Enquanto isso, na revista Cult

Marcia Tiburi escreve sobre Capitalismo, Michael Jackson, Guy Debord e Giorgio Agamben.

O Rei do Pop encarnou o infantilismo que sustenta o capital. Tornou-se o nosso brinquedo, um rei de plástico, a serviço de um show do qual não foi, nem por si mesmo, nem por ninguém, poupado nem em vida nem na hora de sua morte. A diferença entre o rei do passado e o do presente é que aquele parecia ter poder, enquanto neste está explícito que o poder é que o tem. E esse poder tem o nome claro do capital.

Quando neguinho acha que as dinâmicas de um modelo econômico podem ser descritas em termos de infantilismo, espetáculo e poder soberano, tu vê que o debate na esquerda parou em 1968 e não tem a menor intenção de seguir em frente.

A imagem total é a imagem após a morte. Ela é a total negação do lucro para o corpo do qual resulta a imagem. Um corpo morto jamais aproveita de si o que outros aproveitam. O corpo do cadáver no aproveitamento total por parte dos outros está inscrito na prática da exploração alienada. Do mesmo modo a imagem. O corpo do morto realiza o princípio fundamental do capitalismo que é o lucro total sem devolução nem pagamento.

O que diabos significa isso? É assim que a gente vai retomar a questão do corpo na filosofia política? Através de uma abstralização demente e hermética – que ainda pensa que o capitalismo tem princípios fundamentais, mais ainda, que tem RELEVÂNCIA ONTOLÓGICA! É só um sistema econômico que por o acaso a gente consegue identificar a partir de certas estruturas que são mais ou menos relevantes em diferentes fases do capitalismo. Agora, dizer que o capitalismo – na esfera global – se ocupa da vida nua do sujeito só funciona quando tu deixa de lado boa parte das questões econômicas que participam do fenômeno “capitalismo” são fundamentalmente uma questão de organização institucional, e opções nas formas como esta organização funciona.

Mas,

Comparado ao capitalismo que o sugou em vida em sua doação ou venda ao show, ele continua valendo mais que tudo. Assim é que o capitalismo se apresenta de uma vez por todas em sua forma mais essencial, a macabra, na qual a figura muito conhecida da avareza se declara absoluta como miséria da condição humana.

Forma essencial? “Miséria da condição humana”? Mas todas estas coisas, esta duplicidade da “dupla morte do rei”, ela já não é muito anterior ao Capital? Mais ainda, a Miséria da condição humana não é ela mesma característica de uma determinada visão de mundo míope que insiste em ver falta de sentido (um certo sentido, é claro) em todos os aspectos da condição humana? E que teórico é esse, capaz de saber tando sobre a condição do sujeito? Sobre as dinâmicas sociais de vida e morte? Porque associar isso à um modelo econômico – que sequer é expresso de forma única.

E no entanto,

O tempo do capitalismo no gozo da avareza que o caracteriza não deixa nada de graça, não esbanja, não doa, tudo calcula, com tudo lucra, tudo logra. Ninguém lhe escapa.

Eu fico pensando que deve ser realmente difícil trabalhar com uma concepção de mundo que te dá tanta tranquilidade conceitual. Tudo cacula? Tudo lucra? Tudo Logra? Ninguém lhe escapa? Como isso é sequer possível? Novamente, da onde todas estas certezas? A partir de uma operacionalização antiga – completamente caduca – de capitalismo enquanto Ontologia Regional? A partir de uma análise de sistema econômico que sequer uma vez faz uma regressão? Que sequer uma vez apresenta dados para suportar as afirmações? Mas para quê isso? Afinal, foi escrito um livro sobre o corpo duplo do rei, e o autor das cartas aos romanos  falou sobre a questão do tempo de uma forma tal que refere a questão da acumulação e da alienação. E Guy Debord identificou estas estruturas de espetaculização. Ninguém escapa. Para que ir para os dados? Para que verificar a relação entre vida e morte, por exemplo, na internet? De como o virtual mudou a própria forma de privatização e publicização? Que a reação pública a morte de MJ foi muito menor que o esperado? Que pouca gente viu o espetáculo? Mas eu achei que ninguém escapava! Quer dizer que as pessoas podem mudar de canal? Que elas podem desligar a TV? Podem não ter uma TV? Podem se isolar das dinâmicas do capital? Então porque algumas escolhem? Porque estão jogadas numa certa miséria humana? Mas esta identificação de miséria, ela não é a tua? Somente por isso devemos confiar que ela está certa? Mais ainda, que a tua concepção por algum motivo místico tem acesso a uma via autêntica de modo-de-vida que é melhor que o do cara que acha que o Michael é o rei do pop?

