Não recomendo

Todo mundo já passou por aquele momento clássico onde pensa “isto é uma das piores coisas que já li na minha vida”. No entanto, poucas vezes o cara tem o bom-senso de admitir isso em público. Fazer amigos e ser agregador é mais valorizado nestes nossos tempos de maricas do que dar a cara a tapa.

Pois bem, estava pensando nas coisas que não recomendo em filosofia – de forma alguma. Coisas que achei tenebrosamente ruins e sugiro efusivamente manter distancia. Pois bem, lá vai minha listinha de dez livrinhos:

John Hare: Moral Gap

O livro até não faz uma crítica tão ruim do utilitarismo. Até que tu percebe que o John tá passando o livro brigando com papai e tentando defender uma insanidade teológica como argumento filosófico. Horrendo.

Josiah Royce: The problems with Christianity

Royce concorre fortemente para a pior filosofia que já li na minha vida. Que um cara sugira a importância da entrega à Deus para a realização moral À SÉRIO em um livro de FILOSOFIA no SÉCULO XX, é algo que me causa a imediata aderência ao Dawkins. Depois eu reviso. Mas a leitura do Royce estragou cinco anos de construção de tolerância religiosa na minha cabeça. Ler Royce me convenceu que tu tem que tomar lado. E se eu tiver que tomar lado, me encontra ali BEM LONGE de gente da laia do Royce.

Adorno: Über Jazz

Lixo racista.

Heidegger: “Die Frage nach der Technik”

Lixo nazista.

John Searle: Freedom and Neurobiology

Pessoas que nunca viram um cérebro, nunca fizeram residência médica e nunca tiveram que tomar decisões sobre tratamento de doentes com problemas neurológicos, realmente não deveriam escrever sobre neurologia. Sei lá, é só uma… pequena sugestão. O cabeça de bagre do Searle acha que pode ficar vomitando regra para cima de todo mundo, mas tem uns dez anos que ele não acerta a mão. Minto, uns vinte. Ah, quem se importa? Vai ser sempre um sujeitinho trabalhando na sombra do Austin.

Max Scheler:Ressentiment

Receita para um livro de filosofia fracassado: Pegue um conceitinho qualquer em um autor de qualidade questionável. Que tal “re-sentimento” em “Nietzsche”? Tente compatibilizar este conceitinho mal elaborado com um esboço de filosofia moral. Que tal a tradição moral cristã? Legal, bonitinho. Escreva um livro sem sentido, cheio de lugares comuns e prescrições que será usado para todo o sempre como argumento em caso de crítica. Ah, a contra partida? Se quem acusa de resentimento já sofre dele? Ah, para que perder tempo com estas coisas, né?

Peter Singer: How are we to life?

Eu respeito o Peter Singer. Sério mesmo. Ele é provavelmente um dos caras mais corajosos fazendo filosofia. Mas ele precisava ser tão… moralista? Cara, tu não tem nenhum acesso privilegiado à realidade para me dizer como eu devo viver a minha vida. Sai daqui.

Platão: República

Muita gente diz que a história da filosofia é uma nota de rodapé para Platão. Eu digo que se dane Platão. Uma vez me disseram para esquecer Platão, toda vez que eu re-leio a republica, acho que seria algo interessante para fazer.

Foucault: História da Loucura

Um emaranhado de fabricações, hipóteses mal elaboradas e método fracassado. Uma lição em como não fazer filosofia, humanas, ou qualquer tipo de pesquisa.

Zizek: Bem-vindo ao deserto do Real!

Eu também gosto de bater no Habermas. Acontece que não adianta bater sem ter um bom argumento contra o cara. Zizek dedica um livro a tentar fazer conexões que não existem (Agamben/Lacan), traçar paralelos que não importam (psicanálise/política) e retomar discussões que simplesmente não fazem mais sentido (comunismo Real/o conceito-de-real-com-R-maiúsculo)

Pronto. Eu não recomendo estes. (foi mais difícil que eu pensava escolher dez!).  Dia desses penso nos meus preferidos.

Ah sim, estes são os meus. Talvez tu goste de um dos que tá na lista, com exceção do livro do Adorno e o do Heidegger, eu até sou capaz de te escutar. Mudar de idéia? Tchê, se tu acredita que as pessoas das humanas mudam de idéia assim, sem serem apresentadas ao velho amigo trezoitão, tu não tá andando com gente das humanas tempo suficiente…

Isso, é claro, se é que filosofia é humanas.

Comments
7 Responses to “Não recomendo”
  1. G.D. disse:

    o SEARLE parece obcecado em NEGAR “cientificamente” tudo o que a filosofia contemporanea tem de INTERESSANTE. MALA completa. (veja bem, nao disse que NENHUMA critica dele nao serve contra os “faceiros”).

    o ZIZEK, definitivamente, empurra o GODOT mais forte de todos os tempos.

