Banalizando a Morte

Este blog tem se ocupado com coisas bastante importantes ultimamente, tais quais o passarinho do Francês, o pilão contra Satanás e reflexões acerca da racionalidade-Zumbi. Depois de elaborar um pouco em cima destes temas densos e quase insuportáveis, vou para um interlúdio mais palatável.

Qual seja, a execução de um jovem americano pelo estado do Texas em 2004. A New Yorker publicou esta matéria (gigantesca) sobre o caso do Cameron Todd Willingham, um garoto um tanto problemático, com diversas passagens pela polícia e que um dia acabou assistindo suas duas filhas morrendo em um incêndio. Os pormenores do caso são interessantes, mas um pouco difíceis de reproduzir sem me obrigar a re-escrever a matéria da New Yorker. Então, para quem quer saber sobre como o fogo aconteceu ou tiver dúvidas sobre coisas específicas, sugiro ler a matéria na íntegra – extremamente bem escrita, como sempre é o caso com a New Yorker.

O Cameron foi condenado a morte com base na overwhelming evidence que apontaria para que ele tivesse sabotado a própria casa e tornado a escapada das suas filhas impossível, esta evidência seria a seguinte:

– O guri não tinha marca de chamas, ou queimaduras, após escapar do fogo.

– Ele tinha um passado de crimes

– Suas tatuagens e posteres do Iron Maiden – e do Led Zeppelin! – indicavam um garoto com adoração por Satan e claramente irrecuperável

– Ele não tinha tentado re-entrar no fogo para salvar suas filhotas

– Ele teria confessado para outro prisioneiro ter colocado fogo na casa

– Ele tinha um passado como marido-problema. Inclusive, os vizinhos tinham visto ele batido batendo (valeu, Ualter) na mulher.

A matéria vai analizando uma por uma destas evidências, colocando algumas em perspectiva e dando uma vistoria de fundo no processo de defesa do Cameron. A defesa é a primeira coisa que eu quero parar para analizar. O trecho da New Yorker:

Not long after Willingham’s arrest, authorities received a message from a prison inmate named Johnny Webb, who was in the same jail as Willingham. Webb alleged that Willingham had confessed to him that he took “some kind of lighter fluid, squirting [it] around the walls and the floor, and set a fire.” The case against Willingham was considered airtight.

Even so, several of Stacy’s relatives—who, unlike her, believed that Willingham was guilty—told Jackson that they preferred to avoid the anguish of a trial. And so, shortly before jury selection, Jackson approached Willingham’s attorneys with an extraordinary offer: if their client pleaded guilty, the state would give him a life sentence. “I was really happy when I thought we might have a deal to avoid the death penalty,” Jackson recalls.

Willingham’s lawyers were equally pleased. They had little doubt that he had committed the murders and that, if the case went before a jury, he would be found guilty, and, subsequently, executed. “Everyone thinks defense lawyers must believe their clients are innocent, but that’s seldom true,” Martin told me. “Most of the time, they’re guilty as sin.” He added of Willingham, “All the evidence showed that he was one hundred per cent guilty. He poured accelerant all over the house and put lighter fluid under the kids’ beds.” It was, he said, “a classic arson case”: there were “puddle patterns all over the place—no disputing those.”

Resumindo para os que tem dificuldade com a lingua da rainha Elizabeth: os advogados receberam a noticia que o colega de cela do Cameron tinha alegado ouvir o sujeito confessando, de quebra, a acusação ofereceu a prisão perpétua caso o Cameron confessasse (menos trabalho para todo mundo), a defesa, convicta que seu “cliente” era culpado resolveu indicar que o Cameron confessasse. Cameron mandou eles irem tomar no meio, que ele não tinha feito porra alguma.

Como resultado, Cameron teve uma defesa porca. Leiam a matéria, por favor. Na realidade, de cara fica claro que os advogados públicos simplesmente não acreditavam no Cameron – eles também tinha a plena convicção que as testemunhas que a acusação trazia (especialistas, psicólogos e coisas afim) eram confiáveis.

Um dos psicólogos, por sinal, é um caso bem interessante. Ele sequer falou com Cameron. Todo seu depoimento foi baseado em evidência circunstancial oferecida pela acusação – aquela coisa tipo “baseado nestas informações que a gente tá te dando, que tu acha do Cameron?”, “Eu acho que ele é um satanista, maluco, fã de Iron Maiden, tatuado, que bate na mulher, é que oferece perigo para a sociedade. Eu sugiro fritar ele”. Este mesmo indivíduo é famoso por dar tais depoimentos em casos que estão sujeitos ao castigo capital.

