Tá, mas e daí?

Tenho certa alergia ao chamado “abaixo assinado”, também às “petições públicas”, “atos de desagravo” e coisas afim. Tem alguma coisa de estranha em achar que elaborar um documento, escrever um textinho e dizer “seguem as assinaturas dos que concordam com este textinho” pode ter qualquer tipo de relevância.

Caso em tela, esta petição que foi publicada no Boston Review, e que o Uáltêr fez o favor de me passar.

Primeiro lugar, notem a pretensão demente da coisa. Vamos lá, né? Tu achas que a tua assinatura, junta com a de mais uns dos teus colegas, de alguma forma adquire legitimidade. “Olha, tem ‘Stanford’ do lado do meu nome, me obedece!” Melhor ainda: Jurgen Habermas assinou em primeiro lugar, isso deve ser realmente muito importante.

Jurgen Habermas, sabe-se, é o Sean Penn da filosofia. O arroz de festa da causa abandonada. “Habermas, eu tenho uma causa!”, “É de esquerda?”, “Um pouquinho”, “Envolve gente pobre, sofrendo e remelenta?”, “Um tantinho”, “Tem uma foto?”, “Tó, Sebastião Salgado que tirou”, “Onde eu assino?”. Respeito Sean Penn enquanto ator, acho ele um cara bem acima da média. Da mesma forma, respeito Habermas enquanto o autor da Teoria do Agir Comunicativo e também por ter aguentado os papos do Adorno enquanto era secretário dele. Devia ser um saco aguentar o Adorno reclamando de reumatismo. Então, todo meu respeito ao Jurgen Habermas.

Independentemente disso, quem em sã consciência assina um docuemnto que pede para a ONU:

1) A formação de um comitê internacional para descoberta-de-verdades a respeito da situação no Irã.

2) Pressão em cima do governo iraniano para anular as eleições passadas,  e agora fazer as eleições do jeitinho que a ONU mandar.

3) Dar um jeito de liberar TODO MUNDO que foi preso durante os protestos no Iran. Já.

4) Pressionar o Irã para imediatamente, liberar a imprensa, permitir liberdade de expressão ampla e protestos não-violentos

5) Pressionar o Irã para imediatamente, parar de ficar batendo em neguinho na rua.

6) Recusar-se a reconhecer a legitimidade do governo do cara-aquele-de-nome-impronunciável.

Pois bem, vamos uma por uma nestas reinvindicações, que eu quero testar aqui se só eu acho que tem que ser completamente desiquilibrado para fazer este tipo de demanda no papel e esperar que ela vá ser, em algum universo possível, atingida.

1) Sério. “Comitê para descobrir a verdade” não parece algo saído de um sketch do Monty Python?

2) Certo, e a única coisa que vai fazer a ONU ter esta atitude é tu assinar este documento, né? Ou melhor, tu não pode te omitir, afinal de contas, é a tua assinatura que pode ser a decisiva entre a relevância ou irrelevância do documento. Pior! Tu podes indicar uma falta de solidariedade! Teu egoísmo pode custar vidas! Mas o que me choca, nesta demanda em particular, é achar que ninguém pensou nisso até agora. Eu consigo imaginar o secretário geral da ONU pegando esta carta na mão, olhando para o céu, e dizendo “O BOM SENHOR DEUS É GRANDE DE TER ME ILUMINADO COM ESTA CARTA ASSINADA POR TODA ESTA GENTE ESPERTA! EU NÃO TINHA PENSADO QUE A ELEIÇÃO NO IRÃ PODE TER SIDO UMA FRAUDE! PUXA VIDA!”

3) Eu tenho uma sobrinha de 5 anos que tá aprendendo a ler. Ela também já sabe o que é “prender”, e tá aprendendo estas sutilezas da vida moderna. Com alguma tranqulidade posso dizer que esta sobrinha, que já sabe assinar o próprio nome, ao ler esta demanda diria algo para o efeito de “mas isso é manifestamente ridículo e impraticável”. E ela estaria tomada de razão. TODOS manifestantes? TODOS? Até os que realmente cagaram o pau? Enfim, mais uma vez cabe num quadro do Monty Python.

4) Imagem mental, cambada: O secretário geral aos berros para os seus acessores “Gente, olha que genial esta idéia, como a gente não pensou nisso antes? Puxa, o que é o estudo, né?”

5) Tá, esta é a que vira a piada da semana no cafézinho da ONU. “Gente, vocês viram aquele documento que chegou cheio de assinatura? Eu não dava tanta gargalhada desde a vez que a Susan Sarandon chegou aqui para falar do massacre das focas no polo norte!”

6) Alguém precisa avisar esta gente que a ONU meio que já fez isso. Acontece que, como sempre, todo mundo cagou e andou.

Não é que eu discorde que a situação no Irã é absurda e blah. Mas é que e daí que tu assinou? Quero dizer, no que isto vai dar mesmo? Além disso, de que adianta assinar um troço que tem como objetivo seis demandas impossíveis? A idéia é virar saco de piada da ONU por uma semana? Confirmar todos os estereótipos do universo a respeito da academia?

O que eu não entendo é o que leva pessoas relativamente bem informadas a assinarem um troço destes. Ou sou eu que virei um completo cético deste tipo de conduta?  Quero dizer, pessoas como Habermas, Benhabib e Bernstein não conseguem pensar em nada melhor do que o tipo de reinvidicação que minha turma de colégio fazia quando queria mudar as cadeiras da sala de aula ou trocar de professora de geografia?! Diante de um problema, de uma polêmica, o intelectual de Stanford assina um manifesto? Não quer também colocar uma boina, pegar o livro vermelinho do Mao e pendurar uma bandeira vietcong na estátua do Lincoln no Grant Park?

Tempo para respirar.

Na PUC, lá no 5, toda semana tinha alguém com uma lista de asssinatura para salvar as baleias (nem idéia se deu resultado), impedir o aumento da mensalidade da PUC (claro que não deu resultado) ou mesmo pedindo o afastamento imediato da lei da gravidade e sua imediata substituição por algo menos imperialista, a ser pensado por um comitê eclético designado por membros do Sindicato dos Metalurgicos.

Enfim, assinem aí este meu manifesto pelo fim dos manifestos. Favor colocar instituição de origem e nome completo, se possível, assinar com título. Vou enviar pro secretário geral da ONU, visando eficácia imediata das reinvidicações supra.

Comments
7 Responses to “Tá, mas e daí?”
  1. “Gente”
    “Gente”
    “Gente”

    aiai.
    Que bom que eu desisti de ser escritor…

  2. Marcelo disse:

    Venho por meio desta exigir a imediata aceitação e cumprimento de abaixo-assinados e petições da internet.

    Marcelo, CCIT

  3. Walter disse:

    Fabrício món$tro, destruindo esperanças e o outromundopossível.

  4. Ferrari disse:

    Que bom que a Arábia Saudita é democrática, né gente? Pq assim a gente vê que democracia é sempre patrocinada pela ONU e EUA

  5. Renata disse:

    por razões puramente de vaidade, adoouro qdo tu citas a tua “genial”, “brilhante”, “espetacular”, sobrinha de 5 anos.

  6. Pedro disse:

    Fabs,
    tudo bem fazer troça do octagenário Habermas.
    Mas mexer com o sujeito da posição 115 já é sacanagem demais!

    “115. José Portela, Instituto Politécnico de Viana do Castelo, Portugal”

    Pô, o cara é do Instituto Politécnico de Viana do Castelo, tchê!!!!

  7. Ferrari disse:

    Tem alguém do Instituto Universal Brasileiro?

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