Além disso, sequer falar “do capital”, este monstro isolado e dominador, isso não é muito antigo? Superado? Isso já não foi demonstrado como uma visão falida e míope da forma de organização social? Ou vamos continuar ignorando os dados que demonstram a falência do argumento teológico sobre o Capitalismo? Que as dinâmicas sociais não funcionam em termos que são determináveis de forma tão fácil – ou que podem ser descritos perfeitamente por esta ou aquela doutrina do corpo social e político? De novo, que existe um dever-ser por trás de toda o estado-de-coisas que somos capazes de identificar? “A miséria da vida humana não deveria ser assim, a vida humana não é miserável, ela pode ser vivida fora do capital nestes termos que eu escrevi neste livro”. Ora, e qual é o acesso privilegiado que tu tens, que nós – miseráveis – deveriamos agora subscrever? O colapso da economia mundial, então, é resultado de algum outro fator místico? Mas de novo, eu achei que fosse inescapável.

Comments
7 Responses to “Enquanto isso, na revista Cult”
  1. Carlos disse:

    Essa semana eu conheci um prefeito-intelectual-religioso-com-passagem-em-convento-que-faz-doutorado com essa mesma conversinha da Tiburi. Nas palavras dele: “nao sou politico, vou largar, nasci pra academia!”.

  2. Legal é o cara achar que a Academia não é ambiente político.

  3. Carlos disse:

    hehe.. ainda tem isso!

  4. G.D. disse:

    Comprar integralmente em 2009/Outubro a versao marxiana (ainda que modernizada com toques de Debord e outros) de MUNDO trata-se, sim, de um erro.

    Agora, estas muito otimista se pensa que tudo pode girar na esfera de que o Capitalismo “…É só um sistema econômico que por o acaso a gente consegue identificar a partir de certas estruturas que são mais ou menos relevantes…”.

    Talvez ela fale da LOGICA por tras do mecanismo capitalista e nao do “sistema economico” em si. Hmm? HEIN HEIN HEIN? (cutucando com o cotovelo a moda Flores da Cunha – ia dizer Carlos Barbosa, mas achei melhor nao provocar mais).

  5. Mas tchê, esta concepção é completamente demente. Como assim “Lógica por tras do mecanismo capitalita”? Qualquer sistema tem elementos próprios a partir dos quais podemos entender ele, beleza. Mas a questão é como a gente operaciona estes elementos, os elementos – por si só – não podem possuir qualidades como “bons”, “ruins”, “dominadores”. Até porque eles não tem existencia superveniente à nossa capacidade de significar eles. Não tem o menor sentido isso de “inerentemente dominador”. Um conceito não tem sentido sem alguém para operacionalizar o sentido. Tu pode dizer “capitalistas são malvados”. Ok, beleza. Alguns são. Mas se ela fala da LÓGICA por trás do mecanismo capitalista, ela tá caindo em uma concepção psicologicista e completamente defasada de como modelos lógicos são utilizados. Lógica é OPERACIONALIZAÇÃO, ninguém depois de Carnap vai sequer aceitar um modelo ontologizante de lógica. Pelo amor de deus.

  6. Marcelo disse:

    Uma vez eu peguei uma cult pra ler. Todos os garotos legais tavam lendo. Aqueles com óculos quadrado, blusa com gola alta e uma preocupação com a finitude humana perante o infinito do universo.
    Como faço normalmente pra ver se algum texto é bom, peguei uma página e um parágrafo aleatório. Caiu num poema:

    “…
    Quando Godzila esporreia
    Em Tóquio chove branco
    …”

    ou algo assim.

  7. Carlos disse:

    Destruiu a Cult pra eternidade! :)

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