A matéria não me deixa mentir (eu tenho pouca ilusão de que vocês vão ler, então vou dividindo aqui, sabe como é, depois de três anos de blog, o cara aprende estas coisas):

At one point, Jackson showed Gregory Exhibit No. 60—a photograph of an Iron Maiden poster that had hung in Willingham’s house—and asked the psychologist to interpret it. “This one is a picture of a skull, with a fist being punched through the skull,” Gregory said; the image displayed “violence” and “death.” Gregory looked at photographs of other music posters owned by Willingham. “There’s a hooded skull, with wings and a hatchet,” Gregory continued. “And all of these are in fire, depicting—it reminds me of something like Hell. And there’s a picture—a Led Zeppelin picture of a falling angel. . . . I see there’s an association many times with cultive-type of activities. A focus on death, dying. Many times individuals that have a lot of this type of art have interest in satanic-type activities.”

The other medical expert was James P. Grigson, a forensic psychiatrist. He testified so often for the prosecution in capital-punishment cases that he had become known as Dr. Death. (A Texas appellate judge once wrote that when Grigson appeared on the stand the defendant might as well “commence writing out his last will and testament.”) Grigson suggested that Willingham was an “extremely severe sociopath,” and that “no pill” or treatment could help him. Grigson had previously used nearly the same words in helping to secure a death sentence against Randall Dale Adams, who had been convicted of murdering a police officer, in 1977. After Adams, who had no prior criminal record, spent a dozen years on death row—and once came within seventy-two hours of being executed—new evidence emerged that absolved him, and he was released. In 1995, three years after Willingham’s trial, Grigson was expelled from the American Psychiatric Association for violating ethics. The association stated that Grigson had repeatedly arrived at a “psychiatric diagnosis without first having examined the individuals in question, and for indicating, while testifying in court as an expert witness, that he could predict with 100-per-cent certainty that the individuals would engage in future violent acts.”

O interessante aqui é que o poster do Iron Maiden ajuda o “psicólogo” a formar um perfil que vai levar alguém para a injeção letal. Ele também dá um grau de segurança – absurdo – para o cara formar tal perfil, relações diretas de causalidade que simplesmente não existem. Qualquer defesa razoável precisaria perceber isso. Mas porque esta defesa não percebeu?

Bom, a resposta está no próprio texto, e é o mesmo motivo pelo qual a defesa não questionou o especialista em incendios que havia testemunhado. Ela simplesmente estava acostumada em assumir que este era o processo, e os indivíduos envolvidos nele não teriam quaisquer motivos para mentir, ou sequer poderiam estar enganados. É banal.

Ainda assim, convém manter em mente que estamos lidando com a vida de indivíduos. Só que para a comunidade no Texas onde esse julgamento ocorre, as coisas parecem em termos mais simples. Não precisa lá muita reflexão. Em certo momento, envolvidos no processo, ao serem quesionados do porque ignorar nova evidência, dizem o seguinte:

[…]“You don’t vote guilt or innocence. You don’t retry the trial. You just make sure everything is in order and there are no glaring errors.” He noted that although the rules allowed for a hearing to consider important new evidence, “in my time there had never been one called.” When I asked him why Hurst’s report didn’t constitute evidence of “glaring errors,” he said, “We get all kinds of reports, but we don’t have the mechanisms to vet them.” Alvin Shaw, another board member at the time, said that the case didn’t “ring a bell,” adding, angrily, “Why would I want to talk about it?”

Ainda assim, pouco antes da execução, houveram uma série de tentativas de reverter a sentença baseados em nova evidência que provaria que o fogo não teria sido causado intencionalmente – pelo contrário, ele certamente não havia sido intencional. A corte deveria receber e analizar esta nova evidência, e considerar a apelação e suspensão da execução. O que aconteceu foi o seguinte:

The board members did not even have to review Willingham’s materials, and usually don’t debate a case in person; rather, they cast their votes by fax—a process that has become known as “death by fax.” Between 1976 and 2004, when Willingham filed his petition, the State of Texas had approved only one application for clemency from a prisoner on death row. A Texas appellate judge has called the clemency system “a legal fiction.” Reaves said of the board members, “They never asked me to attend a hearing or answer any questions.”The Innocence Project obtained, through the Freedom of Information Act, all the records from the governor’s office and the board pertaining to Hurst’s report. “The documents show that they received the report, but neither office has any record of anyone acknowledging it, taking note of its significance, responding to it, or calling any attention to it within the government,” Barry Scheck said. “The only reasonable conclusion is that the governor’s office and the Board of Pardons and Paroles ignored scientific evidence.”