    INSISTO contigo que o Foucault deve ser lido de outra forma. A bicha estava fumando hash, tomando um cafezinho e tecendo hipoteses. Se tu ler aquilo como uma pretensao de HISTORIA (literalmente), o resultado realmente fica nefasto.

  2. Marcelo disse:

    Filosofia tinha que ser feita em formato de forum, não de livro.

  3. Calma aí. O Foucault precisa ser lido tipo…. num CLIMÃO? Cara, me desculpa, isso não é sério. Tipo, não tem método. Não tem rigor. Falsifica de forma notável uma por uma as hipóteses históricas para dar espaço para uma tese completamente sem sentido, que qualquer aluno de história de segundo semestre consegue te demonstrar que não pode e nunca poderia ter sido o caso.

    De quebra, o Foucault permite todo tipo de POSE. Especialmente no período da história da loucura. Por mais que o Agamben tente retomar a arqueologia do Foucault, tem muito pouco para ser retomado. Assim como foi o Nietzsche, é só um ensaiozinho de quinta categoria tentando falar coisinhas espertas.

    Negócio seguinte, sem método não existe filosofia. Não existe teoria social. Não tem nenhum tipo de articulação significativa. Se tu abre mão do método, da coerência argumentativa e do rigor procedimental, não tem nenhum sentido a gente ouvir o que tu tem para dizer. Vira papo de bar.

  4. Tem que parar com essa visão romântica que o cara senta e pensa UMAS IDÉIAS BACANAS AÍ. Não tô dizendo que precisa ser o método científico, embora ele ajude significativamente – e acho que ajudaria especialmente alguns indivíduos que pensam que basta escrever três frases de efeito para chamar algo de “ENSAIO” ou “AFORISMA”.

    Sei lá. É meio engraçado falar isso em um blog – que, afinal de contas, não se presta para estas coisas.

  5. G.D. disse:

    “…Não tô dizendo que precisa ser o método científico…”

    EXPLIQUE isso, por favor.

    (sem ironias. Trata-se de um pedido, literal)

    :)

  6. G.D. disse:

    Postei uma resposta-pergunta e nao foi?

  7. Por algum motivo o Spam filter identificou o “explique isso” e o uso das quotes como spam. Bizarro.

    Arrumei :)

    O que eu quero dizer é que tu tem vários métodos. Tu tem várias formas de apropriar uma questão, de ler um texto, de abordar um problema. Agora, qualquer método, seja ele científico, fenomenológico, crítico, cartesiano, indutivo… qualquer método, ele vai te pedir pelo menos dois critérios: transitividade e conectividade.

    Em termos menos pomposos, coerência e consistência. O texto do Foucault insiste em diversos tiros no próprio pé. Se a gente leva o Foucault a sério, como é possível uma interpretação errada de Foucault? Se uma interpretação errada de Foucault não é possível, como é que ele pode estar certo? Se ele não tem algo para nos dizer em termos de verdadeiro ou falso – uma hipótese demente, é claro – ele teria pelo menos insights?
    Mas daí … como abordar isso? Se o autor não nos dá nenhum núcleo irredutível? Tudo bem, tu não precisar ser um realista. Tu não precisa reduzir o problema à este ou aquele fenômeno. Tudo isso tá em aberto. Eu não estou dizendo que devemos todos ir ler Hillary Putnam e virar realistas objetivos.

    Mas ainda cabe a pergunta: se tu baseia teu texto inteiro em uma premissa errada, em questões históricas que não são o caso – e veja, eu sei que não existe uma história literal. Mas a gente sabe que existem coisas que podem e não podem ter acontecido. Por exemplo, não existiam aviões no Egito Antigo. E também Não existiam os tais barcos dos loucos. NÃO-EXISTIAM.

    E por aí vai. A leitura do Foucault do Cogito cartesiana está er-ra-da. A leitura do Foucault do surgimento dos manicômios é um embuste. Não foi daquele jeito. A questão da imposição da normalidade como estratégia de razão dominante é uma coisa deprimente. Não é uma leitura aceitável. E por aí vai. Tu vai indo um por um dos argumentos, e está tudo simplesmente errado.

    Não digo que todo o Foucault é um embuste. Mas a História da Loucura certamente é um texto sem método, sem verificação e sem cuidado. Tanto que já foi devidamente deixado de lado. Agora, foi importante para a reforma da estrutura dos manicomios na Europa? Talvez. Pode ser. Mas isso é relevante, exatamente, porque? Isso não torna o livro bom, torna, no máximo, históricamente importante.

    E talvez fosse justamente isso que o Foucault queria. Vai saber.

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