso harmônico e toda esta palhaçada que mais parece um hippismo new-age metido a besta, uma condescendência mal-disfarçada e que ainda vai tornar o humor – a comédia, de forma geral – impossível.

É um mundinho muito triste e bem arrumado este mundinho dos politicamente corretos.

Comments
6 Responses to “O esquadrão da morte moral ataca novamente”
  1. Marcelo disse:

    Agora traduz e manda pra tua direção.

  2. paulo disse:

    NEGÃO ministrando palestra??? NEM dando o cu!Vc está em Cdale? ou na bhahia?
    e se o cara que transou com aperneta e pendurasse ela na a´rvora? como ela desceria? Qual seria a reação?E o atendimento á s pessoas com deficiencias fisicas? Só vc mesmo para ter uma amiga perneta!
    Sério a palestra deve trsr sido ótima

  3. Ferrari disse:

    Excelente, mesmo. Pra mim esse tipo de papo só torna a ofensa mais ofensiva. Por deus, até a Marta nos viu dizendo “ai, meu homem, vem aqui” e não ficou chocada, sabia que era brincadeira (espera-se). Se ela, ou um de nós, ou qualquer outra pessoa dissesse “oh, ele quer ele para seu homem!” ia tornar isso muito mais ofensivo.
    Pernetices fora, quem pode julgar o grau de ofensa entre duas pessoas é uma delas. Ponto. Não vai ser palestra que vai me ensinar isso.

  4. Ferrari disse:

    SIU – Academia de Artes Marciais Pragmáticas

  5. marta disse:

    Não sei se isso é ser “politicamente correto”, mas entendo que educação, respeito e civilidade são regras básicas do conviver e me parece que no primeiro caso,(o da perneta), o cara é um cretino, sim e no segundo (o de estudantes de humanas) são bêbados). Ei, sinto muito se tua mãe não te ensinou mais cedo, mas tu precisa te policiar, e ter limites, sim e não adianta “aumentar o volume em dois”.

  6. Marcos disse:

    Cara, a tradução portuguesa do Gene Egoísta tem uma ótima palavra para o Bully: FANFARRÃO. Tipo o Joselito… :P

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