Parágrafos nove em duelo

Investigações lógicas, parágrafo nove:

The careful thinker will not therefore use language without artificial precautions; to the extent that the terms he uses are not unambiguous and lack sharp meaning, he must define them. The definition of names we therefore see as a methodical auxiliary procedure towards ensuring validations, the latter being one’s primary, tryly theoretical procedures.

[O pensador cuidadoso (hehe), portanto, não usará linguagem sem precauções artificiais; já que os termos que ele usa não são sem-ambiguidades e  necessitam um sentido afiado, ele precisa defini-los. A definição de nomes nós portanto vemos como um procedimento auxiliar metodológico que assegura validações, a última sendo os nossos procedimentos teoréticos primários e tentativos.]

Ser e Tempo, parágrafo nove, tradução do Riviera:

La “esencia” de este ente consiste en su tener‐que‐ser [Zu‐sein]. El “qué” (essentia) de este ente, en la medida en que se puede siquiera hablar así, debe concebirse desde su ser (existentia). En estas condiciones, la ontología tendrá precisamente la tarea de mostrar que cuando escogemos para el ser de este ente la designación de existencia [Existenz], este término no tiene ni puede tener la significación ontológica del término tradicional existentia; existentia quiere decir, según la tradición, ontológicamente lo mismo que estar‐ahí [Vorhandensein], una forma de ser esencialmente incompatible con el ente que tiene el carácter del Dasein. Para evitar la confusión usaremos siempre para el  término existentia la expresión interpretativa estar‐ahí [Vorhandenheit] y le atribuiremos la existencia como determinación de ser solamente al Dasein. La “esencia” de este ente consiste en su tener‐que‐ser [Zu‐sein] 4. El “qué” (essentia) de este ente, en la medida en que se puede siquiera hablar así, debe concebirse desde su ser (existentia). En estas condiciones, la ontología tendrá precisamente la tarea de mostrar que cuando escogemos para el ser de este ente la designación de existencia [Existenz], este término no tiene ni puede tener la significación ontológica del término tradicional existentia; existentia quiere decir, según la tradición, ontológicamente lo mismo que estar‐ahí [Vorhandensein], una forma de ser esencialmente incompatible con el ente que tiene el carácter del Dasein. Para evitar la confusión usaremos siempre para el término existentia la expresión interpretativa estar‐ahí [Vorhandenheit] y le atribuiremos la existencia como determinación de ser solamente al Dasein.

O que eu acho mais engraçado é que o parágrafo fundamental não é o que nos permite dialogar com o resto do universo (o do Husserl), mas o que nos isola em uma linguagem completamente hermética e que só é capaz de lidar com dois problemas que não fazem diferença na vida de quase ninguém: a tensão entre essência, existência e como o esquecimento do que tá em jogo nesta tensão é o GRANDE PROBLEMA FILOSÓFICO DE TODOS OS TEMPOS.

Tá, se tu tá preocupado com fenomenologia do conhecimento – com questões sobre história da filosofia também, e talvez estética (neste último caso eu realmente sinto muito, pelo menos todos nós sabemos que podia ser pior ou muito pior), tudo bem ,esta discussão toda pode ressoar para ti. Mas a ilegibilidade do texto Heideggeriano para os não iniciados é um sinal problematico. E digo isso não no sentido de não-iniciados na filosofia, digo isso no sentido da completa hermeticidade do texto inclusive para alguém criado, digamos, na tradição analítica. O Leiter, falando de Heidegger e Husserl, trouxe uma questão interessante. Alguém que tenha lido Hume, Kant e participe do debate contemporâneo na filosofia analítica pode olhar para Husserl e dizer “poxa, estas são questões clássicas da filosofia, e questões que ressoam para além de um campo restrito e quase árido de interesse.”. Eles podem até achar – e acham – que tá tudo errado. Mas isto é tranquilo, achar que tá tudo errado e tocar fogo no circo é rotina. O problema é quando o texto é tão fechado que uma pessoa que te ouve falando destas coisas do lado de fora da tua sala, um não-iniciado, vai achar que tu é completamente demente.

Se não vejamos: o que tá em jogo nos dois parágrafos nove é a questão do labeling. Ok, os analíticos, especificamente o Kripke, inventaram este termo. Mas o que tá em jogo é o que se quer-dizer (Oi, Derrida? Sim, sempre se quer-dizer) com certos termos – e a necessidade de DEIXAR CLARO o que diabos tu QUERES DIZER. Só que lendo o Husserl tu chega nisso de cara. No Heidegger? Bom, no Heidegger tu precisas de dois mini-cursos, um para aprender a lingua que o Heidegger escreve e outro para entender o que ele tá dizendo naquela língua. Daí, depois de aprender a língua, tu descobre no parágrafo nove que ele tá te dizendo que aprender a lingua dele é importante – se não tu não vai sacar o que tá em jogo (e sempre teve em jogo) na história da filosofia, que pelo visto só tava esperando aparecer o Heidegger e inventar esta forma de falar de filosofia que então nos daria o caminho (sempre ele, o caminho) para o verdadeiro-profundo-complexo-método fenomenológico. Mas para falar dele, tu precisa falar na língua do Heidegger, SE NÃO.

