Edward Kennedy, 1932-2009

“Ted” Kennedy sempre foi, no meu juízo, o mais simpático dos três Kennedies. Não que isso seja grande vitória. Tenho grandes ressalvas ao período chamado de “Camelot da política norte-americana”. JFK era um conservador-moderado, que tornou a guerra do vietnan uma crise e foi incapaz de evitar um desastre de proporções épicas na baia dos porcos. Ele tem dois legados importantes: a crise dos mísseis e o programa espacial norte-americano. Os dois legados só são possíveis pela colaboração (voluntária e involuntária) dos Soviéticos, portanto, muita calma no processo de endeusamento.

O Bob morreu novo. Ia ser presidente. Foi morto por um radical (ou não, depende em quem tu acredita) um dia antes da primária que lhe garantiria a posição de candidato à presidência.

Ted estava na surdina dos dois. Não seria um exagero dizer que os três só tiveram uma carreira, enquanto jovens, porque o papai-Kennedy era um homem estupidamente rico que basicamente comprou um lugar no senado para cada um deles. Nixon era extremamente ressentido da família Kennedy, ele tinha certeza absoluta que estava tratando com um bando de wunderkinds, yuppies metidos a besta. Com a atual patrulha da vida privada dos políticos, posso dizer com alguma segurança, e ecoando nixon, que os irmão kennedy teriam um destino parecido com o de John Edwards: contra-capa da National Enquirer dizendo “TOMA QUE O FILHO É TEU“.

Mas o Ted conseguiu o que os dois outros Kennedies não conseguiram. Ele conseguiu ficar velho, doente e morrer uma morte natural. Talvez ele seja o senador mais importante na política moderna norte-americana, certamente ele foi o que pode ser mais incisivo nas suas colocações (não por outro motivo senão o fato de ser um Kennedy).

O grande plano do Ted seria a reforma do sistema americano, literalmente a causa da vida dele, que ele embarcou em 1966. O problema é que ele tem tentado o mesmo plano desde 1970, e desde 1970 o plano tem sido sucessivamente negado. O plano da public option, portanto, é tanto um legado quando um problema. Afinal, será que apenas birra política manteve este plano longe da execução por tanto tempo? Mas tudo bem, a medicina americana só não é totalmente privatizada pela intervenção do Ted, e isso já coloca ele em um plano de atuação diferente.

Ainda assim, convém ser cético destas dinastias políticas. Os Clintons, os Kennedies, os Bushes os Sarneys e por aí vai. Afinal, a Caroline já tá ali de auxiliar da campanha do Obama, e ela vai ter menos de sessenta anos quando o Obama terminar o mandato dele. Assim como a Chelsea tem dados sinais de se interessar por política.  Existe um fascínio que estas dinastias cumprem, e certamente parte disto é a formação de uma identidade nacional. Os Kennedies indubitavelmente pautaram o ser-americano  a partir dos anos sessenta. Seja o ser-americano contra os Kennedies ou pelos Kennedies. Direi apenas, para ilustrar, que a secretária do meu departamento tem uma foto da Jackie-O na porta da sala dela, ao lado de uma foto da Sarah Palin. Acreditem: faz sentido.

De qualquer forma, é engraçado ver o processo de endeusamento instantaneo de Ted Kennedy na MSNBC. Por mais que eu admire a causa do homem, e acho que ele até era capaz de ser bem intencionado, não tem o menor sentido isso. Agora esqueceram do escandalo que custou a campanha para a presidencia em 1980? Esqueceram os escandalos da Camelot dos anos de ouro do Amerrrican Empirrree?

No fim das contas, não é hoje  que vamos fazer sentido de Ted Kennedy. Talvez, entre os três irmãos, ele tenha o maior verbete na enciclopédia daqui a cinquenta anos. À conferir.

Comments
7 Responses to “Edward Kennedy, 1932-2009”
  1. Tati disse:

    Eu sempre acho curioso pensar no paradoxo de um país com uma tradição democrática sólida ser tão mesmerizado por dinastias políticas, um troço tão anti-democrático.

  2. Eu acho natural, no caso dos americanos.
    Estas dinastias acabam sendo verdadeiros faróis de comportamento aqui. É algo da tradição anglicana, creio eu. Criou-se esta nobreza “não-oficial”, que acaba servido de referência. Não sei se é anti-democrático, quero dizer, claro que é no sentido de criar aristocracias locais – mas não é anti-democrático quando estas aristocracias locais são eleitas…

    Ou é? :)

  3. Marcelo disse:

    E?
    Sou muito mais o Raulzito.

  4. Gremista Vigilante disse:

    Belo texto.

    O que f… mesmo o Ted foi Chappaquaddick.

  5. É, aquilo acabou com a carreira dele por uns dez anos. Mas o incrível é que até disso o sobrenome dele salvou ele. Acho que hoje, ele não teria sobrevivido ao MASSACRE PUBLICO que seria um acidente tipo o de Chappaquiddick. O Edwards ACABOU por muito menos, assim como todos estes republicanos que tão perdendo tudo por ter tidos casos…

    Tipo, não dá para imaginar alguém fazendo o que o Kennedy fez e sendo re-eleito senador LOGO DEPOIS, como foi o caso.

    * pensa *
    * pensa no senado brasileiro *

    esquece, tô delirando.

  6. Dylan disse:

    Com a morte do senador Edward Kennedy, fechou-se mais um capitulo da dinastia política desta família, marcada pela tragédia e os escândalos, mas mais importante, modelo do idealismo e da concepção do sonho americano.

    Todos os irmãos foram expoentes do liberalismo norte-americano, partilharam o mesmo legado: a democracia, inclusive morreram em nome dela. A ambição política progressista era correspondida com triunfos retumbantes, dados pelas minorias sem voz, pelos imigrantes e injustiçados, no fundo, a possibilidade de todos acreditarem novamente na América, pelas mãos de três grandes estadistas.

  7. nythamar disse:

    Fabs, legal o teu post, concordo com vc, o Teddy K foi uma figura importante, apesar de todas as contradições e idiossincrasias, algo que falta entre os nossos senadores tupiniquins, o que mais importa é o legado a longo prazo (aqui não há longo-prazo pois senadores e deputados só pensam na próxima reeleição, a curtíssimo prazo, ainda temos o que aprender com o pragmatismo americano!). Engraçado que a cobertura daqui foi bem razoável, avaliando tanto as coisas positivas quanto as negativas desse sistema de dinastias, mais ou menos como vc colocou, e muitas reações e percepções seguem os comments acima… Acho que com a globalização cum democratização etc tudo isso vai ficando cada vez mais comum –agora, por que é que nada muda em terra brasilis, os Sarneys, Barbalhos, Magalhães vão ficando e passando de pai pra filho e neto ??? haja futebol, carnaval e cachaça pra todo mundo!

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