Obama e a defesa da guerra

Então o Obama diz o óbvio no discurso dele ao receber o prêmio nobel da paz e todo o beautiful people pacifista reage com o típico horror diante da constatação que pessoas sangram, sofrem e morrem. E que fazer política é justamente manejar as pessoas sangrando, sofrendo e morrendo.

Diante deste tipo de coisa, o pacifista geralmente reage com platitudes. “A construção de uma política que leve à felicidade humana e a paz entre os povos” é a preferida. Como se isso fosse possível, praticável, realizável – como se paz fosse alguma coisa que se tem fora do cemitério de Koninsberg que um certo alemão tinha em mente ao cunhar o termo “cosmopolitanismo”. O pacifista é muito bom em identificar estas platitudes e apontar o horror da política contemporânea, o pacifista também é muito bom em condescendência moral e “compreensão” de “visões de mundo”. Como visões mundo são constituídas? Como elas chegam a ser o caso? Que o mundo esteja em situação de conflito permanente? Isso tudo, parece, não é lá muito importante.

Ontem passei a tarde lendo a tese do Walter. A questão do Walter, me parece (e ele pode se defender aqui), é que o liberalismo enquanto doutrina política se tornou irresistível. O discurso do Obama indica a mesma coisa: é preciso puxar as civilizações não-liberais para dentro da doutrina abrangente que entendemos como liberalismo (isso quer dizer, efetivar princípios gerais de justiça para estas civilizações).O Obama defendeu, ontem em Oslo, o processo civilizatório e emancipatório que as doutrinas liberais tem o potencial de realizar. Mas ele também lembrou que a realização deste potencial será, muitas vezes, forçoso.

A reorganização política do Afeganistão, por parte de qualquer país que não seja o Afeganistão, pode ser, no entanto, uma roubada. Quero dizer, até que ponto é possível organizar políticamente aquela região? O custo político-social disto vai ser grande para todos os lados, e o Obama certamente sabe disso. Mas o que tá em jogo é também a segurança não apenas da região, mas do globo. Afinal, o Paquistão ali do lado tem armas nucleares e a Índia também. O recado do Obama não é tanto para o Afeganistão, mas para a região como um todo: a busca da segurança das civilizações liberais, se necessário, vai passar por obliterar as insurgências de extremistas nestas regiões. E pouco importam as razões para as insurgências.

Existe um problema de proporcionalidade? É claro que existe. Mas o problema também passa por um mundo que não é mais unilateral – que é sequer bilateral. O que existe é uma doutrina abrangente e todo um movimento periférico que resiste esta doutrina. Mas o problema está longe de passar apenas pela ideologia liberal, mas por resistências tribais e repetidas trabapalhadas em manejar estas resistências de forma política – que acabaram radicalizando ainda mais os processos de “insurgência”.

Diante da radicalização da insurgência, é preciso historicizar ela e compreendê-la? Para o político, isso importa? Ou importa que estes caras tão com uma mão no livro sagrado de escolha e a outra no botão que larga a bomba? Quer dizer, a escolha do Obama é mais complexa que absolutismos morais do tipo “paz na terra”, “tolerância religiosa” e “relativismo cultural”, e talvez sequer seja uma escolha. É mais a constatação de um conflito civilizatório que não foi escolhido pelo Obama, mas do qual ele tem que dar conta.

Aqui temos que voltar para a questão da doutrina ou ideologia liberal como a doutrina política do nosso século. Não um liberalismo grotesco lesser faire, mas um liberalismo enquanto doutrina abrangente que inclui inclusive concepções críticas e públicas de justiça. Se temos este processo em pleno andamento na declaração de direitos do homem, na constituição de uma união européia, porque não lutar por ele?

E a resposta do Obama é clara: sim, é preciso lutar por este processo de emancipação política que vai obrigar muitas civilizações a mudar sua forma de ver o mundo. Mas é assim que as coisas funcionam mesmo: visões mundo acabam, morrem, e com elas milhares ou milhões de pessoas. A lógica da histórica é essa mesma. A questão é o lado da história no qual tu queres estar, e qual é a concepção de bem que tu pretende que sobreviva este processo obliterador. O silêncio e a espera inútil pela paz-que-vem sempre são mais irresponsáveis que a ação política informada em defesa de uma determinada concepção de mundo – e 1941 está aí para provar isso.

Comments
8 Responses to “Obama e a defesa da guerra”
  1. Carlos disse:

    Talvez a guerra seja inevitável; eu não sei. Mas a conversinha que ela seja para atingir a paz é piada. Por que não obrigar ao seu próprio povo a visão do povo-inimigo para buscar a paz?

  2. Moche disse:

    Poxa, estava até gostando razoavelmente da perspectiva Rawls/Rorty/etc. do texto, embora dela discorde, mas o final … hum, mencionar a II Guerra é meio clichê! :/

    Enfim, essa discussão é tri complexa.

  3. Olha, até pode ser clichê. Mas eu me referia mais ao permicismo Inglês (e da europa ocidental, como um todo) que permitiu ao Hitler se tornar o Hitler. Não tanto à segunda guerra, mas ao que levou ao III Reich dominando 2/3 da Europa e fazendo o que fez.

  4. “permicismo que permitiu” lalalalalá “água que molhou” lálaálálá

  5. Pedro disse:

    Este teu post me fez lembrar da entrevista do Popper, no longínquo 1992, na qual ele defendeu que “we should not be afraid to wage war in the pursuit of peace”…
    Aliás, se o Obama tivesse apenas lido aquela entrevista teria se saído bem melhor!

    “A construção de uma política que leve à felicidade humana e a paz entre os povos”! SENSACIONAL!!!

  6. To lendo um livro que coloca esta declaracao do Popper numa perspectiva muito interessante. Chama ” Wittgenstein’s Poker” , vou falar dele la no distropia assim que terminar de ler :)

  7. Carlos disse:

    Comparar Obama com Popper é sensacional!

  8. marlon disse:

    bá, Pontã, sorry, mas dessa missa tu não sabe a metade. a “escolha” do Obama já foi tomada há muito tempo, e não por ele [o que ele fez logo que assumiu o cargo?].

    só concordo que estamos num momento meio pré-1941. [eu diria “Alemanha, 1936].

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