Talvez Heidegger deveria vir com um aviso “Cuidado: Religião!”. Mas daí, ia ser difícil encontrar um filósofo que não mereça o Labeling.

Hume é sério candidato.

Pensando bem, não.

(em tempo: Dawkins, volta prá mim)

ontológica del término tradicional existentia; existentia quiere decir, según la tradición,
ontológicamente lo mismo que estar‐ahí [Vorhandensein]lix, una forma de ser
esencialmente incompatible con el ente que tiene el carácter del Dasein. Para evitar
la confusión usaremos siempre para el término existentia la expresión interpretativa
estar‐ahí [Vorhandenheit] y le atribuiremos la existencia como determinación de ser
solamente al Dasein.
Comments
5 Responses to “Parágrafos nove em duelo”
  1. James McKain disse:

    Is it really fair to pigeonhole Heidegger for committing the sin of utilizing a dense and hard-to-penetrate vocabulary and claim that Husserl is not guilty of the same? Or, for that matter, that Kant is not? Husserl is “guilty” of subverting an entire tradition of philosophical terms, and redefining them for his own use (“Transcendental subjectivity” anyone? This perhaps bespeaks to my own idiocy, but even after a year of Tony hammering into my head that Husserl’s definition is not synonymous with Kant’s, it took me reading David Carr’s “Transcendental and Empirical Subjectivity: The Self in the Transcendental Tradition” to break me of this bad habit.) Heidegger’s method is more idiosyncratic — and maybe a bit more megalomaniacal — but, I find that learning Heideggerian jargon no less daunting than learning terms like, let’s say, “scheme”, “content”, and “supervenience” in the analytic tradition. Kant is probably the biggest offender, seeing as he is guilty of both Heideggerian and Husserlian semantic crimes.

    I don’t think one can have a background in Kant, and assume that one will easily assimilate into the discussions occurring in contemporary metaphysics, by the way. Philosophical language lends itself to a certain amount (a large amount, really) of precariousness. Do contemporary naturalists share the same metaphysical preoccupations as Kant? Maybe, but by dint of the vocabulary, you wouldn’t know it.

  2. Hey, James.
    Look, let me first say that you’re absolutely right when you mention that Husserl is not the clearest guy around. However, his concerns are connected to the state-of-affairs (pun intended) of his time – by that I mean that to question consciousness, transcendentalism and science were typical topics of concern, and topics that one would be expected to take and problematize differently. So, even if Husserl transforms a great number of terms, his intention when he does so is to take on current questions, is to say something about the lived-world, the lived-body and – the hell! – the political-body.

    Let’s move for a while to the naturalist controversy (Kant-naturalism-vocabulary) the transformation at play there is natural. You have a historical gap – contemporary naturalists and Kant pray to different philosophical gospels, afterall – and I guess that justifies the differences in vocabulary – there was an overall transformation of philosophy. However, you can understand a naturalist problem in Kant without falling prey (pun intended) to the linguo of the naturalists – or the Kantians, for that matter.

    The same is true about Husserl. I can talk about Husserl and criticize Husserl without subscribing to the Husserlian vocabulary, I can even use Husserl as a tool to create a whole new way into social sciences or politics (Habermas, Lafort and Luhrman come to mind). Is it possible to criticize Heidegger without entering his little grammar? How do you address Heidegger meaningfully outside the Heideggerian game-of-language?

    There is nothing wrong with a closed game, but it does resemble religion. ” You need to pray to my gospel to criticize it!” . And though I think there is much to be done with Heidegger, I think most of the things we can do with him is to talk about Heidegger. Its like playing chess, playing chess makes you a better chess player – and that’s about it. Learning about Heidegger makes you a great Heideggerian – and it seems that would be it. There is not much else you could do.

    Arguably, there are plenty of ” closed scholars” out there, but I don’t think any contemporary author (certainly no other phenomenologist, theologicians like Levinas and Dussel are a different animal, and they are in theology to begin with…) INVITES the closed approach as much as Heidegger.

    This is not to say we should let go of Heidegger, but I just think its funny given the intrinsic hermetic features of his work, that we take him to be the leading phenomenologist – when he is probably the most limited and closed phenomenologist of his generation.

  3. James McKain disse:

    Okay, we’re in agreement on the point about Husserlian vocabulary, and I may take some umbrage with the way a Kantian and a naturalist may share the same concerns, but uh, I think I’ll have to figure out why exactly, first. :-)

    The problem with Heidegger qua phenomenologist, is not so much a hermetic language, but, as you have mentioned time and time again, his inability to thematize, or even recognize, modes of givenness as modes of givenness, and to treat them merely as philosophical concepts (i.e., forgetfulness, and maybe to a lesser extent, angst). Of course, the case can maybe be made that the former is symptomatic of the latter…

  4. ” and maybe to a lesser extent, angst”
    To a lesse extent? :)
    Heidegger manages to make angst BORING.

  5. paulo disse:

    GOOD!entendi tudinho!!!!!

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