Quanto tempo cabe em três anos?

O período  entre o dia 2 de Janeiro de 2007 e 15 de janeiro de 2007 foi completamente insano.

Eu tava lembrando, por motivos óbvios, destes dias. Dia dois foi o final das nossas comemorações de fim de ano. A comemoração do dia de fim de ano entre 2006-2007 permanece como uma das melhores festas que eu já fui na minha vida. Começamos dia 31, saímos dia 2. Ninguém passou mal. Ninguém brigou. Todo mundo passou o tempo todo se divertindo como se não houvesse amanhã.

Eu acho que embora a gente não soubesse com certeza, havia ali uma certa consciência de que aquela festa podia ser a última vez que o pessoal se reunia todo em um bom tempo. Acho que ninguém sabia que seria a última festa em três anos, a última grande festa em três anos. Haveriam, ainda, mais alguns encontros naquele semestre – quase todos improvisados, correndo, entre mudanças imprevistas, entrevistas, e cartas de recomendações escritas e re-escritas.

Dia 4 foi a defesa do Mauro, dia 6 a do Thi e dia 8 a minha. Eu lembro que marquei entrevistas de emprego para a segunda semana de janeiro. Dia 15 de janeiro era a deadline para mandar a carta de aplicação para o CNPq, e dia 5 era a deadline para aplicar para Syracuse. Dia 12, bom, a maior parte de vocês sabe sobre o dia 12, mas deixa eu reproduzir um acontecimento:

*telefone toca*

Orientador : Fabrício, deixei as cartas de recomendação para o CNPq e para as entrevistas de emprego aqui. Tu pegas hoje?

Eu: Olha, tu vais estar por aí amanhã?

Orientador: Pode ser, hoje fica complicado?

Eu: Tendo em vista que eu vou casar daqui a uma hora, sim, fica um pouco complicado. Mas eu posso tentar passar na PUC antes (isso foi falado sem sequer uma gota de ironia)

Orientador: Casar?

Eu: É, eu e a Tati vamos casar hoje.

Orientador: Isso é sério?

Eu: Sim.

Orientador: Ahmn, parabéns, né. Não deixa a noiva fugir.

Eu: É, pois é. Olha só, eu tava pensando nestas questões (…)

Orientador: Acho que tu pode não pensar nisso hoje.

Eu: É, né? Bom, acho que eu preciso terminar de me arrumar.

Orientador: Olha, pode ser uma boa idéia.

O que ocorreu depois é que corremos para o cartório, eu carregando meus pais, e não sei quem levou a Tati pro cartório. Depois reunimos o pessoal no ateliê das massas. Foi engraçadíssimo, divertido e de várias formas foi exatamente o que a gente queria fazer: uma festa pequena para os amigos e para os familiares.

Mas o interessante é que no dia 8 já tinha sido dada a largada para o período mais conturbado, creio eu, das nossas vidas. A minha banca durou três horas e meia, saímos de lá, almoçamos com os amigos (mesmo povo que foi no casório, basicamente) e eu comecei a correr feito um louco para começar a aplicar para emprego. Logo depois do casamento a Tati e a Paula foram para Aracaju, eu fiquei mais duas semanas em porto alegre, tentando arrumar emprego (e fracassando). Dia 15, como eu disse, era a deadline para aplicar pro CNPq. Bom, isto foi hilário. Porque eu saí correndo atrás das cartas, que no caso do CNPq são enviadas por correio convencional – e não via internet. Consequentemente, eu tinha que correr atrás das cartas, depois da tradução juramentada das cartas e do meu currículo para mandar para Syracuse e finalmente correr atrás de um emprego – tudo isso para poder passar as férias em Aracaju.

Em março, a Tatiana receberia as notícias de que as coisas não iriam funcionar para 2007 nos Estados Unidos. Consequentemente, começamos a correr contra o tempo, para arrumar a aplicação para 2008 novamente. Isso até o dia quinze de maio, quando do nada, chega uma correspondência convidando para ir para Carbondale. Eu mencionei que quinze de maio era o último dia para as aplicações da Fulbright? Eu lembro de estar saindo de casa, para  levar a Tati para o ônibus, com o Ferrari e o Tiago comigo, sem saber naquele momento se a correspondencia que a gente tinha recebido era séria. Depois ela me liga dizendo “é sério, fala com o Professor Nythamar sobre isso, para gente se informar sobre a universidade”. Mando email, toda a coisa. Em resumo, a resposta foi “olha os dados da universidade em Illinois, não hesita. Vai.”