Death by fax é um resumo sensacional de tudo isso. É um resumo da banalização do processo de decisão sobre vida-e-morte, e sobretudo do perigo de colocar tal decisão nas mãos de pessoas imperfeitas. Mais ainda: creio que esta banalização é consequencia direta da possibilidade de tal decisão – afinal de contas, deve ser muito chato ter que decidir sobre isso o tempo todo, ter que lidar com estes assassinos que teimam em ficar aparecendo na tua corte. Quer saber duma coisa, então? Nem vamos perder tempo nos reunindo, este cara já teve um processo, já teve uma chance, que se foda a nova evidência, manda um fax aí e é um a menos dando prejuízo pro erário público.

Eu não sei quem ainda é favorável à pena capital, ainda mais tendo em vista a falibilidade do sistema para as coisas mais corriqueiras. Eu não quero dar aqui a impressão de indicar uma saída do tipo: “viu, não funciona! O Sistema penal não funciona!”. Creio que o sistema de punições cumpre uma função social importante, mas a pena capital não participa deste mecanismo de forma suportável – a sua falibilidade não é suportável, e também é muito pouco justificável. Podemos justificar boa parte dos mecanismo de repressão em cima de seus potenciais resultados – embora eu esteja particularmente a favor da minimilização do alcance do sistema de encarceiramento, mas esta é outra discussão – , não tem potencial resultado que pode justificar a história do Cameron, e de tantos outros que são condenados todos os anos por defesas omissas e acusações que querem mostrar resultado para o chefe (não esqueçam, quanto mais rápido tu condena, mais rápido tu risca o caso da tua lista de crimes não resolvidos e mais resultado tu tem para mostrar para o Secretário, que vai distribuir recursos de acordo com tais dados).

Não faz muito tempo – e isso não é relacionado diretamente com o Cameron, embora os dois casos envolvam a mesma juíza. ; uma corte Texana se recusou a abrir para receber um apelo de última hora de um indivíduo no corredor da morte. A história é parecida com a do Death-by-fax, no caso , seria Death-by-Late-Hour. O oficial não abriu o gabinete durante a madrugada para poder receber a petição e com isso permitiu que o Estado ignorasse evidência que poderia mudar o destino do indivíduo. Assim como o Cameron, ele foi executado.

Estes dois casos podem ser o primeiro exemplo de admissão contemporânea de erro por parte do sistema capital. Não sei que tipo de novidade isso acrescenta para o debate,  mas um dos argumentos principais (que a falibilidade nunca havia sido provada) certamente cairia por terra, uma vez que o estado Texano fosse obrigado a reconhecer sua omissão (que no fim das contas foi uma omissão assassina) nestes dois casos.

No fim das contas, o problema todo é que um sistema falho que não mata indivíduos através da pena capital sempre pode tentar arrumar as coisas em caso de erro. Quando tu mata o cara, simplesmente não tem o que fazer. Tá morto. Não tem indenização, pedido de desculpa ou hipérboles disfarçadas para arrumar o troço. Além do mais, tá mais que provado que simplesmente não funciona. Não tem um estudo que prove que pena capital reprime crime mais ou menos do que prisão perpétua, não tem um estudo que prove que pena capital tem resultado social no sentido de representar o sentimento da comunidade com relação a este ou aquele crime. Como fica, então? Fica este monte de mensagens cruzadas para o judiciário, e o massacre de condutas dos dois lados – indivíduos inocentes sendo mortos e burocratas se escondendo atras de procedimentos, para não terem que pensar sobre o que estão fazendo.

A pena de morte, a possibilidade da pena de morte, e creio que este seria meu principal ponto,  funciona como uma espécie de bizarrismo moral que compromete todo o sistema (dado que tu não queiras assumir – e eu não quero – que o sistema nasceu morto). Neste sentido, é lógico que a punição é cruel e incomum. Ela leva consigo, sempre, esta bizarria moral. Não tem como decidir sobre a pena capital, como mandar alguém para o corredor da morte, e não cair neste abismo – no momento que tu decidiu condenar alguém à morte tu necessariamente leva esta imoralidade inerente ao troço contigo.

Pronto, próximo post sobre algo sério. Tal qual o concurso de camisas molhadas da State University of Kentucky.

Comments
2 Responses to “Banalizando a Morte”
  1. Marcelo disse:

    Rá.
    Na PUC, ainda, tu me disseste algo do tipo “pena de morte no Brasil? Tu imagina essa gente que livra playboyzinho que queima índio decidindo sobre a vida e a morte dos desafetos”
    É. No Brasil não funciona.
    Quanto aos EUA, eles podem se matar como quiserem.

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  1. […] pessoal convencionou chamar isso de Death by Fax. Basicamente, consiste no Estado dizendo: dane-se os fatos no mundo real, o que importa são os […]



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