Esperamos até o fim da semana. Tudo se desenha. Isso é final de maio, bem entendido. Passamos o período de março até abril preparando para viajar apenas em 2008. Daí a jornada virou de lado. De uma viagem que parecia distante um ano, passamos a ter que preparar nossa vida para sair em dois meses, talvez três. E eu tinha uma seleção inteira pela frente, e o prospecto de ficar coisa de um dia de viagem distante da minha esposa. A coisa tava digna de uma síncope nervosa.

Os amigos que a gente imaginava ter por perto mais um tempo, do nada, tiveram que ser colocados em uma perspectiva diferente “porra, eu não vou ver estes caras por um bom tempo” começou a ser algo constante na cabeça, isso sem mencionar as peculiaridades familiares que não cabem em um blog. O negócio todo ficou real e ao mesmo tempo.. era difícil conceber toda a mudança.

Ontem, depois de ter almoçado em Cobden com a Tati para comemorar nosso terceiro ano de casamento, a gente comentava – como a gente comenta tantas vezes – que era quase inconcebível três anos atrás, quando a gente estava cercado dos amigos e da família, e depois quando estávamos em Aracaju, era quase inconcebível ali pensar em estar no meio do nada em Illinois, passeando de carro entre Cobden e Anna e combinando as viagens pro semestre, a Tati com o coursework dela finalizado, eu com uma posição de pesquisa em um centro de fenomenologia que está ganhando destaque internacional, todas estas coisas.

É bizarro pensar isso, porquê existe toda a retórica “parece pouco tempo”. Não parece pouco tempo mesmo, parecem exatamente três anos. E eu não sei quanto tempo cabe ou quantas vidas cabem em três anos, mas eu acho que a gente fez mais coisa em três dias entre 2006 e 2007 do que pessoas fazem em décadas. Claro, isso é tudo hiperbólico e besta – em um certo sentido quase todas as coisas pessoais são hiperbólicas, bestas e irrelevantes.

Mas é estranho ver as fotos do ano novo, as fotos do casamento, as fotos da defesa, as fotos de Salvador e de Aracaju, ver os posts que eu escrevi sobre Brasília – neste blog mesmo! – as fotos da despedida da Tati, da minha despedida, a lembrança do último jogo (Gurps Guasca 2007) do narguila na casa do Tiago, das discussões terminando em coisas voando para tudo que é lado com o Ferrari, enfim, destas coisas que a gente não tem aqui – destas coisas íntimas. Seja o jogo de carta com a Renata ou os almoços de sábado. Ou as viagens eventuais para aracaju, pensar tudo isso é agora tanto uma reminiscência quanto uma expectativa.

Acho que era isso que Husserl queria dizer com tempo vivido, no fim das contas.

Comments
8 Responses to “Quanto tempo cabe em três anos?”
  1. G.D. disse:

    Bonito, isso.

    Mais ou menos o que eu senti diante do fato de que eu dormi num hotel no Centro de Carazinho noite passada.

    Chega dar um frio na espinha de pensar como aconteceu tudo que desde 2007/2 me levou ate ALI, ontem.

    que coisa isso, vida.

  2. Marcos disse:

    Afudê, cara! Muito legal o post!
    O pensar que tudo isso faz parte do… destino…. do… SER! huahuahuahua :P

  3. depoisdacurva disse:

    olha, tipos assim, três anos é um bocado de tempo qdo a gente ta do lado de cá. Sentindo uma saudade monstra de jogar canastra tomando moscatel, e rindo muito da tua cara e da cara do Sergio pq estão perdendo (de novo) pra mim e pra Tati.
    Isso, entre outras coisas…
    bjus

  4. Ferrari disse:

    Foram os três anos mais longos da minha vida também, não só pela saudades, mas pq TUDO aconteceu nesse meio tempo. Acho que finalmente a gente tá crescendo, e não sei se isso é bom ou ruim.
    E não sei o que seria sem a internet pra “aproximar” as pessoas -aspas aqui talvez pq só aumente a saudades.
    Como falaria o sr. Schwartz, “time is the fire in which we all burn”

  5. Paulinha disse:

    Desculpa, cara, essa bando de merda não teria acontecido se eu não tivesse inventado de apresentar vocês dois.

    Há! Té parece! :P

    Se fuderam pro resto da vida. :*

  6. Sergio disse:

    Me deu uma vontade de GANHAR de novo na canastra, acho que esta acabando nossa gordura Fá, foram tantos massacres….sem piedade…será que elas aprenderam algo??

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